Para gostar de ler

Os livros interativos são uma maneira divertida
de estimular as crianças a ter prazer na leitura

Priscila Sérvulo

Livros de presente
Guilherme Malaquias de Araújo, 8 anos, e suas irmãs, as gêmeas Gabriela e Ana Clara, de 7, de São Paulo, com freqüência pedem livros de presente. Além de brinquedos, claro. "Sempre nos preocupamos em estimulá-los a ler", diz a mãe, Fabíola Malaquias de Araújo.
Montagem de Weigand sobre fotos de Jorge Butsuem,
Frederic Jean
 

Está ficando difícil estabelecer a fronteira que separa o livro infantil e o brinquedo. Entre os lançamentos literários para crianças, alguns têm dispositivos que imitam os sons dos animais ou os ruídos do motor e dos freios de um automóvel. Vários têm nos cantos das páginas pequenas alavancas. Uma vez movidas, elas alteram o cenário ou fazem sorrir um personagem que aparecia chorando. Outro livro traz, em páginas transparentes, imagens que podem ser projetadas na parede de um cômodo escuro com auxílio de uma lanterna comum. A grande virtude desses livros é transformar a leitura em diversão, o que pode ajudar a reforçar na criança o interesse pela literatura. "De um modo geral, os livros-brinquedos são bem-feitos", diz o professor Paulo Venturelli, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Paraná. "Eles não nivelam a criança por baixo e trabalham com informações adequadas a cada faixa de idade a que se destinam" (veja quadro).

Conforme dados da Câmara Brasileira do Livro, foram impressos em 1997 quase 36 milhões de exemplares de cerca de 8.500 obras (entre títulos novos e relançamentos) destinadas a crianças de até 12 anos. Alguns deles são tão parecidos com brinquedos que os pais, acostumados à idéia de que leitura é coisa séria, podem duvidar de sua eficácia como motivadores do hábito. Tudo bem: a leitura é uma atividade séria, traz muitos benefícios para quem a pratica, mas nunca deve ser considerada pelos pequenos uma tarefa chata. Ler ajuda a criança a ampliar o vocabulário, faz com que ela elabore melhor o raciocínio e estimula a criatividade. Para alcançar esses objetivos, os livros que parecem brinquedos são tão úteis quanto os volumes mais antigos, que tinham apenas textos e gravuras. Só que mais divertidos.

Leitura na cama
Desde pequeno, Daniel Barros Scandurra, 10 anos, de São Paulo, está acostumado a ler na cama antes de dormir. O hábito foi estimulado pela mãe, a artista gráfica Taciana Barros, que sempre lia histórias para ele. Daniel, que já tem uma pequena biblioteca, também se interessa por jornais e revistas, principalmente de esportes.
  Montagem de Weigand sobre fotos de Antonio
Milena, Ernesto Neves, Milton R. Alves/Ivison,
Gamma, Sipa Press, Ricardo Correa

Momento agradável — "Esse tipo de livro tem uma função muito importante", observa a pedagoga Tizuko Morchida Kishimoto, coordenadora do laboratório de brinquedos e materiais pedagógicos da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. "A criança que brinca com livros tende a considerar agradável o momento da leitura." Na opinião da pedagoga, ao estabelecer esse tipo de relação com os livros, a criança dá um passo importante para se tornar, mais tarde, um leitor habitual. Atenção, senhores pais: esse passo é importante, porém não suficiente.

O papel dos pais — Por mais estimulantes que sejam, esses livros não são capazes de consolidar sozinhos o interesse da criança pela leitura. O papel dos pais nessa hora é fundamental. Filhos de leitores assíduos têm muito mais possibilidade de se afeiçoar aos livros do que crianças que não têm o exemplo da leitura dentro de casa. Mesmo os pais que não sejam habituados a ler podem motivar seus filhos a desenvolver esse interesse. O ideal, dizem os educadores, é que se reserve um momento do dia para ler ou contar histórias à criança (e, nesse caso, sempre deixar claro que elas podem ser encontradas nos livros). "A leitura compartilhada reforça a intimidade entre pais e filhos e permite que a criança assimile melhor o conteúdo dos livros", diz a terapeuta Martha Hoppe, de Porto Alegre, especialista em psicologia do desenvolvimento. A presença dos pais é importante para esclarecer as dúvidas que a criança tenha a respeito do texto, do significado das ilustrações e dos outros acessórios que os livros modernos contêm. "Quanto mais compreender o conteúdo dos livros, mais estimulada a criança ficará para procurá-los por conta própria na hora de satisfazer suas curiosidades", explica Martha Hoppe. Os pais de Daniel Barros Scandurra, de São Paulo, hoje com 10 anos, sempre leram para o menino. "Toda noite líamos para ele", conta a artista gráfica Taciana Barros, mãe do garoto. "Quando Daniel foi alfabetizado, passou a levar livros, jornais e revistas para a cama na hora de dormir." Importante: o garoto conserva esse hábito até hoje.

