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Especial EU QUERO SER PATRÃO!Como
estão se saindo os brasileiros que realizaram João Sorima Neto e David Friedlander
Todo dia a empresária paulista Laura Bortolai chega em casa tarde da noite, esparrama o tailleur, a bolsa e o sapato de salto alto pela sala e se prepara para poucas horas de sono. Laura, 42 anos, nunca trabalha menos do que doze horas por dia em seu escritório. Ela ganha a vida resolvendo problemas de clientes que não têm tempo para nada. Arruma alguém para consertar o cano do banheiro, compra vestido de noiva, faz as compras do supermercado, organiza festas e convenções. O expediente é duro e começa às 7h30, ainda em casa, com a organização da agenda do dia. No escritório, ela também cuida da contabilidade, sai à caça de novos clientes, briga com os profissionais contratados que fizeram um mau serviço. Depois de onze anos de carreira no banco Mercantil Finasa, onde chegou a gerente, Laura é hoje a executiva de finanças, a vendedora, a diretora de marketing e a operária de sua própria empresa. Trabalha uma barbaridade, mas está mais do que satisfeita. "Empregada, nunca mais. Assumi um risco enorme, mas o prazer de comandar minha vida compensa qualquer coisa", diz a empresária.
Todos os anos a agência de publicidade Standard, Ogilvy & Mather faz pesquisas com o objetivo de captar as aspirações do brasileiro. Na pesquisa do ano passado, a agência descobriu que ser empresário é o segundo maior desejo das pessoas, perdendo apenas para o velho sonho da casa própria. Até os anos 80, o brasileiro estava bem mais interessado em ter um bom emprego do que em ser o patrão. A mudança ocorre porque o mundo do trabalho mudou muito nos últimos tempos. O Estado, um dos grandes empregadores do passado, já não oferece tantas vagas. A ordem agora é cortar gente. Quem trabalha numa empresa privada sabe que lá também a vida não está fácil. A segurança acabou, a competição por um cargo melhor é brutal e o salário pode ficar anos estagnado. Há outro fator importante encorajando os candidatos a empresário. É uma mudança radical no jeito de produzir das grandes corporações. Gigantes como Nike ou Volkswagen se dedicam cada vez mais à pesquisa e à criação de novos produtos. Com isso, estão transferindo para firmas menores tarefas como a costura do tênis e a montagem do estofamento. As oportunidades, portanto, estão aí. O resultado de tantas mudanças é que muita gente começa a pensar se, em vez de se esfolar numa empresa que não é dela e dormir pensando na demissão em massa, não é melhor partir para uma aventura. Ex-funcionário público, o empresário Marcos Gurgel, 44 anos, largou tudo dez anos atrás para virar empreiteiro de obras. Numa viagem ao exterior descobriu pessoas que se dedicam a construir, equipar e administrar hospitais. Foi um dos primeiros a copiar a idéia no Brasil, conseguiu clientes do porte da Unicor e neste ano deve faturar 3 milhões de reais. "Eu queria era ganhar dinheiro para mim, não para os outros", diz Gurgel.
Antes de se arriscar num vôo solo é preciso desfazer algumas ilusões. Quem pensa que vai trabalhar menos sendo patrão já começa mal. O trabalho físico pode até dobrar, porque no começo não dá para deixar o serviço na mão da mulher, do filho ou do empregado. O empresário, seja ele um lojista, seja dono de bufê infantil, precisa cuidar de tudo pessoalmente. Até o negócio pegar, é ele quem abre e fecha a loja, confere os estoques, sai atrás dos clientes, atende a reclamações e fecha as contas no final do expediente. Empresário em início de carreira não tira férias, pode ter muito trabalho no fim de semana e perde toda a rede de benefícios proporcionada pelo emprego formal. Não há o 13º do fim do ano, fim de semana e férias remuneradas, nem promoção, seguro-saúde ou fundo de garantia. Outra fantasia que é bom esquecer: o dinheiro que se põe no bolso pode não ser muita coisa, pelo menos no começo. Nos primeiros anos da empresa, o ganho costuma ser até menor do que o salário do emprego que ficou para trás. Tudo isso significa que administrar a vida pessoal fica mais complicado. "Há muita fantasia. Quem abre empresa achando que vai trabalhar pouco e ganhar muito provavelmente não dará certo", diz Marcelo Cherto, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e especialista em franquias.
No ano passado, o carioca Thomaz Newton Ferreira Naves, 35 anos, trocou um emprego de primeira linha pela aventura de se tornar empresário. Como diretor de marketing da Renasce, uma das maiores administradoras de shopping centers do país, Naves ganhava de 30.000 a 40.000 reais por mês, entre salário e participação nos lucros da empresa. Cansou de trabalhar para os outros e, principalmente, do relacionamento com alguns colegas de escritório. "Começaram a procurar defeitos no que eu fazia", diz. Naves virou sócio de uma empresa que vende anúncios, faz promoções e aluga espaços em shoppings e acha que está dando muito certo. Ganha de 10.000 a 12.000 reais por mês, bem menos do que no antigo emprego, mas formou um patrimônio estimado em 800.000 reais. O risco do negócio é grande. Se Naves aluga um espaço e o cliente dá calote, é ele quem arca com o prejuízo. O shopping recebe de qualquer maneira. "O que mais vale é que hoje tenho um patrimônio que posso vender a qualquer momento", avalia.
