França

Lobista na cama

Em livro, emergente conta como foi paga para
influenciar o ministro de quem era amante

Christine e Dumas,
em público e numa das
fotos que ela vendeu à
Paris Match: romance e
suspeitas de corrupção

Uma figura importantíssima da República, sob suspeita de corrupção, garante que não vai renunciar. É na França que o caso está acontecendo, e o envolvido atende pelo nome de Roland Dumas, cacique socialista, ex-ministro das Relações Exteriores e atual presidente do Conselho Constitucional. O escândalo inclui sexo e dinheiro, mais do segundo que do primeiro, mas ambos em quantidade suficiente para abalar os bastidores do poder. Numa autobiografia recém-publicada, com o sugestivo título La Putain de la République (A P... da República), a alpinista social Christine Deviers-Joncour conta como foi contratada pela estatal do petróleo para virar amante de Dumas, então chanceler do governo Mitterrand, e espioná-lo.

O que torna explosivas as revelações é que nada é arquivo morto. As denúncias de corrupção envolvendo polpudíssimas transações de petróleo e armamentos estão sob investigação e Dumas, pelo posto no Conselho Constitucional, é hoje o quinto homem na hierarquia do poder francês. Christine diz ter recebido o equivalente a 11 milhões de dólares para atuar na cama do ministro como lobista da Elf Aquitaine, a Petrobras francesa, privatizada em 1994. Toda a dinheirama rolou para a conta corrente de Christine entre 1990 e 1993 — e, ela garante, Dumas tinha pleno conhecimento de que seus serviços eram encomendados pela estatal. Num diálogo do livro, Dumas faz a pergunta que nenhum amante deve fazer: "Você está aqui por minha causa ou pela Elf Aquitaine?" Ela, romanticamente, responde: "Você duvida que sempre estarei aqui por você?"

Christine, hoje com 51 anos, conheceu Dumas em 1987. Notório conquistador, o então deputado socialista, já famoso como advogado de Pablo Picasso e François Mitterrand, lhe fez um galanteio. O marido de Christine, Claude Joncour, reagiu à abordagem com a mais fria realpolitik. "Aos 40 anos, você não tem emprego fixo nem dinheiro", aconselhou. "Esta é sua última chance, vá em frente." Três anos depois, já separada, ela aproveitou a chance. Com o dinheiro da estatal, mudou-se para um apartamento de 3 milhões de dólares em Paris, onde promovia festas para políticos e empresários, segundo orientação da Elf.

"Mata Hari" — Em seu livro, ela dá um exemplo de lobby bem-sucedido. Em 1991, ao saber que Dumas acompanharia Mitterrand numa viagem pelo Oriente Médio sem fazer escala num país (não especificado) com o qual a empresa esperava fechar um megacontrato, a Elf entrou em surto. Christine foi enviada a Nova York, onde Dumas participava de uma reunião da Organização da Nações Unidas, ONU, para convencê-lo a reformular a agenda. Conseguiu o objetivo no intervalo de uma ópera. Christine afirma ter fracassado em sua segunda missão — fazer Dumas revogar o veto à venda de seis fragatas francesas a Taiwan. O negócio, de 2,7 bilhões de dólares, concretizou-se, mas por decisão pessoal de Mitterrand. Tudo o que Christine conseguiu de Dumas foram carinhosas ironias. "Como vão suas fragatas, Mata Hari?", perguntava-lhe, referindo-se à lendária espiã. Dumas foi corrompido? Christine jura que não. Um banqueiro suíço, amigo de Dumas, atestou à Justiça que foi abordado pelo então presidente da Thomson-CSF, gigante da indústria bélica, para sondar sobre a conveniência de pagar comissões a sua amante. Dumas disse que não precisava. Problema: o banqueiro também fez um empréstimo de 500.000 francos (cerca de 90.000 dólares) ao amigo, em dinheiro vivo.

O que chamou a atenção da Justiça foi o enriquecimento súbito de Christine. Ela já passou cinco meses em detenção preventiva, mas ainda não foi julgada. Decidiu aproveitar a notoriedade. Antes do lançamento do livro, vendeu a bom preço fotos de seus momentos felizes com Dumas para a revista Paris Match. A Justiça trata em segredo as investigações sobre a corrupção na Elf. Não se sabe se há provas contra Dumas, mas é certo que ele já teve o sigilo bancário quebrado. Depois das revelações de Christine, alguns jornais e políticos pediram sua renúncia. Ele se indignou: quer continuar à frente do órgão encarregado das questões constitucionais, acima do alcance da Justiça comum.




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