A privatização estatal

"As mesmas tetas, tão fecundas no Proer,
derramaram muito leite nas privatizações"

Flávio Pinheiro

Roberto Nejme

Banalizar a batata Pringle's foi o mínimo. A globalização entendida como inapelável corolário da economia de mercado deixaria claro, de uma vez por todas, que capitalismo é um negócio para capitalistas. Não é coisa para o Estado, que desde tempos imemoriais tem sido sócio tão onipresente e obsequioso dos grandes negócios selados no Brasil. A promessa insinuada na nova postura liberal era grandiosa: fechar o guichê que socorreu de usineiros de açúcar cronicamente inadimplentes a capitães da indústria de máquinas pesadas, vanguarda do que ideologicamente se definia como "burguesia nacional". Pelos esgares de náusea do tucanato fica claro que política industrial para eles é palavrão, sinônimo de escolher afilhados no meio empresarial que devem receber créditos baratinhos a perder de vista. Os novos tempos iriam desmamar o empresariado das tetas inesgotáveis da viúva. Ela mesmo, que a serviço da acumulação e do lucro privados escolhia seus fornecedores de petróleo de acordo com a simpatia deles por empreiteiros brasileiros na hora de construir estradas e ferrovias. Com a abertura comercial o Estado perderia também a prerrogativa de proteger seus apaniguados com o carimbo de "similar nacional". A barreira tarifária os defendia da competição, garantia preços altos e lucros formidáveis. Ironicamente, o carimbo sobreviveu entre outras coisas para resguardar computadores feitos aqui pela IBM e pela Compaq, gigantes multinacionais.

Pá de cal na promiscuidade entre Estado e empresariado em negócios venturosos (ou desastrados) seria por fim a privatização, um divisor de águas definitivo. A partir dela ficaria mais claro que Estado existe para cuidar de segurança, hospitais, escolas. Balela. As mesmas tetas, tão fecundas no Proer, derramaram muito leite nas privatizações. O BNDES tem 40% da Light, 12% da Vale do Rio Doce e 25% da telefônica que cobre uma área que vai de Copacabana ao Oiapoque. O governo trata como investidores institucionais supostamente independentes fundos de pensão que durante anos foram alimentados pelos contribuintes e que cumprem à risca ordens de burocratas. No caso da telefonia ficou claro que o Previ, o fundo dos funcionários do Banco do Brasil, recebeu ordens para se associar ao mesmo tempo a consórcios concorrentes. Desde que VEJA publicou na semana passada o produto de grampo telefônico que "estimular a competição" é sinônimo de montar um consórcio, oferecer duas seguradoras públicas e um fundo de pensão como sócios e colocar à disposição o BNDES para entrar com os 400 milhões de reais que faltavam para compor a sociedade. Para ser fiel à trilha sonora da privatização da Telebrás, chega-se às bordas do novo século com a constatação de que a rataiada e os babaquinhas estão onde sempre estiveram.

Lanche Feliz
A prefeitura de Curitiba está fazendo a festa da garotada, depois que incluiu hambúrguer e cachorro-quente na merenda escolar. A medida foi tomada em função de um estudo demonstrando que 5% dos alunos da rede municipal sofriam de desnutrição. Um dos motivos era que as crianças não comiam os purês e as sopas oferecidos nas merendas. Agora as escolas alternam as refeições tradicionais de 40.000 alunos com lanches, iorgurte e sucrilhos com leite, todos com as 350 calorias e os 9 gramas de proteínas recomendados pelos organismos de saúde. O resultado é animador. As crianças estão comendo mais e o índice de desnutridos está caindo. No ano que vem a idéia será ampliada a todo o ensino municipal.




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