Tigre ensolarado

Há duas décadas e meia, o Rio Grande do
Norte é o Estado que mais cresce no Nordeste

Dina Duarte e Juliana De Mari, de Natal

Que o Nordeste é a região que mais cresce no Brasil, todo mundo já sabe. Há quatro anos, o ritmo de crescimento do produto interno bruto nordestino, PIB, é bem superior ao da média brasileira. O que pouca gente imagina é que à frente dessa explosão de desenvolvimento não estão Bahia, Pernambuco ou Ceará, os Estados mais badalados da região. A estrela do momento na geografia nordestina é o ensolarado e discreto Rio Grande do Norte. O desempenho de sua economia é impressionante quando comparado ao do restante do país. Em 25 anos, o PIB do Estado cresceu em média 7,9% por ano, o melhor índice entre todos os Estados do Nordeste e quase o dobro da média nacional. A renda per capita mais que quadruplicou, passando de 700 dólares em 1970 para 3.000 dólares no ano passado. "O mais importante no desenvolvimento do Rio Grande do Norte é que os índices econômicos trouxeram a reboque uma melhoria na vida de sua população", afirma o economista Herodoto Moreira, consultor econômico da Sudene, Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Um exemplo: nos últimos três anos, a mortalidade infantil no Estado foi reduzida em 39% e a desnutrição entre recém-nascidos baixou 52%.

Outras surpresas aparecem quando se observam de perto as razões desses números. Embora esteja situado no semi-árido nordestino, onde raramente chove, o Rio Grande do Norte produz e exporta grandes quantidades de melão, banana, manga e uva. Isso é possível graças à irrigação, uma técnica que nos últimos quinze anos transformou enormes porções de terra aparentemente inúteis em oásis no sertão nordestino. O Rio Grande do Norte também investiu pesado em turismo — uma vocação óbvia numa região em que há 300 dias em média de sol por ano. Como segundo maior produtor de gás na região e primeiro de petróleo em terra no país, fez um acordo com a Petrobras e passou a atrair empresas oferecendo energia a preços mais em conta do que em outras regiões. Além disso, tirou vantagem da guerra fiscal entre os Estados oferecendo benefícios tributários e diversas vantagens para empresários que topassem transferir suas fábricas para lá. "Nós garantimos as condições ideais para que os investidores possam vir aqui, gerar empregos e renda", vangloria-se o governador reeleito, Garibaldi Alves, do PMDB.

Garibaldi Alves,
governador reeleito:
energia e subsídios
em troca de empregos
Foto: Dorival Elze  

Mais doce — O Rio Grande do Norte passou a ser um grande exportador de frutas por uma combinação de fatores. Sol o ano inteiro, baixa umidade relativa do ar e solo fértil são condições fundamentais para a obtenção de frutas mais doces. Para tornar isso realidade, só precisava da irrigação. "A lavoura irrigada permite produção o ano inteiro", explica Manoel Dantas, dono da Frunorte, segundo maior exportador de frutas do Nordeste, com faturamento anual de 15 milhões de dólares. "Assim, vendemos também na entressafra do mercado exterior." A localização do Estado no mapa do Brasil também contribuiu muito. "Estamos mais próximos, simultaneamente, dos mercados europeu e americano do que qualquer outro Estado brasileiro", observa Jaime Mariz, secretário de Planejamento do Estado. De Natal, os Estados Unidos e a Europa estão sete dias de navio e seis horas de vôo mais próximos do que em relação aos portos e aeroportos da Região Sudeste. É uma vantagem e tanto quando se quer exportar produtos perecíveis, como frutas.

As vendas ao exterior cresceram depois que o governo concretizou um projeto adiado durante anos, a dinamitação da Pedra da Bicuda, uma formação de recifes que limitava a profundidade do Porto de Natal. Antes, ali só entravam navios com até 7.000 toneladas de carga. Agora, o Porto de Natal pode receber embarcações carregadas com até o triplo disso. Em dois anos, a circulação de mercadorias duplicou. Hoje, 7 em cada 10 toneladas de frutas frescas produzidas no Rio Grande do Norte vão parar na mesa de consumidores americanos e europeus.

Outra frente de crescimento pode ser observada nos novos distritos industriais do Rio Grande do Norte. Ali, o governo oferece às empresas gás natural pelo mais baixo preço do Brasil, distribuído diretamente às fábricas por 84 quilômetros de gasodutos. É um forte chamariz para os investidores, porque diminui consideravelmente os custos de produção. O Grupo Coteminas, por exemplo, fabrica camisetas de malha a 0,75 centavos de real a unidade. O preço, que concorre com o dos países asiáticos, deve-se à redução de até 40% nos custos de energia. Nos últimos três anos, 94 empresas foram atraídas para o Estado. Vinte já foram implantadas. Cinqüenta estão em construção. Quando estiverem em pleno funcionamento, gerarão 32.000 novos empregos diretos.

Duna sem chaminé — Para os 300.000 turistas que todo verão visitam o Rio Grande do Norte, uma surpresa é observar que, apesar do crescimento econômico, Natal permanece uma cidade pacata, sem congestionamento de trânsito nem problemas de poluição. A maior parte dos 410 quilômetros de praias da região, repletas de dunas, mantém o ar selvagem. O Estado é hoje o terceiro destino turístico do Nordeste, atrás apenas da Bahia e do Ceará. O setor de serviços, que inclui o de turismo, é responsável por 50% da produção local de riquezas. Com obras orçadas em 11 milhões de dólares, o Aeroporto de Natal está triplicando sua capacidade. A Escola de Turismo e Hotelaria Barreira Roxa, inaugurada em setembro, com capacidade para formar 10.000 profissionais por ano, recebeu 6 milhões de reais em investimentos. Nela funciona um hotel, onde quem atende os hóspedes são os alunos, supervisionados por professores. A escola pretende servir de modelo no país. Assim como o próprio Rio Grande do Norte é hoje um bom exemplo para outros Estados.




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