Alma
de ouro
A qualidade da soul music brasileira, em
uma coletânea das canções de Cassiano
Sérgio
Martins
No
começo dos anos 70, uma trupe de cantores negros brasileiros
que adoravam a música dos cantores negros americanos chacoalhou
o show biz nacional. Eles ostentavam enormes cabeleiras black power
e recheavam suas letras de palavras como "beibé" ou "bróder",
que roubavam do inglês e aportuguesavam. Por outro lado, nunca
deixaram de incluir em suas composições elementos
como uma boa cuíca ou uma levada de baião. Desse cruzamento,
nasceu uma soul music brasileira, de inegável qualidade.
Em pouco tempo, porém, o gênero se viu espremido entre
a MPB conservadora e a novidade do tropicalismo. Alguns o hostilizaram.
Outros o vampirizaram, sem que seus artistas recebessem o devido
crédito. Quase trinta anos depois, está chegando às
lojas o principal testemunho do brilho da soul music nacional. O
disco se chama Coleção e reúne catorze
criações do cantor e compositor Cassiano, maior expoente
dessa tendência musical, ao lado de Tim Maia e da Banda Black
Rio.
J. L. Bulcão
 |
André Lobo
 |
|
Tim Maia e Ivete Sangalo: ele usava o amigo.
Ela vai gravar uma música do compositor |
Três
discos, que estão fora de catálogo há vinte
anos, serviram de matéria-prima para o CD, compilado
pelo cantor Ed Motta. Desprezados pelas gravadoras que os lançaram
anteriormente, eles são disputados a tapa em sebos. Cassiano
pertence à classe dos "penitentes do espírito"
expressão cunhada pelo crítico americano Bill Flanagan
para definir os artistas que criam pérolas de suas experiências
pessoais, sem nenhuma mediação. A canção
A Lua e Eu, por exemplo, foi composta em 1973 depois de uma
tremenda "fossa" causada pelo fim de um casamento. Outros clássicos
do músico são Primavera e Eu Amo Você,
dois dos maiores sucessos da carreira do cantor Tim Maia. Eles se
conheceram nos anos 60, quando tentavam arranjar emprego numa agência
especializada em exportar shows de mulatas. Até a morte de
Tim, em 1998, a amizade teve altos e baixos. Tim respeitava Cassiano
a ponto de se recusar a cantar na frente dele tinha medo
de falhar e ser corrigido. Por outro lado, passou a perna no amigo
em algumas ocasiões. Vários de seus discos têm
a participação de Cassiano, que não ganhava
nada por isso. "O Tim dizia que eu não me vendia por dinheiro
e aproveitava para não me pagar", lembra o músico.
Cassiano atingiu seu auge em meados dos anos 70, quando A Lua
e Eu foi incluída na trilha sonora da novela O Grito,
da Rede Globo. Na época, o programa Fantástico,
da mesma emissora, dedicou-lhe um clipe, em que ele aparece como
uma espécie de Marvin Gaye tropical, desfilando de terno
branco na orla carioca. No fim da década, começou
a decadência. Logo depois de ser dispensado de sua última
gravadora, a PolyGram, em 1979, o compositor contraiu tuberculose
e perdeu parte do pulmão. Hoje, mora num modesto apartamento
no bairro carioca do Flamengo e vive dos direitos autorais de suas
canções. Para sua sorte, nunca se gravou tanto Cassiano.
O grupo de pagode Pixote recriou o hit A Lua e Eu e a cantora
Ivete Sangalo vai incluir a música Postal em seu próximo
CD. Ele sonha com uma volta aos discos, mesmo sabendo que é
difícil competir com a banalidade do pagode e da axé
music. "A soul music é muito sofisticada para os dias de
hoje", diz.
|