Artes e Espetáculos Cinema

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Janela Indiscreta em cópia restaurada
O novo filme de Clint Eastwood
A igreja ataca a novela Laços de Família
Cassiano e a soul music nacional
O dicionário das mulheres brasileiras

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Senhor sacudido

Em Cowboys do Espaço, Clint
Eastwood deixa claro que nem pensa
em pendurar a chuteira

Isabela Boscov

Numa era obcecada pela juventude, é preciso um oceano de autoconfiança para zombar do próprio declínio. Segurança, no entanto, é o que nunca faltou a Clint Eastwood, de 70 anos. O mais duradouro astro americano dirige e estrela, com a habitual destreza, a comédia Cowboys do Espaço (Space Cowboys, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. Somadas, as idades dos protagonistas chegam a 262 anos. Eastwood, Tommy Lee Jones, James Garner e Donald Sutherland são ex-pilotos de caça que, na década de 50, perderam para um chimpanzé a chance de ir ao espaço. Quarenta anos depois, ainda não engoliram a humilhação. Por isso não hesitam quando a possibilidade de retomar o sonho se apresenta. Há precedentes para a idéia de uma missão geriátrica: em 1998, o senador John Glenn, ex-astronauta, embarcou num ônibus espacial aos 77 anos. No filme, a oportunidade surge quando um satélite russo defeituoso leva a Nasa a pedir a ajuda dos anciãos – a tecnologia do artefato é tão obsoleta quanto eles. O argumento não faz lá muito sentido, mas Eastwood está mais preocupado com outra questão: por que um cidadão de terceira idade é obrigado a apenas descer ladeiras? Ele e seus amigos ainda têm algumas a subir, e o filme é quase que um libelo contra o derrotismo.

Machão destilado – Esse assunto não é novo para o diretor. Há mais de uma década ele vem encarnando personagens que sentem o peso da idade, mas não se dão por vencidos. Em Os Imperdoáveis, ele interpreta um velho matador que aceita uma última encomenda, e acaba por transformá-la num formidável ajuste de contas. Em Poder Absoluto, vive um veterano ladrão de jóias que, no meio de um roubo, testemunha um crime e se vê no impasse de decidir entre a aposentadoria e a justiça. Em Crime Verdadeiro, faz um repórter decadente que sente o sangue correr de novo ao vislumbrar a chance de reparar um erro. Enquanto revisa os prós e contras da idade, Eastwood reforça temas cardeais do seu ideário. Como a necessidade de ser ético e de honrar a amizade. Em Cowboys do Espaço, ele prefere esnobar a Nasa a deixar em terra os companheiros. Não raro, dá um jeito também de homenagear as mulheres, como em As Pontes de Madison. É um caso único no cinema: um astro que destilou a figura do machão até reter apenas o que ela contém de positivo.

Cowboys do Espaço, por certo, não é o melhor entre os filmes recentes de Eastwood. O roteiro tropeça aqui e ali e nem todos os atores são bem aproveitados. Tommy Lee Jones deita e rola no papel do mais cabeça-dura dos quatro ases, mas Sutherland tem pouco a fazer na pele do velhote mulherengo – e Garner, o pacificador da turma, menos ainda. Mesmo assim, sobram motivos para a platéia se divertir. Como a cena que já ficou famosa, em que os protagonistas tiram a roupa para um exame médico e revelam até as rugas mais recônditas. O confronto deles com os astronautas novatos não é exatamente original, mas funciona, e a troca de farpas entre o quarteto deixa que se vislumbre a amizade da vida real. Fiel ao seu credo naturalista, de evitar ensaios em excesso, Eastwood mistura humor, drama e até ficção científica de maneira harmoniosa. E, quando se acredita que Hollywood já filmou aviões de todos os jeitos possíveis, ele se sai com uma seqüência inicial inovadora. Eastwood pode estar no terço final de sua carreira, mas filma como se ela estivesse apenas começando.

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco