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Lula
chora, mas
quem sofre sou eu
"Gilberto
Gil pretende continuar a dar
espetáculos no exercício do cargo de
ministro. É injusto. A única vantagem
de ter Gilberto Gil como ministro da
Cultura seria passar quatro anos sem
ouvi-lo cantar"
Em dezembro de 1989, o ditador panamenho Manuel Noriega se refugiou na
embaixada do Vaticano. Para tirá-lo de lá, os soldados do
Psyop, especialistas em guerra psicológica do Exército dos
Estados Unidos, bombardearam-no dia e noite com rock, amplificado por
caixas acústicas de 10.000 watts. Em poucos dias, Noriega se rendeu,
com os nervos em frangalhos.
Um saxofonista do Rio de Janeiro chamado Sangar Vidal usa a mesma tática
do Psyop. No último domingo, estacionou seu Monza branco na orla
de Ipanema, direcionou potentes caixas acústicas para as janelas
do apartamento em que estou hospedado e bombardeou-me com seu CD new age
Quando as Folhas Caem.
Depois de oito horas de música ininterrupta, entrei num estado
de absoluto descontrole emocional, exatamente como Noriega. Quem também
tem estado com os nervos meio abalados é Lula. Ele chora demais.
Chora quando vê novela, chora quando visita a cidade natal, chora
quando recebe o diploma de presidente. O resto do PT é igual. Sempre
tem alguém chorando. Uma hora é José Genoíno,
outra hora é Heloísa Helena. Nada exclui que o Psyop possa
estar por trás disso. O companheiro Bush gosta de desestabilizar
governos alheios. Pior ainda no caso de governos suspeitos, como o do
PT. Se Lula chora convulsivamente ao receber o diploma de presidente,
o que fará quando o dólar romper a barreira dos 5 reais,
ou quando a taxa inflacionária superar os 65%, ou quando o crédito
internacional escassear e formos obrigados a decretar moratória?
O primeiro escalão do PSDB governou por oito anos e fracassou clamorosamente.
Diante desse fato, Lula decidiu formar seu ministério com o segundo
escalão do PSDB. Por acaso esse surto de irracionalidade tem algo
a ver com o Psyop? Eu, no lugar de Heloísa Helena, instauraria
uma CPI para investigar o caso. Outra atitude que denota certo desorientamento
por parte de Lula é a escolha de Gilberto Gil para o Ministério
da Cultura. Frei Betto, conselheiro do presidente eleito, desaprovou.
Eu também. Para arredondar o orçamento doméstico,
Gil pretende continuar a dar espetáculos durante o exercício
do cargo. É injusto. A única vantagem de ter Gil como ministro
da Cultura seria passar quatro anos sem ouvi-lo cantar. Comprei seu último
disco, dedicado a Bob Marley. É um exemplo de métrica tropicalista.
Coisas como: "Você que eleve-se alto ao céu" ou "Ob-observando
hipócritas". Proponho aumentar seu salário e poupá-lo
de cantar. Para o Ministério da Cultura, Frei Betto teria preferido
Antonio Candido. Cogitaram-se também os nomes de Nélida
Piñon, Marilena Chaui e Antonio Grassi. Eu teria apoiado com entusiasmo
qualquer um deles, contanto que, ao contrário de Gil, prometessem
abandonar suas atividades intelectuais e artísticas por quatro
anos.
Ano-Novo é tempo de otimismo. As pessoas tendem a acreditar que
o futuro sempre será melhor que o passado. No caso, eu aposto o
contrário. Aposto que 2003 será muito pior que 2002. O ideal
para mim seria pular direto para 2004. Um ano a menos de desastres. Boas
festas.
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