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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
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CINEMA

Divulgação
Alagna e o excelente Raimondi, na Tosca: rara adaptação que deu certo


Tosca
(Tosca, Inglaterra/França/Itália/
Alemanha, 2001) – Raramente a transposição de óperas para o cinema dá certo. Uma exceção é a ótima Tosca que acaba de entrar em cartaz no Brasil. Ela não padece dos problemas comuns a filmes do gênero, como a canastrice dos cantores líricos. Essa Tosca conta em seu elenco com o melhor ator do mundo da ópera, o italiano Ruggero Raimondi. Ele dá um show na pele do barão Scarpia, provavelmente o pior vilão das tramas líricas. Scarpia é um virtuose em vários estilos de maldade. Estupro, tortura, chantagem e assassinato fazem parte de seu repertório. O papel é um prêmio para Raimondi, que esculpe a complicada psicologia do personagem com sutis trejeitos e inflexões de voz. Tosca e Cavaradossi, que formam o par romântico, são interpretados respectivamente pela soprano Angela Gheorgiu e pelo tenor Roberto Alagna, casados na vida real, que têm boa voz e não comprometem como atores. O enredo de Tosca é mirabolante como costumam ser as tramas de ópera. Tramas sem pé nem cabeça não combinam com a linguagem realista do cinema – e é esta a razão do fiasco da La Traviata de Franco Zeffirelli ou da Carmen de Francesco Rosi. O diretor Benoît Jacquot evita a armadilha, optando por uma mistura entre cenários teatrais, imagens oníricas e trechos de making of. Dessa forma, não é o horrendo libreto de Illica e Giacosa que fica em evidência, mas a sublime música de Giacomo Puccini – a qual, bem tocada e bem cantada, é por si só uma excelente razão para ir ao cinema.

Assista ao trailer   
56K | 100K | 200K

O Grande Ditador (The Great Dictator, Estados Unidos, 1940. Reestréia no dia 25 em São Paulo, Rio e Brasília) – Há tempo os historiadores do cinema colocaram Charles Chaplin em seu devido lugar: não apenas o do cômico que encarnava o vagabundo Carlitos, mas o de um dos grandes narradores cinematográficos de todos os tempos, extremo no talento e no perfeccionismo. Em 1940, em plena II Guerra, Chaplin concebeu esta sátira sobre Adolf Hitler, com quem, a certa altura, um humilde barbeiro judeu é confundido. O que há de realmente atemporal aqui é a capacidade de Chaplin de se comunicar com qualquer platéia, sem subestimar sua inteligência e sem deixar de provocar surpresa. Um verdadeiro clássico – e em cópia nova, com projeção digital.

 

LIVROS

O que Einstein Disse a Seu Cozinheiro, de Robert L. Wolke (tradução de Helena Londres; Jorge Zahar; 299 páginas; 35 reais) – O autor é químico e gourmet. Essa dupla qualificação dá um viés original à coluna que assina no jornal americano The Washington Post, bem como aos textos aqui coligidos, nos quais a culinária é abordada do ponto de vista da ciência.Wolke explica fenômenos que intrigam qualquer pessoa que já tenha estado às voltas com o preparo de uma refeição e dá dicas, embasadas na química e na física, para tornar mais simples o trabalho na cozinha. Se nada gruda no teflon, como ele gruda nas panelas? Açúcar refinado faz mal? Por que bolachas água-e-sal têm furinhos? Essas são algumas questões respondidas por Wolke, com muito humor. Ele também apresenta receitas curiosas, que vão das tortas de cogumelos a uma musse de chocolate feita com azeite em vez de creme de leite. Leia trechos do livro.

 
Oscar Cabral
Bellos: histórias pitorescas

Futebol – O Brasil em Campo, de Alex Bellos (tradução de Jorge Viveiros de Castro; Jorge Zahar; 350 páginas; 39,50 reais) – Durante dois anos, o inglês Alex Bellos – correspondente dos jornais The Guardian e The Observer no Rio de Janeiro – rodou pelo país com a intenção de produzir um livro sobre a cultura futebolística nacional. Acabou fazendo um trabalho que traz à tona muitas curiosidades. Ele não se restringiu às entrevistas com craques profissionais, dirigentes e especialistas. Foi atrás dos anônimos cuja vida é marcada pelo futebol. Encontrou, assim, personagens e eventos pitorescos, como um campeonato em Manaus que é um misto de pelada de várzea e concurso de miss. E mostrou, ainda, a situação dos atletas brasileiros que atuam nas gélidas Ilhas Faroe, a meio caminho entre a Noruega e a Islândia. Leia trechos do livro.

