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O médico, essa sombra fugidia
Quando se
fala em saúde, hoje, discute-se tudo, menos
o principal a formação e qualificação
do médico
Uns preferirão o
doutor Incor, outros o doutor Tomografia Computadorizada.
Outros o doutor Amil, outros o doutor Glaxo, outros o
doutor SUS. Assim são as coisas hoje em dia. Fala-se em
política de saúde, ou em investimento em saúde, ou só
em saúde, e a alguns virá à mente um hospital, de
preferência hospital de ponta, dos chamados
"centros de excelência", como o Instituto do
Coração, Incor, de São Paulo. A outros ocorrerão os
avanços tecnológicos do setor, simbolizados por
máquinas que impõem respeito a partir do nome, como
essa majestosa "tomografia computadorizada".
Terceiros lembrarão os planos e seguros de saúde, as
Amil e Blue Life da vida. Quartos pensarão nos
laboratórios que fabricam remédios Glaxo,
Lilly... E quintos se fixarão nos méritos e deméritos
do Sistema Único de Saúde, o SUS. Que tal pensar no
doutor-doutor? Quer dizer, no médico? Que tal voltar ao
básico e recomeçar a discussão pelo começo?
É isso o que
propõe o doutor Dario Birolini, professor da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo, com uma
experiência de quase quarenta anos de prática médica.
"Os médicos, querendo ou não, são os maiores
responsáveis pela saúde que temos", diz o doutor
Birolini. "E a verdade é que temos uma saúde
ineficiente e cara." Birolini é o mesmo que, nesta
edição de VEJA, protagoniza a entrevista publicada nas
páginas amarelas. Aqui se fará um post-scriptum ao que
lá está dito, ou um "pré-scriptum", se o
leitor está começando a revista pelo fim. A idéia de
recolocar o médico em primeiro lugar, singela como um
copo d'água, pode no entanto representar uma revolução
copernicana nas discussões sobre a saúde. Pode dar
ordem a um debate que, ora com foco na construção de
hospitais e ora nos planos de saúde, ora nos
laboratórios farmacêuticos e ora no SUS, tudo temperado
pela célebre questão de mais ou menos "verbas para
a saúde", virou algaravia. Não que esses itens
não sejam importantes. Ocorre que o médico é mais.
Birolini aborda o
assunto num artigo para o jornal do Conselho Federal de
Medicina, edição de fevereiro de 1998. O médico é
analisado em dois pontos centrais sua formação e
seu vínculo com o paciente. A formação do médico, no
Brasil, é precária. Encarregam-se dela faculdades de
medicina na maior parte ineptas. Claro, também a
formação dos advogados é precária, dos engenheiros e
dos jornalistas. Nos médicos, no entanto, a má
formação mata mais que nas outras profissões. Por
isso, combatê-la seria um bom início para um governo
que se dispusesse a ir fundo na reforma do setor. Da má
formação decorre, na prática dos profissionais, a
falta de atenção ao que Birolini chama de
"economia da saúde". Por incompetência ou
insegurança, o médico bombardeia o paciente com pedidos
de exame que vão além do necessário. Medicamentos são
prescritos com largueza. Salas de UTI são usadas para
doentes terminais ou crônicos. Ou seja: recursos
inelásticos são utilizados de forma elástica por
profissionais em quem falta incutir a noção de que faz
parte de seus deveres a boa administração dos meios a
seu dispor.
A questão do
vínculo do médico com o paciente, segundo mostra
Birolini em seu artigo, tem a ver com essa
característica da vida moderna que é o culto do
especialista. Tal culto tem conseqüências perversas.
Uma é impor um conjunto de profissionais para o trabalho
que antes era de um. Surge daí a "equipe", uma
instituição que, "se alguma vez contribui
efetivamente para aprimorar a assistência", escreve
Birolini, em outras "resulta apenas em mais despesas
e numa inaceitável diluição de
responsabilidades". Outra conseqüência é, sempre
segundo Birolini, a filosofia do "excluir o
diagnóstico". O especialista trabalha não para
"fazer" um diagnóstico, mas para estar certo
de que o paciente não cai na rede de sua especialidade.
Feito isso, depois de uma longa bateria de exames,
manda-o para a frente. E lá recomeça para o paciente,
com novo especialista, outra via-crúcis. Uma terceira
conseqüência é que cabe ao paciente escolher o
especialista a quem recorrer, o que quase equivale a
inverter a responsabilidade do diagnóstico.
Todas essas
conseqüências acabam por diluir o vínculo
médico-paciente. E "o cerne da nossa
profissão" escreve Birolini "é o vínculo
médico-paciente". Não que se queira revogar o
especialista. Ele faz parte da vida contemporânea tanto
quanto o avião ou o computador e, tanto quanto o avião
ou o computador, veio para ficar. Tampouco é preciso
ressaltar sua importância para a ciência. O problema é
a conseqüente desvalorização, profissional e social,
do generalista. Do ponto de vista do paciente, resulta
que ter muitos médicos equivale a não ter nenhum. Cadê
o "meu médico"? O "meu médico" não
existe mais. Também para o paciente, os atores em jogo,
hoje, são o "doutor Amil" ou o "doutor
Tomografia Computadorizada", o "doutor
Incor", o "doutor Glaxo" ou, no máximo, a
"doutora Equipe". O médico está lá no fundo,
em segundo plano, como uma sombra.

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