Bichinhos legais

Pesquisa derruba o mito de que os personagens
de desenhos animados estimulam a violência

Crianças de todo o mundo já viram o filme A Auto-Estrada Fracassada, exibido na televisão desde 1963. O roteiro conta a história de Homero, um funcionário de uma empresa de engenharia que tenta derrubar uma árvore para, no lugar dela, construir uma estrada. Mas um morador da área se recusa a sair e submete o sujeito a violências indizíveis. Em sete minutos, Homero leva uma surra de cassetete, é jogado em uma betoneira, explode com uma bomba que lhe cai nas calças e é atropelado por um trator. Filme de terror? Não, é apenas mais um episódio do desenho animado Picapau, criado em 1940 pelo americano Walter Lantz. De uns tempos para cá, o desenho tornou-se um dos milhares de exemplos usados pelo esquadrão dos politicamente corretos para mostrar como a criançada está exposta à violência televisiva. As gerações que cresceram gargalhando a cada vez que o operário se estrepa ao tentar derrubar o Picapau da árvore, no entanto, têm um consolo. Um estudo feito pelo Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação, da Universidade de São Paulo, USP, com 1.020 crianças mostra que colocar os cartoons no balaio das más influências é uma asneira sem tamanho. "Uma criança normal, que não sofre de distúrbio cerebral, jamais transfere a violência do faz-de-conta para o cotidiano", conclui Elza Dias Pacheco, coordenadora da pesquisa e doutora em psicologia social.

O conto da Gata Borralheira, escrito no século XVII pelo francês Charles Perrault, mostra uma madrasta que obriga as filhas a cortar os dedos dos pés para calçar um sapatinho de cristal. A primeira versão de Chapeuzinho Vermelho trazia o Lobo Mau mastigando uma menina e sua avó. Nossos tataravós não se transformaram em matadores depois de ouvir as histórias. As crianças de hoje também não jogarão dinamites nos desafetos, como faz o Pernalonga. Como nos contos, a linguagem da maioria dos desenhos é propositadamente exagerada e deixa claro que se está falando de um mundo irreal. As cores são berrantes, ninguém morre, as músicas ridicularizam as cenas de violência e garantem o tom de diversão.

A pesquisa tem outra conclusão importante: a meninada prefere os desenhos antigos. No ranking dos dez mais lembrados pelas crianças entrevistadas, apenas três têm menos de uma década. O Picapau está em primeiro lugar. Pateta, Tom e Jerry e Pernalonga vêm em seguida. "Gosto do Tom e Jerry e, principalmente, do Mickey. Tenho travesseiros, copos e bicho de pelúcia dele", conta André Sollito, 8 anos. A doutora Elza ficou intrigada com a mania retrô e tentou explicar por que os novos desenhos, liderados pela safra japonesa, não conseguem fixar-se no gosto infantil. Descobriu que, apesar de os personagens dos desenhos japoneses sempre se apresentarem com os olhos muito grandes e redondos, à maneira ocidental, eles são ultranipônicos num traço de comportamento que as crianças — mesmo inconscientemente — percebem. Eles sempre andam em turmas gigantes. É assim, por exemplo, com os Cavaleiros do Zodíaco e os Power Rangers. São tantos personagens que as crianças têm dificuldade para identificar um herói. Há ainda outro ponto. Os novos desenhos pecam pelo excesso de realidade. Filmes como Yu Yu Hakusho — em que o herói embrenha-se em crises existenciais e depois soca os inimigos até que jorrem litros de sangue — não convencem. "Quando vejo os super-heróis, fico sério na frente da TV. Mas quando assisto ao Picapau não agüento de tanto rir. Por isso ele é mais legal", diz o paulista Felipe Vannucci Maneschi, 9 anos, que acorda todos os sábados às 7 da manhã para ver as estripulias do personagem.

Os desenhos de outrora também levam vantagem ao mostrar bichos — quase sempre travestidos de gente — como heróis. Em vez de atormentar as crianças com dilemas éticos, os bichinhos garantem o que qualquer criança, com toda a razão, quer: diversão. "O Pernalonga é o maior barato. Ele vive se escondendo para enganar os outros. Eu também brinco de esconder dentro de casa e gosto de imitá-lo", conta Lucas Bobadilla, 8 anos. A pesquisa da USP é a redenção da geração TV. É também um alívio em meio à febre politicamente correta que produziu curiosidades como uma recente pesquisa divulgada pela ONU. Nela foram computados 1.432 crimes cometidos em uma semana de exibição de desenhos animados em emissoras brasileiras. Boa parte deles era contra o patrimônio. Devem estar falando de quando o Frajola amassa a gaiola do Piu-Piu.

Rodrigo Cardoso




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