 
Leonid Streliaev
Verissimo: imaginação sem limite

A Vida do Elefante Basílio e O Urso com Música na Barriga, de Erico Verissimo (Companhia das Letrinhas; 52 e 48 páginas; 22 reais cada livro) – Autor de obras que marcaram a literatura nacional, como O Tempo e o Vento e Incidente em Antares, o gaúcho Erico Verissimo (1905-1975) foi também um prolífico contador de histórias infantis. Essa faceta do escritor é resgatada numa coleção que reúne seis livros para crianças que ele criou no fim dos anos 30. As caprichadas reedições trazem ilustrações da paulista Eva Furnari. Em A Vida do Elefante Basílio e O Urso com Música na Barriga, os dois primeiros títulos a sair do forno, fica claro qual era sua maior arma: a imaginação desabrida. Na primeira história, por exemplo, ele fala sobre um elefante cujo sonho é voar como uma borboleta. Leia trechos de O Urso com Música na Barriga.

Contos de Fadas Ingleses (tradução de Inês Lohbauer; Landy; 230 páginas; 30 reais). Contos de Fadas Russos – Vols. 1 e 2 (tradução de Dinah de Abreu Azevedo; Landy; 347 e 302 páginas; 40 e 35 reais) – Esses livros proporcionam prazeres opostos. O primeiro traz histórias bastante famosas, mas com tempero inglês. Tome-se o caso de A História do Pequeno Polegar: a saga do menino que é do tamanho de um dedo mistura-se, aqui, às lendas dos cavaleiros da Távola Redonda, entre os quais o herói é aceito no fim de suas aventuras. Já os dois volumes de contos de fadas russos apresentam uma tradição completamente desconhecida do leitor brasileiro, em que Ivans e Natashas deparam com acontecimentos maravilhosos. Os textos foram extraídos da mais célebre coletânea do gênero, organizada pelo estudioso Aleksandr Afanas'ev na segunda metade do século XIX.

Os 100 Melhores Contos de Crime e Mistério da Literatura Universal (vários tradutores; Ediouro; 832 páginas; 79 reais) – Depois de organizar uma antologia de contos de humor que permaneceu por meses na lista de mais vendidos, o escritor gaúcho Flávio Moreira da Costa repete a receita. Ele produziu uma coletânea de clássicos nacionais e estrangeiros tão rica quanto heterodoxa. Várias das obras incluídas nem pertencem ao gênero conto – a começar daquela que abre o livro, um trecho da Bíblia que narra a história do personagem Sansão. Ao lado de surpresas como essa, Costa não deixou de compilar textos dos nomes obrigatórios, como o escocês Conan Doyle e os americanos Raymond Chandler e Edgar Allan Poe. E também contempla autores que se aventuraram ocasionalmente nessa seara, como o brasileiro Machado de Assis.

 

DVDs

Greenwich Film Production
Mephisto: sobre o nazismo


Mephisto
(Hungria/Alemanha, 1981. New Line) – Na Alemanha dos anos 30, um ator de província, talentoso mas frustrado, vê sua sorte transformar-se com o casamento com uma burguesa, a mudança para Berlim e a amizade cada vez mais estreita com o comando nazista. À medida que Hitler ascende, também o sucesso do ator numa peça alusiva ao mito de Fausto (aquele que vendeu a alma ao demônio) aumenta, até que ele não faz outra coisa que representar – para os nazistas e para si. Klaus Maria Brandauer está no seu melhor momento como o protagonista, que foi parcialmente inspirado numa figura verídica. E também o diretor húngaro István Szabó nunca fez outro filme que se comparasse a essa excelente adaptação do romance homônimo de Klaus Mann, filho de Thomas Mann.

Best of, David Bowie (EMI) – Um dos primeiros artistas a usar sua experiência como ator dramático em seus vídeos promocionais (a ponto de ser apontado como o pioneiro do videoclipe), o cantor inglês tem sua carreira dissecada nesse ótimo DVD duplo. Os discos trazem todas as personas que Bowie encarnou entre as décadas de 70 e 90. Como o ser andrógino de Life on Mars?, vídeo dirigido pelo fotógrafo Mick Rock, que clicou os principais ícones do rock dos anos 70. Ou o extra-terrestre roqueiro Ziggy Stardust. Ou, ainda, o "almofadinha" da década de 80, que freqüentou as paradas com canções como Modern Love e China Girl. Best of também apresenta imagens raras de Bowie em programas de televisão, como um show de auditório alemão em que ele canta Rebel Rebel, ou um talk show americano em que ele apresenta uma sensacional versão ao vivo de Young Americans.

