Cultura é o que conta

Polêmico, o historiador David Landes defende
a superioridade da civilização ocidental

Carlos Graieb

Certa vez, numa daquelas tiradas politicamente incorretas que enlouqueciam seus críticos, o jornalista Paulo Francis disse que um único concerto de Mozart tinha mais valor cultural do que toda a batucada africana no decorrer dos séculos. Subjacente à bravata de Francis, há uma tese a respeito da qual poucos ousam discorrer numa época em que o chamado "multiculturalismo" está em moda: a de que a civilização ocidental é superior a todas as outras. Só agora um historiador sério escreveu um livro sobre esse assunto polêmico. Professor da Universidade Harvard, o americano David Landes causou um furacão no meio acadêmico com A Riqueza e a Pobreza das Nações (tradução de Álvaro Cabral; Editora Campus; 784 páginas; 59 reais). A obra trata de um problema espinhoso, a disparidade de crescimento entre os diversos países às vésperas do terceiro milênio. A resposta de Landes para o enigma é provocadora: somente a adesão a um conjunto ocidental (ou europeu) de valores, tais como liberdade, invenção e apreço pelo trabalho, garante o desenvolvimento. Países como o Japão, que soube emular esses valores, entraram para o clube dos ricos. Os outros ficaram de fora.

"Se aprendemos alguma coisa na história do desenvolvimento econômico é que a cultura faz toda a diferença", diz Landes. O autor, no entanto, não chega a essa conclusão por meio de abstrações. Seu livro percorre 1.000 anos de História e enfoca diversos países, da China aos Estados Unidos, do Egito ao Paraguai. Análises de grandes eventos, como a Revolução Industrial, alternam-se com narrativas menores, como a da invenção do relógio. O estilo opinativo e galhofeiro da escrita é um atrativo à parte. Com sua ambição, A Riqueza e a Pobreza das Nações era um projeto arriscado, que acabou fazendo sucesso de público e crítica.

As melhores passagens do livro, aquelas que se dedicam a provar a tese central, decorrem das comparações entre a China Imperial e a Europa do Renascimento, ou entre os países ocidentais e os de religião e tradições islâmicas. Por que a China, sendo uma cultura tão antiga e capaz de tantas conquistas tecnológicas, foi suplantada no desenvolvimento pelos ocidentais? Para Landes, a resposta está na disposição para a censura e o fechamento dos chineses versus a curiosidade dos europeus. Por que nem mesmo o acesso a uma grande fonte de riqueza, como o petróleo, tem garantido o crescimento do Oriente Médio? De acordo com Landes, a resposta encontra-se nas tendências conservadoras (em relação à mulher, por exemplo) embutidas na religião islâmica. A obra de Landes presta tributo o tempo todo a um clássico da sociologia, A Ética Protestante e O Espírito do Capitalismo, escrito pelo alemão Max Weber (1864-1920), que, como o título sugere, faz uma relação entre a filosofia calvinista, que valoriza o trabalho acima de tudo, e o surgimento da economia capitalista.

Max Weber:
inspiração

Desculpa — Retomando idéias como essa, Landes se contrapõe às teorias sobre o desenvolvimento que mais barulho e mais discípulos fizeram nas últimas décadas, sobretudo aquelas de inspiração esquerdista. Uma delas é a Teoria da Dependência, criada pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Landes a vergasta, mas numa passagem decepcionante que, inclusive, denuncia uma das falhas de seu livro. Segundo a visão caricatural do autor, a teoria é uma espécie de desculpa esfarrapada, que joga a culpa pelo atraso da América Latina no maquiavelismo dos impérios do Hemisfério Norte. Na verdade, a Teoria da Dependência surgiu como reflexão sobre modelos alternativos de desenvolvimento e, bem antes que a palavra globalização entrasse em moda, para mostrar que os destinos de países ricos e pobres se encontram interligados. É justamente essa discussão que falta ao livro de Landes. Ele se concentra nos Estados nacionais e na maneira como eles cresceram, esquecendo de apontar os perigos que o atual sistema econômico internacional apresenta, tanto para os países pobres quanto para os que já desfrutam a riqueza há muito tempo. Que isso, no entanto, não destrua o interesse pela obra. Como notou o inglês Eric Hobsbawn, que ocupa uma posição oposta à de Landes no espectro ideológico, "poucos historiadores não se orgulhariam de ter escrito esse livro".

