Hóspede do barulho

Recusa da Itália em extraditar guerrilheiro curdo
para a Turquia provoca crise diplomática

Tcha-Tcho

Os curdos são um povo sem nação, um problema aparentemente insolúvel que os coloca como protagonistas de conflitos crônicos, remotos e desesperançados, dos quais a maioria dos países só quer distância. Na semana passada, a Itália se viu arrastada para o centro da mais sangrenta dessas guerras localizadas, a dos curdos da Turquia contra o país onde vivem em permanente estado de beligerância. A situação começou a esquentar no sábado 14, quando o governo italiano anunciou a prisão do principal líder guerrilheiro curdo, Abdullah Ocalan, sobre quem pesava um mandado internacional de prisão, e chegou ao ponto de fusão na sexta-feira passada, quando ficou claro que ele não seria extraditado para a Turquia. A crise diplomática é maior que qualquer outra que se tenha visto na Europa nos últimos anos, capaz de fazer a disputa jurídica a respeito do ex-ditador chileno Augusto Pinochet parecer um chá com a rainha. Itália e Turquia são parceiros comerciais e na Otan, a aliança militar do Ocidente, mas a tórrida guerra de palavras, ao longo da crise, era a de inimigos jurados de morte.

O governo turco ameaçou a Itália de "hostilidade eterna", um exagero que dá as dimensões de sua irritação e do ódio nutrido por Ocalan, a quem considera um terrorista abominável. As ruas de Istambul encheram-se de manifestantes com fotos de soldados turcos mortos na luta contra a guerrilha curda. Graças a uma campanha nacional, os turcos inundaram o serviço postal italiano com mensagens por fax, pedindo a cabeça de Ocalan. Não bastasse, bateu-se onde mais dói: a indústria de luxo. Grandes consumidores de produtos de griffe italiana, os turcos ensaiaram o início de um boicote às bolsas Gucci e às gravatas Armani. Simultaneamente, as ruas de Roma, em maior escala, e de outras capitais européias eram tomadas por exaltadas manifestações em sentido contrário: a favor do preso problemático, venerado como herói da luta nacionalista pela grande maioria dos curdos. Militantes curdos em vigília declararam-se em greve de fome por sua libertação e um deles ateou fogo às roupas. Outros dois imolaram-se diante do Parlamento, em Moscou, meio continente de distância. Na sexta-feira, finalmente, a Justiça italiana decidiu libertar o dirigente curdo, enquanto julga seu pedido de asilo político. No meio desse bafafá, a maioria dos italianos ainda se perguntava quem é Ocalan, um sujeito que parecia ter surgido do nada para arruinar as relações entre dois países aliados.

Manipulados — Ocalan é a face visível do Partido dos Trabalhadores Curdos, conhecido pela sigla PKK, o mais importante movimento guerrilheiro separatista dos curdos da Turquia. Nos últimos catorze anos, o conflito já fez perto de 40.000 mortos, seguindo a mesma rotina trágica: a guerrilha ataca, o governo (qualquer governo) reprime com brutalidade. Do ponto de vista de Ancara, é um atoleiro militar e político. Uma das aspirações nacionais da Turquia é ser aceita como um país europeu e moderno — mas isso é difícil quando se tem dentro de casa os horrores de um conflito separatista. O problema não é exclusivo da Turquia. Vinte e cinco milhões de curdos vivem espalhados por seis países, o que faz deles o maior grupo étnico do mundo sem Estado próprio. Em cada um desses países há rebeliões separatistas de intensidade variada. A norma é os governos reprimirem os curdos em seu próprio território e patrocinarem os que lutam no país vizinho. O PKK recebia ajuda da Síria, mas outra facção, o KDP, encontrou refúgio no Iraque (os dois regimes são inimigos mortais). Os curdos do Iraque, por sua vez, só sobrevivem a Saddam Hussein com a proteção dos Estados Unidos. Não é raro, contudo, que um grupo se alie ao ditador iraquiano para combater outro. Divididos por rivalidades tribais que os faz se engalfinhar entre si, e manipulados de todos os lados, os curdos não parecem ter chances reais de um país próprio.

O que a Itália foi fazer em tal confusão bizantina? Segundo o jornal Corriere della Sera, foi um pedido de políticos esquerdistas que levou o atual governo italiano a fazer um arranjo com a Rússia, antiga patrocinadora do PKK, para receber o fugitivo. Não deu certo e a Itália meteu-se num vespeiro. Embora a Turquia o considere o chefe de um grupo terrorista, Ocalan é o líder de um povo oprimido e tem como bandeira direitos nacionais perfeitamente legítimos. Não é, contudo, uma figura agradável. Ele fundou o PKK, marxista-leninista, segundo os ventos da época, devidamente abandonados com o fim da Guerra Fria, embora ainda seja oficialmente chamado de "camarada". Cerca-se de um culto de personalidade de fazer inveja a Stalin, a ponto de se apresentar como o "Jesus Cristo de um povo errante". Os métodos do PKK são brutais e sua rede de atividades espalha-se pela Europa. A Alemanha o procura por atentados e assassinato. Recentemente moderado, ele diz ter desistido do terrorismo e da independência, contentando-se com um regime de autonomia. Os turcos preferem a guerra total a ceder um milímetro.

Ocalan vivia baseado na Síria. Deixou o refúgio às pressas, depois que a Turquia ameaçou enviar tropas para capturá-lo em Damasco. Tentou refugiar-se em Moscou, mas os russos também preferiram dispensar o visitante incômodo. Foi assim que ele foi parar em Roma, com um passaporte falso (o documento falso era a única razão para estar preso na Itália, e o apelo ao asilo político, impossível de ser negado). Os Estados Unidos e a Inglaterra se alinharam à Turquia pela extradição de Ocalan. Os interesses geopolíticos são pesados. Com sérias violações dos direitos humanos denunciadas por organismos de todo o mundo, a Turquia desempenha um papel todo especial no cenário mundial. Sua localização geográfica funciona como amortecedor entre o rico modo de vida europeu e as turbulências orientais. O Ocidente precisa tanto da Turquia quanto a Turquia do Ocidente. E o caso Ocalan só aprofunda o abismo entre os dois lados.




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