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Papel
enrolado com oração em latim: "Sinal visível do divino" |
| Foto: Eduardo Albarello |
Há um mês o papa João Paulo II beatificou o primeiro brasileiro, o paulista frei Galvão. Tempo suficiente para que os católicos nativos, pouco acostumados com santos de casa, achassem mais um jeito de se desentender. Eles vêm fazendo isso há pelo menos trinta anos, nas brigas intermináveis entre o chamado "clero progressista", identificado com a Teologia da Libertação, e os padres "conservadores". Na semana passada, o culto ao beato brasileiro foi para o centro da arena, quando dom Aloisio Lorscheider, arcebispo de Aparecida, proibiu a distribuição das famosas "pílulas de frei Galvão" na área de sua diocese. Foram divulgadas duas justificativas para tanto. Em primeiro lugar, o trabalho de confecção das pílulas teria transtornado o cotidiano das onze irmãs do Mosteiro da Imaculada Conceição, em Guaratinguetá, cidade natal de frei Galvão e parte da arquidiocese de Aparecida. As religiosas, que vivem em reclusão, começaram a trocar as orações e meditações da vida no claustro pela tarefa de cortar e enrolar, na forma de comprimidos, metros e metros de papel com uma evocação em latim à Virgem Maria. O outro motivo alegado para o banimento seria o fato de o consumo das pílulas estar adquirindo características de superstição. As pessoas buscam-nas como quem pede uma aspirina multiuso, lenitivo para dores de cabeça, câncer, todos os tipos de doença grave e até para conseguir um emprego.
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| Foto: Alexandre Tokitaka |
A atitude de dom Aloisio, um religioso progressista em relação às causas sociais, porém conservador no que diz respeito à prática litúrgica, surpreendeu o rebanho católico. Afinal, as tais pílulas são estrelas do único milagre admitido pelo Vaticano para justificar a beatificação do brasileiro. Só para lembrar: em 1990, 168 anos depois da morte de frei Galvão, a menina Daniela Cristina da Silva foi internada em estado gravíssimo por causa de uma hepatite. Entrou em coma diversas vezes. A família fez a novena de frei Galvão e deu as pílulas para a garota. Ela ficou boa, e o mérito foi para o beato e para as pílulas fabricadas em seu nome.
Com a divulgação maciça do feito, a procura pelas pílulas explodiu. Diariamente, 3.000 pessoas fazem fila diante do Mosteiro da Luz, em São Paulo, para receber dois envelopes com três pílulas cada um. A maioria não quer nem saber de discussões teológicas. "Proibir a pílula é como matar a fé do povo", exalta-se Maria Peralta Fabiano, 65 anos. A dona de casa paulistana tem certeza de que as pílulas a ajudarão a se recuperar bem da cirurgia que vai enfrentar.
O argumento de dom Aloisio, de que a distribuição de pílulas serve mais como estímulo a superstições do que à fé, pode até ser verdadeiro. Mas que dizer das imagens, medalhinhas e correntinhas de santos vendidas no shopping instalado ao lado da Basílica de Aparecida? Fiéis supersticiosos também atribuem a esse arsenal "santo" poderes sobrenaturais, e não se tem conhecimento de que dom Aloisio se tenha insurgido contra tal comércio. Ao menos as pílulas de frei Galvão são distribuídas gratuitamente. "Na verdade, a Igreja Católica sempre manteve atitudes contraditórias em relação aos 'sinais visíveis do divino', quaisquer formas concretas de retratar o objeto de fé", explica o filósofo Roberto Romano. Se servem para atrair fiéis, por outro lado essas "manifestações do catolicismo popular assustam a Igreja, porque podem sair de controle", diz Lísias Nogueira Negrão, professor de sociologia da religião da Universidade de São Paulo.
A questão é tão complexa que o arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes, responsável pelo Mosteiro da Luz, onde também são fabricadas as pílulas, optou por uma saída salomônica. Continua a distribuir as drágeas de papel, mas agora acompanhadas de uma espécie de bula de remédio, explicando que elas não curam nada sozinhas. "É uma boa idéia. A bula ajuda a relativizar o valor da pílula. O que cura é a fé", aplaude dom Dadeus Grings, membro da comissão de doutrina da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Para aqueles que insistem na pílula e não querem enfrentar as filas no Mosteiro da Luz, madre Teresa, do mosteiro de Guaratinguetá, ensina: "Faça sua própria pílula. Basta escrever a oração em um papel, enrolar e tomar". Em tempo: a oração é "Post partum Virgo inviolata permansisti, Dei Genitrix intercede pro nobis".
Copyright © 1998, Abril
S.A. |