A volta do udigrúdi

Cansado de atirar pedras, o cineasta Rogério
Sganzerla quer voltar a ser vidraça

João Gabriel de Lima

Sganzerla: vivendo
da memória de um
defunto genial
Foto: Selmy Yassuda  

Diz uma piada venenosa que o cinema brasileiro tem vista para o mar, numa referência aos apartamentos na orla carioca comprados por vários diretores nos anos 70, época de ouro da Embrafilme, a estatal que supostamente financiava seus filmes. A janela do cineasta Rogério Sganzerla, 52 anos, dá para o outro lado — o Morro Babilônia, em Botafogo, um outeiro pelado que não aparece em nenhum cartão-postal do Rio de Janeiro. A vista do terraço é uma das razões que fazem de Rogério Sganzerla uma figura sui generis no cinema brasileiro atual. Há várias outras. O diretor contraria o coro dos contentes que festejam o chamado "renascimento" do cinema nacional. Ele acusa os colegas de "explorar macetes que a televisão usa melhor". Cunhou a expressão "cinema da lengalenga" para definir a produção atual, fazendo referência à falta de bons roteiristas no país. "Os diretores brasileiros deveriam estudar Orson Welles em vez de posar de modernosos", diz. "E ler Nelson Rodrigues, mestre naquilo que os cineastas brasileiros não sabem fazer: diálogos inteligentes."

Frases como essas mostram que o incendiário dos anos 60 não virou bombeiro nos 90. Em 1968, Sganzerla promoveu uma verdadeira comoção no meio cinematográfico brasileiro com O Bandido da Luz Vermelha. Embalado pelo bordão "Quando a gente não pode fazer nada, o jeito é avacalhar", o filme era anárquico e movimentado. O público, cansado do papo cabeça do cinema novo, adorou: O Bandido da Luz Vermelha se pagou na primeira semana de exibição. Os cinema-novistas, claro, odiaram. Glauber Rocha, o líder da corrente, foi o primeiro a espinafrar o filme, acusando-o de "decadente" e "despolitizado". Mais tarde, os herdeiros de Glauber começaram a achar que os militares não eram tão ruins assim e abrigaram-se sob as asas da Embrafilme, deixando o inimigo Sganzerla fora da panela. Longe do cofre, o diretor virou "underground". Ou "udigrúdi", como ficou conhecido o cinema produzido nos anos 70 sem as benesses da estatal.

Tudo É Brasil:
cenas inéditas da
passagem de Welles
pelo Brasil em 1942

Tai chi chuan — A "marginalidade" de Sganzerla dura até hoje. Sua última obra de ficção é de 1977, Abismu. De lá para cá, o diretor tem sobrevivido do culto de sua grande paixão: Orson Welles. Nos últimos 21 anos, as únicas estréias de Sganzerla que tiveram alguma repercussão foram as dos três documentários realizados sobre a passagem do cineasta americano pelo Brasil, em 1942: Nem Tudo É Verdade, Linguagem Orson Welles e Tudo É Brasil, que acaba de entrar em cartaz no Rio de Janeiro e tem estréia prevista para São Paulo em dezembro. O fantasma de Welles paga as contas de Sganzerla. Ele deu entrada em seu apartamento com vista para o morro graças a um prêmio de 10.000 reais, em valor atualizado, recebido no festival da cidade mineira de Caxambu, em 1986, por Nem Tudo É Verdade. As prestações da casa própria foram pagas com a venda de seus documentários para emissoras de televisão estrangeiras, como a inglesa BBC ou a francesa TF1. Cada vez que um de seus filmes é exibido fora do país, ele fatura algo em torno de 5.000 reais. Outro bom mercado são os festivais dedicados à memória de Welles, em que seus documentários são freqüentemente mostrados. Depois da trilogia, Sganzerla agora reúne material para fazer um livro sobre o cineasta americano.

É uma forma inusitada de ganhar dinheiro, mas na família Sganzerla ninguém tem emprego com cartão de ponto. O diretor é casado há quase trinta anos com a atriz Helena Ignez, ex-musa do cinema novo. Hoje, ela trabalha como diretora de espetáculos de teatro do tipo "alternativo". Seu próximo trabalho, Cabaret Rimbaud Uma Temporada no Inferno, estréia num festival em São Paulo no mês de dezembro. Nas horas vagas, Helena dá aulas de tai chi chuan para completar o orçamento. O casal tem duas filhas. A mais nova, Djin — "o nome é inspirado em A Tempestade, de Shakespeare", explica ela —, pretende seguir os passos da mãe e do pai. Aos 21 anos, loira, com uma estampa que em nada fica a dever à de Helena em seu auge, ela deverá ser a protagonista de Sob o Signo do Caos, filme com que Sganzerla pretende voltar ao cinema de ficção em 1999. Depois de vinte anos atirando pedras, o udigrúdi quer retornar como vidraça. Os inimigos, cuidadosamente cultivados em duas décadas, devem estar esfregando as mãos.




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