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Saga cafeeira

Um romanção ambientado no interior de São Paulo

Thales: bom
ouvido para as
gírias dos matutos
Foto: Egberto Nogueira  

Com a segurança de um autor veterano, o jornalista e editor de VEJA Thales Guaracy chega às livrarias com sua primeira obra de ficção, Filhos da Terra (editora Mandarim; 460 páginas; 32,50 reais). Autores novatos costumam ser de uma ambição enlouquecida. Acham que seu livro vai mudar o mundo, que estão inventando uma linguagem nova. Thales não, e com isso revela maturidade. Ele apenas quer contar bem uma história, o que faz com competência. Para falar como os críticos de antigamente, Filhos da Terra é um "romanção". A expressão nada tem a ver com o peso ou com o número de páginas. Refere-se a um estilo de narrar inventado pelos escritores europeus do século XIX. Nesse tipo de literatura, o que importa é desenvolver bem a trama, descrever os cenários, caracterizar com minúcia cada um dos personagens. Esse é o negócio de Thales. Ele não se apressa. Vai seguindo passo a passo e procura não perder nada. Ao mesmo tempo, envolve o leitor, que, quando percebe, só quer saber de chegar ao fim do livro e descobrir o destino dos heróis que o cativaram. Não será surpresa se daqui a pouco algum produtor de TV descobrir o livro, que renderia uma boa minissérie.

Dentro da tradição brasileira, Filhos da Terra alinha-se com uma vertente bem definida, a do romance regionalista. É a tradição em que se incluem autores como Jorge Amado, com seus livros sobre Ilhéus, coronéis e plantadores de cacau, ou Rachel de Queiroz, com suas histórias de sertanejos. Como esses escritores, Thales procura captar o modo de falar pitoresco e meio "enviesado" dos matutos. Ao contrário da maior parte dos autores regionalistas, de origem nordestina, que se dedicou a retratar a decadência econômica daquela região, Thales voltou-se para um pedaço do Brasil normalmente associado ao cenário urbano: o Estado de São Paulo. Tinha motivos para isso. Seu avô era um imigrante italiano que chegou ao país durante o auge da economia do café. As histórias contadas pelo avô serviram de base para o romance. Realidade e ficção se misturam e, segundo o autor, os casos que parecem mais inverossímeis são justamente os verdadeiros.

Ao contrário de outro escritor que retratou a agricultura cafeeira, o dramaturgo Jorge Andrade, o tom do livro de Thales não é melancólico. Em vez disso, há um enigma que percorre toda a obra e surge logo nas primeiras páginas: ainda criança, Iusfen, o personagem central, ouve a profecia de uma velha cigana. A bruxa afirma que ele será o último de sua linhagem, o último de uma família que não deixará descendentes. A saga familiar vai se desenrolando, aparecem vários personagens secundários que ganham corpo e adquirem vida própria na trama, mas a verdade sobre a profecia é reservada para o final. Juntamente com uma metáfora contundente, que é também uma homenagem à literatura.

C.G.




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