Transporte

Dilema urbano

Catraca eletrônica ameaça emprego de cobradores

Greve de ônibus em
São Paulo e o novo
equipamento em
Santos: prefeitos sob
pressão sindical
Foto: Claudio Rossi  

Viajar de ônibus nas cidades dos países mais desenvolvidos é bem simples. O bilhete é comprado direto com o motorista ou antes do embarque, em bancas de jornais e quiosques. Depois é inserido pelo passageiro numa maquininha eletrônica. É essa novidade que, com anos de atraso, agora começa a difundir-se no Brasil. Onze cidades já adotam catracas eletrônicas em seus ônibus. Em Salvador funcionam há dois anos em 2.000 veículos. O equipamento chegou a quinze linhas de São Paulo na semana passada e estréia em Santos nos próximos dias. No mês que vem, será a vez de o Recife colocá-lo em 2.700 ônibus. O sistema eletrônico traz uma série de vantagens. Em São Paulo, a novidade vai permitir a passagem pela catraca de vinte passageiros por minuto, cinco vezes mais que no sistema antigo, em que é preciso pagar a tarifa ao cobrador. Isso deve representar diminuição de 8% na duração média das viagens e redução de 20% nos custos das empresas, além de menos assaltos pela ausência de dinheiro a bordo. Testado e aprovado em vários países, o sistema está sendo implantado com uma peculiaridade no Brasil: apesar da catraca eletrônica, os cobradores continuam a trabalhar nos ônibus.

Pressionadas pelos sindicatos, que representam os 170.000 cobradores do país, as prefeituras têm impedido que as empresas os demitam. Em Salvador, as catracas eletrônicas são usadas apenas por estudantes e por quem tem direito a transporte gratuito. Os demais passageiros compram a passagem dentro do ônibus, com o cobrador. No Recife se fará o mesmo. Em São Paulo, um decreto impede a demissão desses profissionais. Em tese, eles serão reaproveitados para outras funções. Mesmo assim, temendo demissões em massa, cobradores e motoristas entraram em greve no dia da implantação da catraca. A tendência, no entanto, é que, num prazo mais longo, aconteça com os cobradores o que já ocorreu com bancários, metalúrgicos e outras profissões afetadas pela chegada de novas tecnologias. "Por enquanto, as empresas não falam em demissões por motivos políticos", afirma o professor da Universidade Federal de Pernambuco Alexandre Rands, especialista em economia do trabalho. "Mas, depois de instalado o sistema, demitem. Essa é a lógica da modernização tecnológica."




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