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A nova
batalha pelo anel
Em
As Duas Torres, a segunda parte
de O Senhor dos
Anéis, o diretor Peter
Jackson mostra que sua guerra
para
levar Tolkien à tela continua vitoriosa
Isabela
Boscov
Fotos divulgação
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| Viggo
Mortensen, como Aragorn, atinge um uruk-hai: o novo herói da saga
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Veja também |
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Nada
foi mais difícil no primeiro episódio de O Senhor dos
Anéis, diz o diretor Peter Jackson, do que bolar as cenas expositivas:
aquelas em que, disfarçadamente e sem interromper a ação,
conta-se à platéia o indispensável para que ela compreenda
a trama. Por exemplo, qual o poder do anel (trazer uma nova era de trevas),
quem é Sauron (o senhor do mal), quem são os hobbits (seres
semelhantes a homens, mas diminutos e de pés peludos), por que
um deles, Frodo, aceita a missão de arriscar a vida na tentativa
de destruir o anel (quanto mais poderosa a pessoa que o usa, mais perigoso
o objeto se torna, o que faz dos pacatos hobbits os seus portadores ideais)
e também por que o homem Aragorn, o elfo Legolas, o anão
Gimli e o mago Gandalf se incumbem de proteger Frodo até onde possível
na empreitada (eles representam os povos que ainda não sucumbiram
às trevas). Pela quantidade de parênteses do período
acima, pode-se imaginar o alívio do neozelandês Jackson em
se ver livre de tantas explicações e o quão
pouco esse alívio deve ter durado em face dos desafios ainda mais
duros de O Senhor dos Anéis As Duas Torres (The
Lord of the Rings The Two Towers, Estados Unidos/Nova Zelândia,
2002), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional.
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| Liv
Tyler, como a elfa Arwen: um romance com final infeliz |
Por
ser a segunda parte de uma trilogia, As Duas Torres não
tem um começo nem um fim propriamente ditos. Além disso,
traz tanto enredo a cobrir que simplesmente não há tempo
para recapitulações. O filme mergulha na ação
desde o primeiro minuto para, três horas depois, fazer com que a
platéia deixe o cinema num estado de suspense e agradável
insatisfação que só se resolverá daqui
a um ano, com O Retorno do Rei, que encerra a saga publicada pelo
escritor inglês J.R.R. Tolkien entre 1954 e 1955. Há aí,
claro, um obstáculo. Quem deixou de ver o primeiro episódio
(deve ser pouca gente, já que ele rendeu mais de 860 milhões
de dólares nas bilheterias) não tem a menor chance de acompanhar
o segundo. Mas não é um problema difícil de remediar,
já que A Sociedade do Anel está disponível
em vídeo e DVD. Tomada essa providência, As Duas Torres
se mostra um filme ainda mais bem resolvido, e consideravelmente mais
monumental, do que o primeiro.
Nesta parte da história, a irmandade formada para conduzir o anel
até sua destruição se cindiu. O mago Gandalf, mentor
da missão, despencou num precipício junto com um demônio
de lava e é dado por morto. Aragorn que começa a
assumir seu papel de verdadeiro herói da saga lidera o elfo
Legolas e o anão Gimli numa busca por dois outros hobbits que foram
capturados pelos monstruosos orcs e uruk-hais, que formam a infantaria
de Sauron e seu aliado, o mago decaído Saruman. A perseguição
é malsucedida, já que os dois hobbits escaparam e foram
dar numa velha floresta, onde estão sob a guarda de uma árvore
ancestral, que anda e fala. Mas a trilha leva os três companheiros
até o reino de Rohan, que não sabe como resistir à
guerra iminente com Saruman, já que seu rei, Théoden, está
velho e envenenado pelas palavras de um conselheiro traidor. Lá,
Aragorn, Legolas e Gimli ajudarão a organizar uma batalha absolutamente
espetacular em que 300 homens encastelados no abismo de Helm terão
de enfrentar 10.000 uruk-hais. Enquanto isso, Frodo e seu fiel jardineiro,
Sam, continuam de posse do anel no caminho para Mordor, o domínio
de Sauron. Perdidos e desesperançados, eles se vêem na contingência
de aceitar um guia perigoso a criatura Gollum, que teve o anel
em suas mãos por séculos e foi consumida por ele até
se tornar um feixe de ossos e malevolência.
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| Théoden
e Aragorn se preparam para guerrear, e o ator Andy Serkis (à
esq.) serve de modelo para Gollum: mistura de artesanato e tecnologia
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O
diretor Jackson equilibra esses vários ramos do enredo de As
Duas Torres com critério. Reduz certos trechos da história
ao mínimo, amplia aqueles que são mais ricos do ponto de
vista dramático e visual e ainda reescreve Tolkien, por assim dizer.
Uma das cenas mais belas do filme, aquela em que se vê o destino
malfadado que aguarda o romance entre o mortal Aragorn e a imortal Arwen,
não está no livro. Que Jackson torne inteligível
esse emaranhado de tramas já é digno de admiração.
Mas ele vai mais longe: As Duas Torres deixa de lado o tom pastoral
de A Sociedade do Anel para mergulhar de fato no universo épico,
profundamente marcado pela mitologia nórdica, de Tolkien. O resultado
não é apenas empolgante. Ele estabelece parâmetros
para a técnica cinematográfica que devem estar deixando
o americano George Lucas, o autoproclamado patrono dos efeitos digitais,
verde de inveja.
Jackson filmou os três capítulos da saga de uma só
tacada, ao longo de quase um ano e meio, o que garantiu o custo comparativamente
baixo da produção (300 milhões de dólares,
no total) e a unidade no visual e na atuação quase sempre
notável de seu elenco. Nos três anos que antecederam as filmagens,
as estrelas foram os artesãos. Cada copo, vestimenta, armadura,
cota de malha ou espada que se vê em cena foi confeccionado manualmente,
segundo técnicas medievais o período com que O
Senhor dos Anéis tem maior afinidade. Nos doze meses anteriores
a cada lançamento, o peso recai sobre os técnicos em efeitos.
Isso ao ritmo de 24 horas por dia: as equipes estão espalhadas
pelo globo e trabalham sem parar, cada uma no seu fuso horário.
Desde já, elas tentam cumprir o prazo para que O Retorno do
Rei fique pronto nesta mesma semana de 2003. O saldo desse investimento
pode ser conferido, por exemplo, na batalha de Helm, que só em
filmagem consumiu três meses de atividade ininterrupta. Para essa
cena, o diretor inventou um software em que os soldados digitais não
são clones, como de hábito. Eles sabem diferenciar inimigos
de aliados e tomam suas próprias decisões. O efeito é
absolutamente realista. A criatura Gollum é um marco ainda mais
relevante. Jackson contratou o ator inglês Andy Serkis para dar
voz ao personagem e também para desenvolver seus movimentos peculiares.
Numa primeira etapa, Serkis participava das cenas com Elijah Wood e Sean
Astin, que interpretam Frodo e Sam, para que eles acertassem suas marcações
e não tivessem a sensação incômoda de contracenar
com o vazio. Em seguida, Serkis repetia as cenas sozinho, vestindo um
macacão dotado de sensores. Tais sensores serviam para transmitir
ao computador as coordenadas de seus movimentos, transformados depois
em animação digital. Por fim, fez-se de Gollum um ator digno
desse nome. Dividido entre a lealdade a Frodo, que o trata com compaixão,
e o desejo pelo anel, ele é o personagem mais rico do filme, ao
mesmo tempo trágico e patético. Em instantes, Gollum dissipa
na platéia aquilo que poderia ser a ruína de As Duas
Torres: a consciência de que ele, na verdade, não existe.
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Só
para quem tem dólar
Não
há estúdio que queira colocar nos cinemas um filme
com mais de três horas quanto maior a duração,
pior para a bilheteria. É para isso que serve, hoje, o DVD:
para que os diretores remontem seus filmes do jeito que haviam pretendido.
A versão estendida de O Senhor dos Anéis
A Sociedade do Anel é, nesse sentido, um triunfo. Lançada
numa caixa com quatro discos, ela corrige pequenas falhas de ritmo
do filme (por exemplo, na apresentação dos hobbits),
desenvolve trechos que pareciam um pouco bruscos (como a passagem
da irmandade pela floresta de Lothlórien) e ainda inclui
dezenas de cenas curtas que dão mais robustez aos personagens
ou são um deleite visual. Isso sem falar nos dois discos
de extras, em que se pode conferir, passo a passo, todo o imenso
trabalho exigido pela produção. Mas essa caixa é
só para quem pode pagar por ela em moeda estrangeira
25,99 dólares na loja virtual Amazon.com, sem contar frete
e imposto. Subestimando o potencial do mercado brasileiro, a New
Line americana simplesmente se recusou a lançá-la
por aqui.
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