 

DISCOS

Lost in Space, Aimee Mann (Sum) – Nos anos 80, a cantora e compositora Aimee Mann mostrou seu lado de sex symbol à frente da banda new wave Til Tuesday. Com o fim do grupo, ainda na mesma década, ela testou vários estilos e foi dispensada da gravadora porque não vendia muitos discos. Até que suas músicas caíram no agrado do diretor de cinema Paul Thomas Anderson – que as colocou no filme Magnólia. Deu tão certo que a cantora concorreu ao Oscar de melhor canção com a balada Save Me. Lost in Space, segundo CD de Aimee Mann após seu renascimento artístico, traz canções folk com discretos arranjos eletrônicos, e cantadas com voz de veludo. Ouça a faixa This is How It Goes.

 
Simonal: suingue endiabrado

Alegria, Alegria – Vols. 1, 2 & 3, Wilson Simonal (EMI) – Há mais de duas décadas fora de catálogo, esses três discos do cantor carioca Wilson Simonal (1939-2000) reaparecem numa caixinha, a um preço camarada. É uma boa oportunidade para conferir o talento de Simonal – que caiu em desgraça durante a ditadura militar, por ter supostamente delatado artistas que simpatizavam com a esquerda. Simonal foi o maior representante da "pilantragem", gênero musical que turbinava as canções mais singelas com um suingue endiabrado. Seria banal não fosse o fato de Simonal ter sido um grande cantor, que contou com a colaboração do compositor e arranjador César Camargo Mariano. Nos discos, há versões sacolejantes de Escravos de Jó, Pára Pedro e Mamãe Eu Quero, e hits de outrora como Sá Marina, Zazueira e Nem Vem que Não Tem.

When the Sun Goes Down: the Secret History of Rock, vários intérpretes (BMG) – Dividida em quatro volumes, essa série ambiciosa mostra como a música negra americana se transmutou até chegar ao rock. Ela traz gravações originais raríssimas da primeira metade do século XX, como as de Catfish Blues e Baby, Please Don't Go, que se tornariam conhecidas décadas mais tarde nas vozes de um John Lee Hooker ou de um Van Morrison. A série apresenta, ainda, faixas pouco lembradas hoje em dia, porém importantes em seu tempo, de artistas célebres como Little Richard. E outras que interessam não apenas pelo valor documental, mas também por mostrar intérpretes em grande forma. É o caso de Beale Street Blues, cantada por Alberta Hunter, e das tristonhas Pearl Harbor Blues e Angels in Harlem, interpretadas por Doctor Clayton.

 

OS MAIS VENDIDOS de 2002 CRÍTICA

O ano de 2002 foi marcado por um certo marasmo no mercado editorial. Essa é uma constatação inevitável ao se examinar a lista de VEJA com os livros mais vendidos dos últimos doze meses. Sobretudo nas seções de ficção e de auto-ajuda e esoterismo, houve mais trocas de posição entre títulos que já vinham fazendo sucesso do que o surgimento de novidades. Na primeira, o fenômeno Harry Potter continua a exibir vigor. Somados, os quatro romances da série venderam quase 500 000 exemplares no ano. Além disso, o gaúcho Luis Fernando Verissimo mantém-se na posição de autor nacional mais lido. No setor de auto-ajuda e esoterismo, não é diferente. Confirma-se que o aconselhamento voltado ao mundo dos negócios está em alta: um representante do gênero, Quem Mexeu no Meu Queijo?, foi o maior best-seller do país em 2002, com 320 000 exemplares comercializados. Também se repetiu o excelente desempenho dos livros que conjugam fotos de bichinhos e frases motivacionais do australiano Bradley Trevor Greive. Ele fez da lista de auto-ajuda um latifúndio, com três obras. Na área de não-ficção, nota-se o quão diverso pode ser o gosto do leitor brasileiro. Nessa lista, há espaço para política (os dois sucessos do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar), etimologia (A Casa da Mãe Joana), humor (Seu Creysson – Vídia i Óbria), confissões de alcova (A Vida Sexual de Catherine M.), futebol (um livro sobre o time do Corinthians) e literatura (Os 100 Livros que Mais Influenciaram a Humanidade). Não se deve esquecer, é claro, de Estação Carandiru. A obra do médico Drauzio Varella, de cunho sociológico, é um fenômeno de longevidade: está há mais de três anos na lista – e não dá sinais de que sairá dela tão cedo.

   
 


Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Nobel, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Nobel, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Nobel, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Nobel, Saraiva, Siciliano; Natal: Nobel, Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano, Nobel; Fortaleza: Siciliano, Laselva, Nobel; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Nobel, Leitura; Maceió: Sodiler, Nobel.

   
 
   
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