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| Montagem
sobre fotos de Sergio Jacobowitz/Bruno Veiga/Kiko
Ferrite/ Milton Shirata/Ricardo Fasanello-Strana/Mario Lelite/Andre Lobo |
O ano de 1998 entrará para o calendário como aquele em que se imaginou que uma nova era glacial cairia sobre o capitalismo. Novembro já está chegando ao fim e o que se percebe é uma atmosfera bem mais amena. Dois dos primeiros gatos asiáticos tosquiados durante o ano estão em plena convalescença. A Coréia do Sul já anunciou lucros de 20 bilhões de dólares no comércio externo, e a Tailândia começou a receber novamente investimentos do exterior. Os juros americanos caíram pela terceira vez em sete semanas. Indício de que a economia americana pode disparar no ano que vem, consumindo mais, importando mais, dando serviço à máquina econômica mundial. Enfim, a hecatombe prevista para o ano não aconteceu. Foi adiada, pelo menos.
O humor do brasileiro, assim como o do tailandês, foi moldado nos últimos meses para esperar o pior. O Natal será um termômetro. Pela expectativa dos comerciantes, já dá para saber que ele não será exuberante, nem poderia ser, mas também não haverá nenhuma desgraça. Deve ser igual ao do ano passado. Ou até, segundo a Federação do Comércio do Estado de São Paulo, um pouco melhor. "Com base nos números de setembro, poderíamos estimar vendas de Natal até 1% superiores às de 1997, ou até um pouquinho mais", diz Rosana Curzel, economista da federação. Há setores que estão numa tremenda pindaíba, como o dos automóveis. Existem 200.000 carros novos encalhados nas concessionárias e as montadoras pararam de produzir. Mas há também um punhado de gente que fechará as vendas do ano com resultados excelentes.
As agências de turismo anotam um crescimento de 20% nas viagens em território nacional e de 10% no movimento para o exterior (veja reportagem). O faturamento dos supermercados vai crescer, assim como o dos shoppings. Ou seja, as pessoas comprarão mais alimentos, mais produtos nos shoppings e não ficarão em casa nas férias. Isso tem sabor de paradoxo. Afinal, os juros para o consumidor passam de 180% ao ano nos crediários, os financiamentos foram encurtados, fala-se em recessão econômica e aumento de desemprego no ano que vem. Uma parte da charada se explica pela maleabilidade do consumidor brasileiro. Em 1994 ele se esbaldou com a compra de produtos caros, normalmente importados, endividando-se fartamente. Em 1998 comprará produtos mais baratos. "Será o Natal das lembrancinhas", opina Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo.
Mas, de lembrancinha em lembrancinha, o comércio pode encher o papo. Outra modificação nas táticas do consumidor já foi identificada. Caíram as consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito, SPC, usado pelos comerciantes quando um cliente quer comprar a prazo. Cresceram as consultas ao Telecheque, o que dá uma idéia das vendas à vista. Segundo os economistas, como os juros estão letais, o brasileiro escapou do crediário. Ele tem dinheiro no bolso para pagar na boca do caixa. Em parte, porque renegociou suas dívidas durante o ano.
Pode-se arriscar também outro palpite sobre o humor do brasileiro nessa questão do consumo. O país foi empurrado com força para o meio da crise econômica mundial, mas escapou com rapidez. Recebeu um dos maiores pacotes de ajuda de governos e instituições internacionais, um socorro de 41 bilhões de dólares. Duvidava-se da capacidade do governo de aplicar seu ajuste fiscal. Não faz um mês que o ajuste foi anunciado e mais da metade dele já foi executada, segundo um cálculo da consultoria Tendências, de São Paulo, da qual faz parte o ex-ministro Mailson da Nóbrega. Na semana passada, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, visitou os Estados Unidos e a Europa para pedir que os banqueiros não cortem suas linhas de financiamento para o país e obteve a promessa de que haverá dinheiro. "A atmosfera, que estava tão pesada havia dois meses, ficou muito mais serena", avalia o economista Odair Abate, do Banco Lloyds.