Dez anos atrás, o empresário gaúcho João Roque Boss, 49 anos, largou um emprego estável na Azaléia, uma das maiores indústrias de calçados femininos do país, para montar sua fábrica de sapatos. Era gerente e tinha um salário que hoje equivaleria a 4.000 reais. No seu primeiro ano de patrão ficou sem caixa para fazer a empresa funcionar e pediu socorro em banco. Endividou-se e quase quebrou. Levantou a empresa de novo cortando custos, colocando seus funcionários para produzir mais e conseguiu dos fornecedores uma trégua para quitar as dívidas. "Naquela fase, meu salário dava apenas para as compras do supermercado", conta Boss. Aprendeu a lição e hoje só trabalha com dinheiro próprio. A empresa vai bem e ele conseguiu montar um bom patrimônio. Mora numa boa casa em Taquara, município próximo a Porto Alegre, comprou um apartamento de cobertura na mesma cidade e tem casa na praia. A experiência de Boss mostra que aqueles que detestam resolver problemas ou tendem a adiar sua solução podem ir desistindo de montar a confeitaria, porque 90% da vida do empresário é dedicada à busca de saídas para situações complicadas. Um erro muito freqüente cometido por empresários novatos é entrar num negócio sem saber exatamente onde estão pisando. Os empresários mineiros Alexandre e Cristiano Piquet, de 25 e 21 anos, são apaixonados por mergulho e achavam que em Belo Horizonte todo mundo também era. Sete anos atrás, abriram uma loja de equipamento de mergulho num bom shopping de Belo Horizonte e enterraram ali o equivalente a 80.000 reais. Os clientes não apareceram e a porta teve de ser fechada. Uma outra, menor, foi aberta na periferia. Os Piquet quebraram de novo. Cometeram um equívoco já observado milhares de vezes pelos técnicos do Sebrae: montaram o negócio sem antes fazer uma pesquisa de mercado. A virada aconteceu dois anos depois, quando a telefonia celular apareceu no Brasil. Os irmãos Piquet perceberam que a procura por aparelhos era muito maior do que a oferta e foram dos primeiros a vender celulares em Belo Horizonte. Hoje são donos de onze lojas, empregam sessenta funcionários e faturam 500.000 reais por mês. "Todo mundo dizia que íamos quebrar de novo, mas não demos bola. Essa coisa de ser empresário está dentro da gente", diz Alexandre. Pesquisas sobre o desempenho das pequenas empresas mostram que a maioria não dá certo na primeira vez. Em média 80% delas fecham sem completar dois anos de vida. Em média, até acertar, o empresário brasileiro quebra três vezes. Não importa. O fato é que, aos poucos, os pequenos empresários vão se firmando como a grande força econômica do país. Já empregam 40 milhões de pessoas, ou 60% da mão-de-obra ocupada. Não existe uma estatística precisa, mas os economistas calculam que eles respondam por 40% da riqueza produzida no Brasil. É um progresso e tanto para um país onde a pequena empresa sempre foi desprezada. Em países mais desenvolvidos, elas se destacam há muito tempo. São responsáveis por 80% do PIB americano e por 60% das exportações japonesas. De cada dez novos empregos gerados no mundo, seis são proporcionados por pequenas empresas. Nos Estados Unidos, no Japão e em muitos países da Europa há uma rede de facilidades para o pequeno empresariado. Eles recebem crédito barato, têm apoio tecnológico, pagam menos impostos e a legislação trabalhista costuma ser mais liberal com eles. No Brasil, o único benefício está numa carga tributária menor do que a das grandes empresas. O resto, nem pensar. "O país poderia ter-se desenvolvido muito mais se houvesse estímulo à capacidade empreendedora das pessoas", observa o economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo e um estudioso do tema. No Brasil, as
pequenas empresas ainda têm muito espaço para crescer,
principalmente no setor de serviços, que é o que mais
se desenvolve por aqui. Nessa área, o investimento é
relativamente baixo, basicamente consiste numa sala
alugada, telefone, computador e aparelho de fax. Se der
errado, o prejuízo pode ser amenizado. É mais fácil
vender um telefone do que um torno ou um tear. O
engenheiro paulista Wilson Poit, 40 anos, trabalhava no
departamento de manutenção de uma multinacional, fazia
bicos como eletricista de shows e sua chance apareceu em
1996. Um dia teve de comprar, por 40.000 dólares, um
gerador para garantir que não faltaria energia num
evento, e bingo! Ficou sabendo que os geradores de
reserva eram uma mercadoria escassa no Brasil. Hoje ele
tem mais de quarenta geradores, clientes como Ericsson,
Credicard e Unibanco, e deve faturar 4 milhões de reais
neste ano. Histórias de sucesso, como a de Poit, não
acontecem todo dia. Mas mostram até onde uma boa idéia,
sorte, coragem e a insistência podem levar. |
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Com reportagem de
Cristiane Sanches, de Belo Horizonte,
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