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André
Lara Resende: salto a cavalo na Sociedade Hípica no Rio de Janeiro e constrangimento no depoimento de Mendonça de Barros no Senado |
| Foto: Patricia Santos/Folha Imagem |
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| Foto: Ricardo Stuckert |
Suponha que você é rico. Rico, não, milionário. Que esporte escolher para exibir seu status? Se a sua resposta for "hipismo", saiba que pelo menos uma coisa em comum você teria com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, o economista André Lara Resende, de 47 anos. É ele o garboso cavaleiro retratado nestas páginas. Além de montar puros-sangues de alguns milhares de reais, Lara Resende adora pilotar Porsche e outros carrões do gênero. No domingo dia 15, apenas um dia depois da divulgação de trechos das duas fitas grampeadas na sede da instituição que Lara Resende dirige, lá estava ele todo paramentado sobre seu bucéfalo, disputando uma prova na Sociedade Hípica Brasileira no Rio de Janeiro.
Na quinta-feira, o ambiente perdera toda sua graça e descontração. Sentado no plenário do Senado para ouvir o depoimento do ministro Mendonça de Barros a respeito do grampo, o presidente do BNDES era a própria imagem do desconforto. Foi o ápice de uma semana embaraçosa. "A gravação de minhas conversas e a divulgação das fitas foram para mim como um estupro", desabafou a um amigo.
Filho do escritor mineiro Otto Lara Resende, criado em meio à fina flor da intelectualidade carioca, André era professor da Pontifícia Universidade Católica, PUC, do Rio de Janeiro, em 1985, quando foi convidado a ser diretor do Banco Central. Economista brilhante, um dos melhores no Brasil na formulação teórica, André Lara Resende ajudou a criar o Plano Cruzado, juntamente com o colega Persio Arida. Sua competência no trato da coisa pública levou-o para a iniciativa privada. Daí por diante, sua vida obedeceu a um movimento pendularmente incestuoso entre uma área e outra, como acontece com muitos economistas competentes que passam pelos órgãos financeiros do governo. Depois de passagens pelos bancos Garantia e Unibanco, Lara Resende fundou o banco de investimentos Matrix, justamente ao lado de Mendonça de Barros. O desempenho da instituição foi nada menos do que excepcional em matéria de lucros. Voltou ao governo, teceu as bases do Plano Real, outra vez na companhia de Persio Arida, e retornou ao banco, de onde finalmente se desligou para, uma vez mais, voltar ao governo, onde está. Pelo menos, por enquanto.
| "A gravação de minhas
conversas no BNDES e a divulgação das fitas
foram para mim como um estupro." André Lara Resende presidente do BNDES |
Enredo confuso Arida também ficou entre cá e acolá nos últimos anos, até aterrissar no banco de investimentos Opportunity, do qual é sócio. De dupla imbatível, ele e Lara Resende viraram um duo que sofria o escrutínio da imprensa, dos políticos e da opinião pública, na semana passada. Para favorecer a vitória do Opportunity na compra da Tele Norte Leste, em detrimento do consórcio Telemar, negócio que não se concretizou, Lara Resende foi diretíssimo ao ponto em suas conversas telefônicas com Arida. "Se precisar vou ter de detonar a bomba atômica", diz ele ao amigo, referindo-se ao presidente Fernando Henrique Cardoso. "Vai lá e negocia, joga o preço para baixo. Depois, se precisar, a gente sobe e ultrapassa o limite", instrui Lara Resende em trecho que apareceu na imprensa na semana passada.
Essa novela das fitas grampeadas, por mais desagradável que seja, serviu para dar mais relevo ao maior dos vícios da privatização no país o poder do Estado brasileiro sobre os grupos interessados na compra de suas empresas. Para aumentar a competição, o governo é capaz de criar do nada um consórcio e financiá-lo através de seus bancos oficiais ou dos bilionários fundos de pensão ligados às estatais. Nessas tentativas, não raro produz monstros difíceis de controlar. Foi o caso do consórcio Telemar, que arrebatou a Tele Norte Leste, novo dono da Telerj e de outras quinze telefônicas estaduais. Como o governo não confiava na capacidade de gestão desse consórcio, o Telemar só entraria no leilão para fazer número. Ganhar, nunca, já que a preferência era pelo Opportunity. "Você tem de reagir, senão o mal vence e o bem perde", afirmou Mendonça de Barros, numa tentativa de explicar o confuso enredo que armou em dupla com Lara Resende.
No leilão da Tele Norte Leste, a mão estatal foi tão pesada que a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, dona de um patrimônio de 22 bilhões de reais, chegou a participar dos dois consórcios que disputavam a mesma empresa. No total, a Previ esteve envolvida na privatização de cinco empresas telefônicas e nos leilões de cinco outras estatais. O próprio BNDES tem participação expressiva nas empresas de telecomunicações que passaram para a esfera privada. Da Tele Norte Leste, por exemplo, o banco estatal detém 25%, que agora tenta vender para o grupo italiano Telecom "os italianos que temos de fazer na marra", para usar uma expressão de Mendonça de Barros, numa das conversas grampeadas.
As distorções do processo e os escorregões das figuras nele envolvidas vêm municiando os adversários da privatização nas últimas semanas. Eles utilizam esses problemas para argumentar que a venda de empresas do governo e a retirada do Estado de certas áreas produtivas é uma escolha errada. É justamente o contrário. O maior desses problemas acontece porque ainda falta muita privatização no Brasil. Se não houvesse bancos estatais com fundos de pensão manipuláveis, não existiriam manobras como as que já eram corriqueiras muito antes de o ministro Mendonça de Barros resolver interferir nos consórcios para incentivar a concorrência e obter lances maiores, conforme a explicação que ele dá para suas conversas. Sem tanto Estado na economia, estaríamos todos falando melhor ao telefone. Com menos risco de grampos.
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