Está mais serena em todo o mundo, aliás. É incrível, mas até a Rússia, que foi o pivô da crise de outubro com seu calote condenável, pode voltar aos trilhos. No momento, há uma missão do Fundo Monetário Internacional, o FMI, em Moscou, estudando como tirar o país do pântano em que ele se enfiou. O Japão, que é uma das principais peças do problema econômico mundial, aplicou mais um choque em sua economia na semana passada. O governo destinará cerca de 190 bilhões de dólares para saneamento de seus bancos estourados e para investimento em obras públicas. Está estudando uma redução de impostos para estimular o consumo, a produção e o retorno ao crescimento econômico. Se isso acontecer, o país voltará a comprar produtos e matérias-primas das outras economias do Pacífico.
Um dos indícios mais importantes de que os governos entraram com força para resolver os desequilíbrios do mercado foi a atitude de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, o FED, o banco central americano. Na última terça-feira, ele derrubou os juros em 0,25 ponto percentual, o que é uma enormidade para os padrões americanos (lá, o governo está pagando 4,5% ao ano por um de seus títulos). O resultado desses juros muito baixos é que o dinheiro se descola dos papéis do governo e volta para a bolsa de valores, para o consumo, para empréstimos a empresas e talvez para países emergentes. O índice Dow Jones, da Bolsa de Valores de Nova York, fechou na sexta-feira passada com o seu melhor índice desde 1982. "Há seis semanas, ninguém teria sonhado que poderíamos recuperar-nos tão rapidamente", diz Alfred Kugel, investidor de Chicago. O importante é que a economia americana poderá manter seu ritmo de crescimento em 1999, o que significa importações e contratos no exterior.
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MorumbiShopping,
em São Paulo, quarta-feira passada: movimento acima do esperado |
| Foto: Alexandre Tokitaka |
Com dois grandes pólos de riqueza do planeta, Japão e Estados Unidos, melhorando o desempenho, o mundo estará relativamente protegido do grande temor apresentado pelos economistas. Se a crise se aprofundasse no Japão, atingisse os Estados Unidos e a Europa, poderia disparar uma depressão mundial. E aí, sim, não haveria Natal para ninguém. Os sinais de que esse perigo foi afastado andam surgindo por todo lado. Há um mês, os economistas profetizaram um corte total do crédito para os países emergentes. Eles estariam condenados a retornar aos velhos anos de estagflação. Pois bem. Na semana passada, a Argentina conseguiu empréstimos de 1 bilhão de dólares no mercado externo.
O Brasil, que foi comparado à Rússia por tantos analistas, vendeu ações da Telebrás na Bolsa de Nova York. A atividade na Bolsa de Valores de São Paulo voltou ao nível em que estava antes do calote russo. Na orla do Pacífico, residência dos tigres que abalaram o mundo, 21 líderes de países asiáticos, além de Al Gore, vice-presidente dos Estados Unidos, reuniram-se para discutir como empregar os 40 bilhões de dólares que receberão dos EUA e do Japão. Eles concordaram em estimular pesadamente o consumo interno, sobretudo com a redução de impostos, para sair da recessão.
Quem junta todos esses sinais conclui com razão que os sintomas econômicos estão muito melhores que há dois meses. O fator central foi que os governos, principalmente dos países ricos, conseguiram organizar-se para deter a crise. Países emergentes como o Brasil também mostraram sua disposição de conter gastos e melhorar a contabilidade. Nada disso serve de segurança a respeito do futuro. Um medo que antes era desconhecido foi inoculado no sangue de quem faz grandes negócios ou de quem arrisca um pouco da sua poupança em investimentos financeiros. As pessoas estão estressadas e qualquer incidente pode virar tudo de cabeça para baixo. A probabilidade é de que o otimismo volte aos poucos, mas o fator de insegurança não pode mais ser negligenciado.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |