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Trem
com música e ar condicionado: 38 vidros quebrados em um único dia |
| Foto: Cesar Rodrigues/Folha Imagem |
Até setembro, os 200.000 passageiros diários da linha leste da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, na Grande São Paulo, eram obrigados a viajar em trens lotados, sujos, com janelas de plástico opaco, portas quebradas e sujeitos a atrasos freqüentes. Nos últimos dois meses, eles passaram a embarcar em vagões bonitos, limpos, com ar condicionado, música ambiente, vidro fumê, piso antiderrapante, bancos estofados e que param nas estações em intervalos máximos de dez minutos nos horários de pico. Na semana passada, os passageiros voltaram à degradante situação anterior. Os dez trens, doados pelos espanhóis e depois modernizados, foram tirados de circulação. No curto período em que rodaram, 252 vidros foram destruídos por pedras atiradas ao longo da via férrea. Apenas numa sexta-feira, 38 foram atingidos. Sem vidro, o ar condicionado não funciona e os trens têm de ir para reparo. Com tanta janela quebrada, não havia mais peças para reposição. O jeito foi colocar de volta os velhos trens. A reboque, retornaram os atrasos e o desconforto. O prejuízo chega a 300.000 reais.
O caso dos trens paulistanos é exemplo de um problema cada vez maior e mais freqüente nas grandes cidades brasileiras: o vandalismo. A contabilidade da destruição de bens públicos nas metrópoles do país é impressionante. Apenas a companhia telefônica de São Paulo, Telesp, gasta 540.000 reais por mês para consertar os 35.000 telefones públicos que têm os fones arrancados, são atacados com pedradas ou bombas caseiras cerca de um quinto do total dos aparelhos que existem no Estado. O prejuízo seria suficiente para instalar 318 novos telefones públicos a cada mês. Outro alvo freqüente são as luminárias de rua. Em Minas Gerais, a cada ano, cerca de 60.000 lâmpadas são alvejadas por pedras e tiros. Na capital mineira, 45 caixas de correio são danificadas todo mês. O vandalismo destrói ainda placas de ruas e sinalização de estradas, bancos e brinquedos de praças, assentos de ônibus, latas de lixo, árvores. Inclui também a pichação. Basta passear pelas ruas e avenidas de cidades como Rio de Janeiro, Curitiba ou Salvador para perceber como a paisagem urbana está degradada pela ação de arruaceiros armados de tubos de spray.
"É preciso insistir" Por que os vândalos agem assim, prejudicando a si próprios, suas famílias, seus vizinhos, todo mundo? O problema é mundial. Tem a ver com agressividade, rebeldia juvenil, auto-afirmação, revolta contra as instituições e também contra serviços públicos ruins. "Quem faz isso não tem consciência de que o que é público é de todos, inclusive do próprio vândalo", afirma a socióloga Myriam Mesquita, do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. "A negligência dos responsáveis pelos bens e serviços públicos também contribui para o problema. O descuido dá a idéia de que aquilo não tem valor." Um exemplo disso é o metrô nas cidades brasileiras. Ao contrário dos trens, que têm um longo histórico de abandono, o metrô já surgiu limpo, seguro e eficiente. "O bom tratamento criou uma empatia com o passageiro e o transformou no nosso maior fiscal", diz Paulo Goldschmidt, presidente da Companhia do Metropolitano de São Paulo. Os metrôs, no entanto, não são incólumes ao vandalismo. No paulistano, de um a dois vidros são quebrados por pedras todos os dias. A providência é retirar o vagão de circulação e consertá-lo imediatamente. Isso inibe novas barbaridades.
Vandalismo é tão irracional que nem sempre o alvo é ineficiente e nem sempre o agressor é usuário. Um estudo da Universidade de Brasília que detectou que 55% das escolas públicas brasileiras já foram alvo de depredação também mostra que em 80% dos casos quem agiu não estudava lá. A solução para o vandalismo inclui maior policiamento, melhoria da manutenção dos bens públicos e campanhas educativas. Um exemplo disso ocorre em São Paulo. Em média, apenas 30% das árvores plantadas na cidade sobrevivem à depredação. Em um bairro onde alunos das escolas receberam aulas de educação ambiental, o índice de árvores sobreviventes aumentou para 90%. No caso dos trens espanhóis depredados, o governo paulista pretende consertá-los e devolvê-los à circulação junto com outros que estão sendo importados. A segurança ao longo da linha será reforçada para coibir a ação dos vândalos. "É preciso insistir na melhoria do serviço até mudar a percepção que a população tem dos trens", afirma Cláudio de Senna Frederico, secretário estadual dos Transportes Metropolitanos.
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