|
|
![]() |
Max
Weber: inspiração |
Desculpa Retomando idéias como essa, Landes se contrapõe às teorias sobre o desenvolvimento que mais barulho e mais discípulos fizeram nas últimas décadas, sobretudo aquelas de inspiração esquerdista. Uma delas é a Teoria da Dependência, criada pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Landes a vergasta, mas numa passagem decepcionante que, inclusive, denuncia uma das falhas de seu livro. Segundo a visão caricatural do autor, a teoria é uma espécie de desculpa esfarrapada, que joga a culpa pelo atraso da América Latina no maquiavelismo dos impérios do Hemisfério Norte. Na verdade, a Teoria da Dependência surgiu como reflexão sobre modelos alternativos de desenvolvimento e, bem antes que a palavra globalização entrasse em moda, para mostrar que os destinos de países ricos e pobres se encontram interligados. É justamente essa discussão que falta ao livro de Landes. Ele se concentra nos Estados nacionais e na maneira como eles cresceram, esquecendo de apontar os perigos que o atual sistema econômico internacional apresenta, tanto para os países pobres quanto para os que já desfrutam a riqueza há muito tempo. Que isso, no entanto, não destrua o interesse pela obra. Como notou o inglês Eric Hobsbawn, que ocupa uma posição oposta à de Landes no espectro ideológico, "poucos historiadores não se orgulhariam de ter escrito esse livro".
A Europa na vanguardaPor que o Ocidente aproveitou melhor os achados tecnológicos e tomou a dianteira no desenvolvimento
|
"Os subdesenvolvidos precisam aprender"Dono de impecáveis credenciais acadêmicas, David Landes, 74 anos, atingiu a lista de mais vendidos nos Estados Unidos ao lançar A Riqueza e a Pobreza das Nações no começo deste ano. Na entrevista abaixo, o professor, que visitará o Brasil em março de 1999, comenta os pontos mais controvertidos de seu livro: Veja O senhor critica os economistas por prestarem pouca atenção aos fatores culturais. A cultura influi tanto assim no desenvolvimento? Landes Economistas não gostam de cultura porque ela não se reduz a gráficos. Mas a pesquisa histórica demonstra claramente que alguns traços culturais favorecem o desenvolvimento econômico. Como explicar o sucesso recente de países como Alemanha e Japão, derrotados durante a II Guerra? Sem levar em conta o apreço dessas duas sociedades pelo trabalho árduo e pelo aprendizado, jamais chegaríamos a uma explicação completa, ainda que tivéssemos em mente o auxílio financeiro que elas receberam dos vencedores aliados. Veja Segundo o senhor, os valores ocidentais, de modo geral, e os protestantes, especificamente, são os que mais favorecem o desenvolvimento. Landes Pense no que aconteceu com a China. Durante séculos ela foi a civilização mais avançada. Ao final, porém, cristalizou-se em sua cultura uma aversão pela mudança e pela novidade. Os chineses, imagine só, chegaram a esquecer tecnologias que haviam criado! A Europa, por outro lado, desenvolveu na Idade Média um legado de iniciativa, curiosidade e inventividade que fez sua riqueza nos séculos seguintes. Quanto à ética protestante, Max Weber foi o primeiro a analisá-la em conjunto com questões econômicas e estava certo. Podemos inclusive dizer que, hoje, os valores protestantes se desvincularam da raiz religiosa. Compõem uma ética secular de sucesso e desempenho que se alastrou por todo o mundo. Veja Essa primazia dada à Europa não é politicamente incorreta? Landes Há páginas e páginas na Internet me acusando de "triunfalismo". Compreendo o que há por trás dessas reclamações: a idéia de que o caminho ocidental talvez não seja o melhor, talvez não seja aquele que nos conduzirá à felicidade para além da riqueza material. Talvez... Mas nem por isso renuncio à verdade factual das coisas que escrevi no livro. Veja Por que o senhor critica tão duramente a Teoria da Dependência? Landes Essa doutrina promove a impotência econômica e o ressentimento. Mesmo que fosse verdadeira seria bom deixá-la de lado. Sim, no decorrer dos séculos houve relações predatórias entre os países ricos e os pobres, mas isso não justifica medidas isolacionistas. Os países pobres precisam aprender, e o melhor jeito de aprender é abrir-se. Gostaria muito de encontrar o presidente Fernando Henrique quando for ao Brasil. Ouvi dizer que ele pediu para esquecerem o que escreveu no passado. Parece-me muito sensato. |
Copyright © 1998, Abril
S.A. |