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Perdido nunca mais
Aparelho
que dá a localização por meio
de satélites ganha mil e uma utilidades
Klester
Cavalcanti e Ricardo Villela
No Acre, eram 16
horas. Em Pernambuco, 14 horas. No dia 3 de junho,
enquanto o indigenista Sydney Possuelo sobrevoava a
Floresta Amazônica em busca das malocas de uma tribo
desconhecida, a milhares de quilômetros dali o
mergulhador Miguel Ângelo Oliveira afundava no mar
azul-turquesa da costa pernambucana para visitar um navio
naufragado. Nessas missões diferentes e distantes, os
dois foram ajudados por um instrumento que promete ser
tão popular e indispensável no próximo milênio quanto
hoje são o telefone e o relógio de pulso. A nova
ferramenta chama-se GPS e realiza um trabalho simples mas
precioso. Ele marca as coordenadas de latitude, longitude
e altitude de qualquer ponto da superfície terrestre.
Com ele, ninguém mais no mundo se perde e encontra o que
procura com maior facilidade.
O GPS está
ajudando transportadoras a monitorar suas frotas de
caminhões, empresas de resgate médico a controlar suas
ambulâncias, jipeiros a encontrar suas trilhas, aviões
a acertar o rumo e cientistas a fazer descobertas. O
aparelho parece ter mil e uma utilidades. Cada pessoa
inventa uma. Nos Estados Unidos, deficientes visuais
estão substituindo os cachorros guias por eles. Lá
também, uma locadora já oferece carros em que o
motorista vê onde se encontra e como fazer para chegar
ao destino em um mapa digitalizado. Os técnicos do
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária,
Incra, usam o GPS para descobrir o verdadeiro tamanho das
fazendas e definir áreas para desapropriação. Seu
maior impacto, contudo, é sentido em regiões de
dimensões gigantes e raros pontos de referência, como a
selva amazônica, o mar, o céu, o deserto, ou o Ártico
e a Antártica.
Marcação
de fronteiras Na Amazônia, o aparelhinho
está modificando fronteiras, ajudando a reprimir a
extração clandestina de madeira e salvando a vida de
pilotos de avião perdidos na selva. Hoje é um
equipamento obrigatório para quem trabalha na região.
"Sem o GPS não decolo e ponto final", diz o
piloto Carlos Antônio Marques, que já passou dezesseis
dias perdido na selva depois de um acidente. Pouco mais
de um terço dos 5 milhões de quilômetros quadrados da
Amazônia tem cobertura de radar. Em julho, o Ibama
instalou um sistema que combina GPS com comunicação via
satélite em 88 Toyota que fiscalizam a floresta.
Funcionários de Brasília sabem em tempo real onde está
cada carro e podem mandá-los para as ocorrências mais
próximas. Esse sistema salvou os fiscais de uma
enrascada. Uma equipe enviada para São José do Xingu,
em Mato Grosso, para investigar queimadas foi cercada por
pistoleiros. Pelo mapa digitalizado, o pessoal de
Brasília indicou as coordenadas de uma estrada vicinal
que livrou os fiscais do apuro. Nessa selva, o aparelho
também ajuda a marcação das fronteiras. Há vinte
anos, os 2.200 quilômetros de extensão da fronteira
entre Brasil e Venezuela eram delineados por 291 marcos.
Hoje existem 2.680, fincados com ajuda do GPS. "O
aparelho nos permite identificar o ponto exato da
fronteira", observa o chefe da Primeira Comissão
Demarcadora de Limites, Dalberson Monteiro.
Criado com fins militares, o GPS só
ganhou uso civil em meados dos anos 80. Os primeiros a adotar a nova tecnologia
para fins pacíficos foram aviões e navios, que precisam da ferramenta
para navegação (veja como funciona, no quadro).
Com o desenvolvimento de aparelhos cada vez menores e mais baratos, o
uso se disseminou. Hoje um GPS custa 300 reais no Brasil. O paleontólogo
Ricardo Negri escava o solo da Amazônia em busca de fósseis há dez anos.
Antes de comprar seu GPS, ele usava casas ribeirinhas e árvores mais altas
para marcar a localização dos buracos. "Como a variação da paisagem
amazônica nas diferentes épocas do ano é enorme, era comum encontrar locais
ricos em fósseis e na expedição seguinte ficar dias procurando o mesmo
lugar", conta Negri. "Muitas vezes não encontrávamos e tínhamos
de abandonar a pesquisa." O aventureiro Thomaz Brandolin usou o GPS
para fazer uma caminhada sobre o gelo inabitado do Pólo Ártico há dois
anos. Ele andou 140 quilômetros em vinte dias, acompanhado apenas do cão
"Bruno", que o defendia dos ursos polares. "Abri mão do
trenó motorizado e do abastecimento aéreo de alimentos, mas jamais faria
essa viagem sem o GPS", diz.
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