O problema anda armado

Estudo mostra que a criminalidade diminui a
expectativa de vida no Brasil e a polícia não
tem preparo suficiente para enfrentá-la

Daniela Pinheiro

O cabo paulista Sérgio
Rosa, perfil típico do
policial brasileiro: salário
de 860 reais, há três
anos na corporação
Foto: Frederic Jean  

Ninguém precisa de estatística para saber que viver nas grandes cidades está cada vez mais perigoso. Mas uma pesquisa feita pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados, Seade, órgão ligado ao governo de São Paulo, oferece um dado impressionante sobre o tema. O estudo compara a expectativa de vida dos habitantes da Grande São Paulo de 1980 a 1995. Em função das taxas crescentes de criminalidade, nesses quinze anos a expectativa de vida na região metropolitana aumentou apenas quatro meses, quando se esperava que subisse dois anos. Segundo o trabalho, esse ano e oito meses de vida foram ceifados pelos homicídios. O fenômeno se repete em todo o país. O dado se refere apenas à população masculina, já que são quase sempre os homens que se envolvem em brigas e acabam morrendo. A expectativa de vida da mulher nesse período aumentou dois anos e meio. O assassinato é hoje a principal causa de morte entre os paulistas dos 15 aos 44 anos de idade, à frente das doenças do coração, do câncer e da Aids. As explicações de praxe dos teóricos para o aumento da criminalidade são a miséria, o avanço das drogas e um acesso cada vez maior às armas de fogo. Em resumo, é o que os sociólogos gostam de chamar de "esgarçamento do tecido social". Entre os estudiosos do assunto, nota-se que vem ganhando corpo uma outra explicação menos teórica e mais palpável. O banditismo generalizado está ligado diretamente à atuação deficiente da polícia. Em outras palavras, se os policiais trabalhassem melhor, haveria menos mortes nas grandes cidades.

A deficiência dos policiais começa já na academia, onde os aspirantes passam seis meses em treinamento e aprendem tudo sobre as formalidades da hierarquia militar, mas pouco sobre como se comportar em situações reais de perigo. "Eles aprendem a bater continência quando encontram um oficial no ônibus, em vez de saber como agir em casos de assalto com reféns", diz o coronel da reserva paulista José Vicente da Silva Filho, especialista no tema. "O resultado é que o futuro policial não vai saber o que fazer na hora em que precisar." Como não recebem treinamento adequado, os policiais acabam matando gente demais nos confrontos com os bandidos e também morrendo.

Outra característica da polícia brasileira é que ela não dá a devida atenção ao trabalho preventivo. Em todas as metrópoles, os assassinatos ocorrem com maior freqüência nos bairros de periferia. Só que as viaturas policiais se concentram nas regiões centrais, onde acontecem os crimes contra o patrimônio, como roubo e furto. Na maioria das cidades, há mais patrulhas fazendo a ronda durante o dia, sendo que os homicídios ocorrem à noite, em geral nas proximidades de bares e boates, onde o álcool funciona como motor da violência. A polícia costuma fazer operações para evitar assaltos a bancos nos dias de pagamento de salário, todas muito bem-sucedidas. Não se tem notícia de um programa igualmente ambicioso no cinturão do álcool.

A lista de deficiências é interminável. Uma comparação entre as polícias brasileira e americana ajuda a compreender as limitações de que se fala (veja quadro). O Estado brasileiro investe no policial apenas um quarto do que o governo americano. Um patrulheiro de rua dos Estados Unidos chega a ganhar até seis vezes mais do que um policial brasileiro, conforme o Estado. Salários ruins espantam os candidatos mais qualificados e produzem uma força desmotivada. O resultado é um policial que, em vez de se dedicar integralmente ao serviço público, espera compreensivelmente o fim do expediente para fazer hora extra como segurança particular. Uma pesquisa da organização Human Rights Watch mostrou que no Rio de Janeiro, nos últimos dois anos, 74 policiais foram mortos em serviço, para 334 que morreram quando estavam de folga (leia-se fazendo bico).

Tolerância zero — A diferença entre as duas polícias não deve ser medida apenas em dinheiro, até porque comparar o Brasil e os Estados Unidos produz resultados sempre injustos em qualquer outra área de atuação do Estado, como saúde e educação. O problema central é de postura. Nas últimas eleições, muitos candidatos propuseram copiar, no Brasil, a política de "tolerância zero" adotada pelo prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que reduziu a criminalidade em proporções que se julgava impossíveis (o índice de homicídios caiu 70%). A tática era prender pessoas por causa de qualquer tipo de infração, inclusive as insignificantes, como urinar no meio da rua. A estratégia foi copiada em várias cidades americanas e a criminalidade caiu. "Quem comete um crime, comete vários. Mas você pode prendê-lo por apenas um deles. Se você tira um traficante da rua porque ele foi pego com documento falso, o que interessa é que você tirou um traficante da rua", teoriza o prefeito Giuliani. A estratégia fez com que os EUA somassem 1,8 milhão de pessoas atrás das grades, o maior contingente carcerário do planeta, mais de duas vezes a população da cidade de San Francisco. O problema é que o programa de "tolerância zero" contra os bandidos só funciona se for precedido de um outro, também de tolerância zero, em relação à polícia.




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