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A regra é dobrar
Com a
facilidade de comparação nas lojas, preço
dos vinhos em restaurante fica mais indigesto
Aida Veiga
Uma das
conseqüências mais visíveis (e prazerosas) da abertura
do Brasil aos produtos importados é a variedade de
marcas, nacionalidades e preços de vinhos nos
supermercados. Aquela gôndola raquítica, dominada por
bebidas de quinta categoria, foi invadida por rótulos da
Itália, França, Portugal, Espanha até os vinhos
nacionais ganharam qualidade. Na semana passada, a rede
de supermercados Carrefour, a mais popular entre as
grandes, inaugurou sua primeira Feira do Vinho: 400.000
garrafas importadas de nove países, com preços entre 6
e 165 reais cada uma. Acessível em qualquer esquina, o
bom vinho continua duro de engolir em seu cenário
natural: a mesa dos restaurantes. Da cantina de bairro à
casa mais luxuosa da cidade, seja qual for a qualidade da
bebida, a ordem do dia, no caso do vinho, é jogar o
preço na estratosfera. "É um disparate",
desfecha o crítico gastronômico Mauro Marcelo Alves.
"Um absurdo", concorda o colega Saul Galvão.
De engasgar, o
preço da garrafa de vinho no restaurante sempre foi.
Agora tem ficado mais flagrante, porque, em muitos casos,
a comparação está logo ali, na etiqueta da loja. Uma
garrafa do modesto chileno Sunrise custa, em média, 8
reais no varejo. Na semana passada, na carta de vinhos do
Fasano, restaurante paulista de altíssimo nível, adega
climatizada e sommelier premiado, ele custava 33 reais,
ou 313% mais. Até o dono, Rogério Fasano, informado da
diferença, manifestou espanto. "Deve haver algo
errado", disse. "O normal é cobrar dos
clientes de duas a duas vezes e meia o valor que pagamos
pela mercadoria." Os motivos para o acréscimo são
mais ou menos os mesmos em qualquer casa: serviço,
ambiente, cuidado com qualidade, impostos. Um rosário de
argumentos que até soam convincentes em restaurantes
como o Fasano, que investem em qualidade, mas que se
esfacelam naqueles em que o garçom mal sabe pronunciar o
nome do vinho.
Dolorosa
O acréscimo de 100% a 150% é prática quase padrão,
confirmada pela maioria dos restaurantes. Muito? Pois a
facada pode ser mais dolorosa ainda. Por causa dos
motivos de sempre, mais a despesa do transporte (a
maioria das importadoras está em São Paulo), no mineiro
Taste-Vin a meia garrafa de Chablis francês custa 37
reais; por 1 real a mais, compra-se uma inteira no
supermercado. No vizinho Splendido, uma garrafa de
Châteauneuf du Pape sai por 115 reais. Nem que fretasse
um avião justificaria os 140% de acréscimo sobre os 48
reais da prateleira.
Já no carioca
Margutta, onde o português Quinta da Bacalhôa, 24 reais
no supermercado, aparece na carta de vinhos por quase o
triplo (68 reais), a dona, Conceição Neroni, justifica
a diferença com mais um argumento daqueles
irrespondíveis: nos pratos, sua margem de lucro não
pode passar de 3% a 5%. "Não dá para cobrar mais
na comida", diz, convicta. Sem falar na reposição
de copos de cristal quebrados por clientes desastrados,
um dos motivos alegados na contabilidade de Eleonora
Rizzo, dona do gaúcho Al Dente. Eleonora avalia o
alemão Liebfraumilch, o da indigesta garrafa azul, em 18
reais na sua carta de vinhos; no supermercado, sai por 6
reais. Ao cliente de garganta seca (de raiva) e boa
capacidade de planejamento, resta a saída usada com
freqüência pelo francês Pierre-Louis Brisset, diretor
de comunicação do Carrefour: levar um vinho de casa.
Nesse caso, paga-se o chamado preço de rolha, um
"pedágio", que varia de 10% do preço do mesmo
vinho no cardápio a um fixo de mais ou menos 20 reais.
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