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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Se Saddam fosse brasileiro...

...os Estados Unidos prestariam
mais atenção à América Latina.
Mas será que isso é desejável?

Nicholas D. Kristof é um dos mais influentes jornalistas dos Estados Unidos. Basta dizer que é uma das presenças regulares na página de opinião e editoriais do New York Times. Sendo o New York Times o mais influente jornal não só dos Estados Unidos, mas do mundo, e sendo a página de opinião e editoriais a mais influente do New York Times, conclui-se que mesmo o mais medíocre dos jornalistas, se ali tivesse presença regular, já seria, por esse simples fato, um dos mais influentes, não só dos Estados Unidos, mas do mundo. Não é o caso. Não há lugar para jornalista medíocre, no New York Times em geral, e em especial na página de opinião e editoriais. Muito menos é o caso de Kristof, profissional contemplado em 1990 com o maior prêmio de jornalismo dos Estados Unidos, o Pulitzer, por sua cobertura dos protestos na Praça Tiananmen, em Pequim.

Kristof, que habitualmente escreve sobre assuntos do Oriente Médio ou do Extremo Oriente, nestas últimas semanas voltou as vistas para a América Latina. As vistas e os costados: esteve em Buenos Aires e Caracas. E desses lugares escreveu artigos em tom alarmista sobre o estado de coisas na região. O último desses artigos, publicado na terça-feira, tinha por título: "Se Saddam fosse brasileiro" ("If Saddam were only Brazilian"). Se Saddam fosse brasileiro e Hugo Chávez estivesse empenhado no desenvolvimento de armas nucleares, de acordo com Kristof, "Washington teria de prestar atenção ao incêndio na vizinhança", o qual afetará os Estados Unidos, "nas próximas duas décadas", precisa o jornalista, "tanto quanto as maquinações do Iraque". Talvez por falta de familiaridade com os temas latino-americanos, Kristof parte de uma argumentação com pontos vulneráveis para chegar a uma conclusão assustadora.

As premissas do jornalista são corretas no atacado e discutíveis no varejo. Ele se escora na situação desesperada da Argentina, no impasse em que se meteu a Venezuela e na guerra civil que corrói a Colômbia para caracterizar o "incêndio" que estaria devastando o continente. Há realmente uma coincidência de crises que resulta numa situação regional preocupante. Não é muito diferente do que tantas vezes já ocorreu no passado, mas vá lá: o panorama não é mesmo animador. Menos pacífica é a conclusão de que o fracasso das políticas oriundas do "Consenso de Washington" tenha ocasionado uma série de vitórias da esquerda, inclusive no Brasil. Quem assistiu à sabatina do futuro presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, no Senado brasileiro, testemunhou a vitória do Consenso de Washington. Lá estavam, em sua inteireza, as promessas de austeridade fiscal, combate à inflação e outras da mesma família. Dado que agora contam com o alto patrocínio da esquerda, a vitória de tais idéias, que configurariam o "Consenso de Washington", o "neoliberalismo", ou o nome que se dê ao fenômeno, impõe-se de maneira ainda mais acachapante.

Mas as premissas do jornalista interessam menos que as conclusões. E nas conclusões, ao contrário das premissas, ele acerta no varejo para errar no atacado. Ninguém põe em dúvida que os Estados Unidos praticam uma cínica política de comércio, que da boca para fora prega o livre fluxo de mercadorias mas da boca para dentro se entrincheira no protecionismo. Nesse ponto, embora não seja original, Kristof apresenta a conclusão irretorquível de que os benefícios poderiam ser grandes para países como o Brasil se fosse outra a política comercial americana. Mas daí à conclusão geral de que os Estados Unidos deveriam devotar toda a atenção à América Latina vai distância apreciável. Deus nos livre da atenção americana! Quando resolveram prestar atenção – por exemplo, no Chile de Allende –, o resultado foi ditadura e sangue. O presidente George W. Bush começou o mandato com promessas de dar prioridade à América Latina. Depois vieram o terrorismo e o Iraque, e a região caiu no esquecimento. Ainda bem. A atenção americana pode ser sufocante, quando não é truculenta.

O artigo de Kristof é infeliz já desde a hipótese que esboça no título: "Se Saddam fosse brasileiro". Houve época em que se dizia que tiveram mais sorte os países que combateram os Estados Unidos, na II Guerra Mundial, do que os que se aliaram a eles. O Japão, depois de alvejado pela bomba atômica, conheceu, com a assistência americana, recuperação espetacular. Mario Henrique Simonsen costumava destruir esse argumento com o raciocínio de que a única certeza, caso o Brasil estivesse no lugar do Japão, seria a bomba atômica. O surto de desenvolvimento posterior não dá para garantir, inclusive porque nos faltariam japoneses para a empreitada. De modo similar, as únicas certezas, caso Saddam governasse o Brasil, seriam, primeiro, que estaríamos sob grotesca ditadura e, segundo, que atrairíamos o ódio guerreiro dos Estados Unidos. Quanto ao surto de benesses que adviriam no final, se não é certo nem para o Iraque, que já tem Saddam e já tem o ódio americano, mais incerto ainda seria para o Brasil.

   
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