A idade ideal — Não existe, a rigor, idade ideal para a criança começar a ter contato com os livros. Existem nas livrarias, inclusive, obras destinadas a recém-nascidos. Algumas, para os mais miúdos, têm as páginas de plástico ou tecido. É um exagero, claro. Não existe nenhuma comprovação científica de que os livros ajudam os bebês a gostar futuramente da leitura. Em parte porque um dos pré-requisitos para uma criança se interessar pelos livros é conseguir mudar de página. E a habilidade de folhear os bebês só desenvolvem por volta de 1 ano e meio de idade. Até então, um livro ou uma caixa de sapato têm mais ou menos o mesmo valor pedagógico. Eles fazem mais sucesso do que a caixa de sapato porque são mais coloridos. Como os especialistas têm vergonha de admitir isso, preferem sugerir aos pais que se preocupem com a leitura do pimpolho já no berço. Mas isso não é necessário.

Páginas riscadas — Um ponto importante: jamais exija que seu filho tenha cuidado exagerado com os livros. "A idéia de que o livro é um objeto sagrado deve ser esquecida", diz a professora Idméa Semeghini-Siqueira, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Isso não significa que a postura adequada dos pais seja apreciar a cena do filho destruindo um pedaço da biblioteca. Nada disso. A questão central é que, quando a criança passa a folhear os livros, o faz à sua maneira. E ninguém deve espantar-se se achar pela casa (de vez em quando, claro) uma capa sem livro ou um pedaço de folha solta rabiscado atrás da porta. Faz parte do processo, infelizmente. Dentro de limites razoáveis, os pais devem permitir que o filho dispense aos livros o mesmo tratamento que dá aos brinquedos. Para isso, é básico que os volumes estejam à mão da criança.

Na escola — Os pais devem ter claro que a criança jamais deve considerar a leitura uma obrigação. A professora Idméa Semeghini-Siqueira vai ainda mais longe. Segundo ela, nem mesmo as escolas deveriam impor a leitura como tarefa obrigatória para os estudantes do 1º grau. Muito menos incluir questões sobre livros nas provas aplicadas a esses estudantes. "São essas práticas abomináveis que bloqueiam o interesse pela leitura", afirma Idméa. O que a escola deve fazer é colocar à disposição das crianças de cada série livros adequados à sua idade. Depois, estimulá-las a falar sobre o conteúdo com a maior liberdade possível. Os professores podem orientar as crianças, esclarecer suas dúvidas e desempenhar um papel de motivador parecido com o que deve ser assumido pelos pais.

Presentes — Fazer dos livros presentes habituais é uma prática aconselhável. A criança geralmente gosta de ler o mesmo livro uma, duas, dez vezes. Mas a variedade ajuda a reforçar o interesse e a demonstrar que as alternativas oferecidas pela leitura são inesgotáveis. A dona de casa Fabíola Malaquias de Araújo, de São Paulo, sempre presenteou os filhos com livros e leu para eles histórias infantis. Quando Guilherme, hoje com 8 anos, o mais velho, foi alfabetizado, passou a ler para as gêmeas Ana Clara e Gabriela, de 7. "Hoje, quando as crianças fazem aniversário, incluem livros na lista de presentes."

Mais informações: o laboratório de brinquedos e materiais pedagógicos da Universidade de São Paulo se propõe a esclarecer as dúvidas que os pais possam ter sobre o valor pedagógico dos livros-brinquedos e outras questões sobre o tema. O endereço eletrônico é: Labrimp@edu.usp.br

As recomendações para cada idade

A partir de 6 meses: os livros para esta idade são feitos de plástico e tecido ou têm páginas duras. Isso impede que o bebê se machuque. As cores vivas e as imagens bem definidas chamam a atenção

A partir de 1 ano e meio: nesta idade, a criança desenvolve a habilidade de folhear, coisa que não fazia até então. Livros com alças e janelas que podem ser manipuladas são os mais indicados

A partir de 2 anos: livros que emitem sons e têm formatos diferentes são ideais para esta faixa etária. A criança pode trabalhar sua imaginação

 

A partir de 4 anos: é nesta idade que a criança começa a aprender o alfabeto. Os livros com letras grandes, acompanhadas de ilustrações, estimulam a formação das primeiras palavras

A partir de 5 anos: as crianças já começam a ler os primeiros textos. Para que não se cansem, as histórias devem ter frases curtas

 

A partir de 7 anos: os livros mais indicados são aqueles que permitem à criança trabalhar em grupo com os amigos, como os que têm atividades de pintar, recortar e colar

A partir de 8 anos: os livros que tenham aventuras, descobertas ou que façam a criança desvendar um mistério são boas opções. Ela deixa de se interessar por patinhos e gatinhos e prefere situações da vida adulta

A partir dos 10 anos: os livros devem aliar o aprendizado ao estímulo dos sentidos, como os que propõem a realização de pequenas experiências científicas, por exemplo

Fotos: Jorge Butsuem




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