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Humberto
e Fernando Campana mostrando a resistência de uma de suas cadeiras de papelão (abaixo): método de trabalho à la Professor Pardal |
| Foto: Frederic Jean |
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| Fotos: Andres Otero |
De fôrmas para assar pizza a bóias infláveis, tudo que é sólido costuma virar biombo, mesa ou cadeira ao passar pelas mãos dos designers Fernando e Humberto Campana. A partir desta sexta-feira, os dois irmãos paulistanos terão catorze de suas invenções expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. A griffe Campana dividirá o espaço da mostra com as luminárias assinadas pelo alemão Ingo Maurer numa exposição conjunta em cartaz até 19 de janeiro. Apesar de modesta em tamanho, a mostra é um acontecimento e tanto, já que os Campana são os primeiros designers brasileiros a expor no MoMA, o principal endereço da arte moderna do planeta. "Fernando e Humberto Campana expressam uma sensibilidade contemporânea, associando materiais e idéias inesperadas com leveza e poesia", analisa a curadora Paola Antonelli.
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Poltronas
de tubos: feitas com pedaços de mangueira de jardim |
Amalucado, o método de trabalho da dupla lembra o do Professor Pardal, aquele inventor das histórias em quadrinhos. A diferença é que as obras dos designers paulistanos, ainda que bem-humoradas em seus materiais insólitos, são confortáveis e elegantes. "Temos pavor da palavra fashion. Nossas coisas são feitas para o dia-a-dia", diz Humberto. Realmente, do ponto de vista da durabilidade e do conforto, as peças Campana poderiam freqüentar a casa de famílias com crianças endiabradas, não fosse um detalhe: o preço. Como no Brasil as fábricas não produzem peças de design em larga escala, as que pingam no mercado custam uma fortuna.
É o caso da cadeira de papelão, que sai para o freguês por 900 reais. Já a cadeira vermelha, fabricada na Itália e feita com armação metálica e fios sintéticos, custa 4.850 dólares. Durante a exposição, a loja de design do MoMA venderá uma tiragem de 150 mesinhas infláveis, cujo tampo é uma fôrma de pizza, por 200 dólares a unidade. Pode parecer que com esses preços o ex-advogado Humberto, de 45 anos, e o arquiteto Fernando, de 37, estejam ricos. Nada disso. Além de a produção ser pequena, as lojas que vendem os objetos ficam com pelo menos metade do preço final. Para fechar as contas no fim do mês, os dois têm de dar aulas de design numa faculdade. Em média, a griffe Campana fatura 6.000 reais por mês.
| Cadeira vermelha: vendida ao preço de 4.850 dólares a unidade |
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Cobaias Desde o começo da década, os Campana já assinaram cerca de 200 criações. De todas, a idéia mais ousada é a mais bem-sucedida: usar papelão para fazer mobília. Ao testar a resistência do material, Humberto descobriu que, cortado em tiras e colado com uma simples cola branca de uso escolar, o papelão continuava um material leve, mas se tornava tão rígido quanto a madeira. Para impermeabilizá-lo, eles apostaram em camadas sucessivas de tinta de parede. Deu certo. Da idéia nasceu uma bela safra de cadeiras, biombos e estantes. Antes de ser oficialmente lançada, a mobília de papelão passou por testes rigorosos. "Fazemos o nossso próprio test-drive", brinca Fernando. Verdadeiras cobaias de suas próprias invenções, eles não descansaram até se dar por satisfeitos.
No caso das cadeiras, passaram dias a fio sentados nelas. Levaram quase um ano para estabelecer a curvatura ideal entre o assento e o espaldar, além da altura das pernas, de metal. Vieram, então, testes como o de ficar de pé sobre a cadeira, testando a resistência ao peso. E ela resiste, como se vê na foto da dupla, publicada nesta página. O último teste foi acidental. Um biombo feito de papelão molhou-se durante um temporal, enquanto viajava na caçamba da picape de Fernando. Depois de seco, ficou como novo. Trabalhando em dupla em cada detalhe, Fernando e Humberto Campana desenvolveram um estilo pessoal, arrojado e leve ao mesmo tempo. De invenção em invenção, acabaram chegando ao MoMA.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |