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Uma nota preta
Mesmo com
a crise, a Christie's vende
um Van Gogh por 71,5 milhões de dólares
Num tempo em que o dinheiro anda curto
nos quatro cantos do mundo, a venda espetacular do Auto-Retrato sem
Barba, de Vincent van Gogh, por 71,5 milhões de dólares sacudiu o
mercado de arte na semana passada. Arrematado na noite de quinta-feira
por um colecionador que prefere ficar no anonimato, a tela tornou-se a
terceira obra de arte mais cara do planeta (veja
quadro). O lance vitorioso
foi feito por telefone para a casa de leilão Christie's, em Nova York.
O preço já inclui a comissão de 10% da Christie's. "Foi uma venda
extraordinária. Havia compradores de todas as partes do mundo", declarou
Franck Giraud, chefe do departamento de arte dos séculos XIX e XX da Christie's.
No jargão dos marchands, a fortuna paga pelo comprador do Auto-Retrato
sem Barba deve ser diagnosticada como "síndrome da última chance",
já que um quadro com tal pedigree raramente aparece no mercado.
Isso explica por
que mesmo numa época recessiva como esta, quando os
colecionadores costumam ficar com as barbas de molho,
nada menos do que sete deles tenham resolvido disputar a
obra. O Auto-Retrato sem Barba foi o último
retrato finalizado por Van Gogh, em 1889, quando ele se
recuperava de um surto psicótico num asilo em St. Rémy,
no sul da França, pouco antes de se matar. Pintado como
um presente de Vincent para o aniversário de 70 anos da
mãe, Anna Cornelia van Gogh, a tela foi concebida como
uma imagem idealizada do pintor. Além de ter-se
retratado sem barba, ele o fez com uma expressão mais
serena, como se quisesse passar um atestado de sanidade
mental para a mãe.
Além disso, a
imensa popularidade do pintor também ajuda a impulsionar
seus preços. Vibrante, colorida e com traços
inconfundíveis, a obra de Van Gogh, marcada por
paisagens, retratos e vasos de flores, é adorada pelo
grande público. Suas exposições, como a atual na
National Gallery, de Washington, atraem multidões. Outro
aspecto importante para ajudar na valorização da griffe
Van Gogh é a própria aura trágica que marca a figura
do artista. O pintor holandês entrou para a História
como um herói romântico, um gênio torturado e
incompreendido em seu tempo. Sua tragédia pessoal
funciona como uma cruel alavanca, jogando suas cotações
ainda mais para o alto. É claro que o talento do pintor
também conta. Van Gogh realmente foi um gênio dos
pincéis, capaz de revolucionar a pintura num curtíssimo
espaço de tempo, entre os anos 1886 e 1889. Juntos,
todos esses fatores fazem do holandês o pintor mais caro
do século XX, com nada menos do que quatro das dez mais
valiosas telas do planeta. O espanhol Pablo Picasso é o
segundo colocado no ranking.
Batida do
martelo A quinta-feira passada foi uma
noite quente no outono nova-iorquino. Há oito anos,
desde que a Christie's leiloou o Retrato do Doutor
Gachet, também de Van Gogh, e a Sotheby's vendeu Au
Moulin de La Galette, do impressionista francês
Auguste Renoir, não se via nada igual. Depois que o
leiloeiro Christopher Burge estabeleceu o lance mínimo
de 14 milhões de dólares, os telefones no salão da
Park Avenue, em Nova York, não pararam de tocar. Quando
os lances bateram na casa dos 40 milhões de dólares, a
disputa estava entre três colecionadores. Às 11 da
noite, quinze minutos mais tarde, Burge bateu o martelo.
Mal o leilão acabou, já começaram as especulações
sobre a identidade do comprador. Teria sido Bill Gates,
que em 1994 arrematou por 30,8 milhões de dólares um
caderno de manuscritos de Leonardo da Vinci? Ou quem sabe
o magnata dos cassinos americanos, o novo-rico Stephen
Wynn, que nos últimos tempos tem sacado pesadamente de
seu talão de cheques para arrematar pinturas
impressionistas? Há quem aposte que o comprador seja
Philip Niarchos, o filho do magnata grego Stavros
Niarchos, morto em 1996. Philip é hoje o maior
colecionador privado de arte do planeta, com um acervo
estimado em 1 bilhão de dólares. Outro nome aventado é
o do barão suíço Hans Heinrich von Thyssen-Bornemisza.
Na outra ponta do leilão estão os antigos donos do Auto-Retrato
sem Barba, os herdeiros do executivo alemão Jacques
Koerfer, um ex-diretor da fábrica de automóveis BMW,
morto em 1991.
Afora Van Gogh, o
leilão também favoreceu as cotações de telas de
primeira linha do pintor surrealista belga René
Magritte. Antes estimadas na casa dos 2,5 milhões de
dólares, elas acabaram saindo por mais que o dobro do
preço. O mesmo não se pode dizer dos nus femininos do
italiano Amedeo Modigliani. Um deles, posto à venda por
8 milhões de dólares, não encontrou quem quisesse
levá-lo por mais de 5,5 milhões. Das 68 obras de arte
oferecidas pela Christie's, nove foram rejeitadas pelo
mercado, retornando a seus colecionadores de origem. É
um sinal de que, para obras menores, o apetite dos
colecionadores anda pequeno.
Os quadros
mais caros do mundo
| TÍTULO |
AUTOR |
PREÇO
(em dólares) |
DATA
DA VENDA |
| Retrato
do Doutor Gachet |
Van
Gogh |
82,5
milhões |
1990 |
| Au
Moulin de La Galette |
Renoir |
78,1
milhões |
1990 |
| Auto-Retrato
sem Barba |
Van
Gogh |
71,5
milhões |
1998 |
| Os
Íris |
Van
Gogh |
53,9
milhões |
1987 |
| As
Núpcias de Pierrette |
Picasso |
51,7
milhões |
1989 |
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