Dá aí uma palinha

Na guerra pela audiência, cantores populares são
escalados até em noticiários e jogos de futebol

Sérgio Reis e seu
berrante no
SP-TV e
o repentista Luisinho de
Irauçuba no intervalo do
jogo do Brasil (
abaixo):
aparições inusitadas

A busca desenfreada pela audiência acaba de trazer uma nova tendência à televisão brasileira. Essa não é nefasta como as apelações de Ratinho e Leão, mas é, no mínimo, curiosa: os números musicais enfiados à força. Não há nada de surpreendente em cantores participarem de programas de auditório, como os de Hebe e Fausto Silva, ou de variedades, como o Fantástico. A novidade é que, agora, eles aparecem também em telejornais, programas culinários e até jogos de futebol. O campeão dessa tendência é o jornalístico da Globo SP-TV, exibido apenas em São Paulo, que tem como âncoras Chico Pinheiro e Mariana Godoy. Dos últimos 27 noticiários, quinze tiveram a participação de cantores ou grupos musicais. Os cantores irrompem no telejornal de uma maneira inusitada. Primeiro, sentados na bancada, dão palpites sobre os assuntos do dia. No final, pegam o violão — ou o pandeiro, a zabumba, o que estiver à mão — e dão uma palinha. Às vezes até arriscam alguns passos de dança. Na última terça, por exemplo, o sertanejo Sérgio Reis ficou quarenta minutos no ar. Opinou sobre temas como o julgamento dos PMs da favela Naval, drogas e violência. No final, cantou sucessos como O Menino da Porteira e Coração de Papel. "A intenção é atrair pessoas que não estão acostumadas a ver telejornal", explica o âncora Chico Pinheiro. "Elas ficam ligadas para ver seu cantor preferido e entram de carona na notícia."

Os espectadores das transmissões de futebol da Globo também já estão se acostumando com os comentaristas-cantores. Em relação aos narradores tradicionais, eles têm a vantagem de fazer um número no intervalo. No último jogo entre Brasil e Rússia, disputado em Fortaleza, convidou-se o repentista Luisinho de Irauçuba para dar uma cor local à transmissão da peleja. Até no Note e Anote de Ana Maria Braga, um programa culinário da TV Record, já há a participação de cantores. A razão dessa prática é que os "canários" costumam elevar a audiência em até 20%. Disputados pelos programas de auditório — só neste ano foram criados nove no gênero —, jornalísticos e jogos de futebol, alguns cantores tornaram-se onipresentes na telinha. Tudo indica que devam aparecer cada vez mais. Na Globo, o SP-TV é considerado um jornal-laboratório. Ou seja: se a inovação for um sucesso, é possível que os números musicais virem prática constante nos noticiosos da emissora.

Ricardo Valladares




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