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| Weigand |
Arquitetos podem virar bons urbanistas, mas tendem a ser maus sociólogos, por ignorar os hábitos e gostos das vítimas de seus planos. Brasília nos dá um bom exemplo desse cacoete. Seu desenho original embutia uma utopia habitacional em que cada um moraria de acordo com o tamanho da família, qualquer que fosse sua posição na sociedade. Desembargador e porteiro, se tivessem famílias grandes, morariam no mesmo prédio, com apartamentos de muitos quartos. Na Rússia era assim, em seus monótonos conjuntos habitacionais. Mas lá havia a ditadura de Stalin para garantir o sistema. Em Brasília, sem um Stalin de plantão, a sociologia e a economia cuidaram de liquidar o sonho. O urbanismo foi traduzido pela sociedade brasiliense na linguagem de uma estratificação geográfica em que cada um sabe seu lugar: os ricos ficam no plano piloto, até construir suas casas com piscina nos lagos. Os pobres emigraram para as cidades-satélites. Para os miseráveis, sobraram as invasões. Brasília tornou-se uma das cidades de maior segregação espacial. Em uma sociedade democrática, hierárquica e capitalista, prancheta de arquiteto não faz comunismo habitacional. A Brasília real é brasileira.
Passado o encanto com o projeto elegante, os arquitetos do mundo inteiro proclamam em uníssono os absurdos da capital brasileira: cidade para automobilistas, insensível à crise do petróleo. Um erro que não deve ser repetido. Cariocas e paulistas clamam pelas esquinas inexistentes. Os forasteiros, ilhados em hotéis estéreis e abandonados nos fins de semana, juntam-se ao coro da nova ortodoxia dos arquitetos ausentes. A condenação é unânime, endossando a sentença fatal da guruzada internacional. Mas alguém se lembrou de perguntar aos habitantes de Brasília se é bom morar lá? Afinal de contas, cidade é para morar, e quem sabe do assunto é quem nela mora.
Quando trabalhei na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Capes, saí perguntando a uma centena de funcionários se eles gostariam de voltar para suas cidades de origem (sem perda de salário). Não consegui uma só resposta afirmativa, do porteiro aos diretores. Só não gostavam de Brasília os funcionários que viviam na ponte aérea, não sendo, portanto, moradores. Os ricos vivem magnificamente bem. Os pobres vivem melhor nas cidades-satélites do que em suas cidades de origem.
Sofisticando mais o teste, descobri uma equação simples: quem tem mais a fazer do que tempo disponível gosta de Brasília (em geral, quem tem vida profissional interessante e donas de casa com filharada). Quem tem mais tempo do que serviço para executar detesta Brasília (em geral dondocas). Brasília é uma cidade eficiente, sem engarrafamentos e filas, sobrando tempo para cultivar os amigos. O clima é esplêndido, o céu desavergonhadamente azul e lá os menos ricos têm uma educação pública de boa qualidade (os subsídios federais ajudam). Dado o acesso rápido a seus sítios, milhares de funcionários públicos são fazendeiros amadores. (Serão melhores na lavoura do que operando o país?) A vida noturna prospera, mesmo sem esquinas, sendo Brasília uma grande sementeira de conjuntos de rock. Em suma, é de enorme arrogância decretar que uma cidade é urbanisticamente desastrada sem perguntar a seus moradores se eles concordam.
Se isso tudo é verdade, parece possível concluir que os urbanistas construíram uma cidade bela e agradável. Mas erraram duas vezes: não se muda a sociedade com projetos urbanísticos nem se julga a qualidade de vida em uma cidade sem pedir a opinião das pessoas que nela vivem.
Claudio de Moura Castro é economista (ClaudioMC@earthlink.net)
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