A Europa na vanguarda

Por que o Ocidente aproveitou melhor os achados tecnológicos e tomou a dianteira no desenvolvimento

Relógio mecânico

Por cerca de 300 anos, o relógio permaneceu uma tecnologia exclusivamente européia. Seu uso logo se democratizou no continente para delimitar as tarefas cotidianas. Outras civilizações admiravam o relógio, mas como objeto de uso restrito. Entre os muçulmanos, apenas os governantes o usavam, a fim de convocar orações. Já os chineses o banalizaram como um brinquedo.

Óculos e lentes

Depois de inventá-los no século XIII, a Europa teve seu monopólio por cerca de 400 anos. Os óculos duplicaram o período de atividade dos artesãos. As lentes estimularam a criação de novos instrumentos. Depois de inventar as lentes, os europeus conceberam uma bateria de equipamentos ligados à medição e ao controle. Os muçulmanos só tinham o astrolábio.

Imprensa

Foi inventada na China no século IX, mas nunca "explodiu" ali como na Europa, pois as publicações dependiam da aprovação do governo, que sufocava a disseminação de novas idéias. Quanto aos muçulmanos, rejeitaram por muito tempo a imprensa, sobretudo por motivos religiosos.


"Os subdesenvolvidos precisam aprender"

Dono de impecáveis credenciais acadêmicas, David Landes, 74 anos, atingiu a lista de mais vendidos nos Estados Unidos ao lançar A Riqueza e a Pobreza das Nações no começo deste ano. Na entrevista abaixo, o professor, que visitará o Brasil em março de 1999, comenta os pontos mais controvertidos de seu livro:

Veja O senhor critica os economistas por prestarem pouca atenção aos fatores culturais. A cultura influi tanto assim no desenvolvimento?

Landes — Economistas não gostam de cultura porque ela não se reduz a gráficos. Mas a pesquisa histórica demonstra claramente que alguns traços culturais favorecem o desenvolvimento econômico. Como explicar o sucesso recente de países como Alemanha e Japão, derrotados durante a II Guerra? Sem levar em conta o apreço dessas duas sociedades pelo trabalho árduo e pelo aprendizado, jamais chegaríamos a uma explicação completa, ainda que tivéssemos em mente o auxílio financeiro que elas receberam dos vencedores aliados.

Veja Segundo o senhor, os valores ocidentais, de modo geral, e os protestantes, especificamente, são os que mais favorecem o desenvolvimento.

Landes — Pense no que aconteceu com a China. Durante séculos ela foi a civilização mais avançada. Ao final, porém, cristalizou-se em sua cultura uma aversão pela mudança e pela novidade. Os chineses, imagine só, chegaram a esquecer tecnologias que haviam criado! A Europa, por outro lado, desenvolveu na Idade Média um legado de iniciativa, curiosidade e inventividade que fez sua riqueza nos séculos seguintes. Quanto à ética protestante, Max Weber foi o primeiro a analisá-la em conjunto com questões econômicas e estava certo. Podemos inclusive dizer que, hoje, os valores protestantes se desvincularam da raiz religiosa. Compõem uma ética secular de sucesso e desempenho que se alastrou por todo o mundo.

Veja Essa primazia dada à Europa não é politicamente incorreta?

Landes — Há páginas e páginas na Internet me acusando de "triunfalismo". Compreendo o que há por trás dessas reclamações: a idéia de que o caminho ocidental talvez não seja o melhor, talvez não seja aquele que nos conduzirá à felicidade para além da riqueza material. Talvez... Mas nem por isso renuncio à verdade factual das coisas que escrevi no livro.

Veja Por que o senhor critica tão duramente a Teoria da Dependência?

Landes — Essa doutrina promove a impotência econômica e o ressentimento. Mesmo que fosse verdadeira seria bom deixá-la de lado. Sim, no decorrer dos séculos houve relações predatórias entre os países ricos e os pobres, mas isso não justifica medidas isolacionistas. Os países pobres precisam aprender, e o melhor jeito de aprender é abrir-se. Gostaria muito de encontrar o presidente Fernando Henrique quando for ao Brasil. Ouvi dizer que ele pediu para esquecerem o que escreveu no passado. Parece-me muito sensato.




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