Senhor sacudido
Em
Cowboys do Espaço, Clint
Eastwood deixa claro que nem pensa
em pendurar a chuteira
Isabela
Boscov
Numa
era obcecada pela juventude, é preciso um oceano de autoconfiança
para zombar do próprio declínio. Segurança,
no entanto, é o que nunca faltou a Clint Eastwood, de 70
anos. O mais duradouro astro americano dirige e estrela, com a habitual
destreza, a comédia Cowboys do Espaço (Space
Cowboys, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira
em circuito nacional. Somadas, as idades dos protagonistas chegam
a 262 anos. Eastwood, Tommy Lee Jones, James Garner e Donald Sutherland
são ex-pilotos de caça que, na década de 50,
perderam para um chimpanzé a chance de ir ao espaço.
Quarenta anos depois, ainda não engoliram a humilhação.
Por isso não hesitam quando a possibilidade de retomar o
sonho se apresenta. Há precedentes para a idéia de
uma missão geriátrica: em 1998, o senador John Glenn,
ex-astronauta, embarcou num ônibus espacial aos 77 anos. No
filme, a oportunidade surge quando um satélite russo defeituoso
leva a Nasa a pedir a ajuda dos anciãos a tecnologia
do artefato é tão obsoleta quanto eles. O argumento
não faz lá muito sentido, mas Eastwood está
mais preocupado com outra questão: por que um cidadão
de terceira idade é obrigado a apenas descer ladeiras? Ele
e seus amigos ainda têm algumas a subir, e o filme é
quase que um libelo contra o derrotismo.
Machão
destilado Esse assunto não é novo para
o diretor. Há mais de uma década ele vem encarnando
personagens que sentem o peso da idade, mas não se dão
por vencidos. Em Os Imperdoáveis, ele interpreta um
velho matador que aceita uma última encomenda, e acaba por
transformá-la num formidável ajuste de contas. Em
Poder Absoluto, vive um veterano ladrão de jóias
que, no meio de um roubo, testemunha um crime e se vê no impasse
de decidir entre a aposentadoria e a justiça. Em Crime
Verdadeiro, faz um repórter decadente que sente o sangue
correr de novo ao vislumbrar a chance de reparar um erro. Enquanto
revisa os prós e contras da idade, Eastwood reforça
temas cardeais do seu ideário. Como a necessidade de ser
ético e de honrar a amizade. Em Cowboys do Espaço,
ele prefere esnobar a Nasa a deixar em terra os companheiros. Não
raro, dá um jeito também de homenagear as mulheres,
como em As Pontes de Madison. É um caso único
no cinema: um astro que destilou a figura do machão até
reter apenas o que ela contém de positivo.
Cowboys
do Espaço, por certo, não é o melhor entre
os filmes recentes de Eastwood. O roteiro tropeça aqui e
ali e nem todos os atores são bem aproveitados. Tommy Lee
Jones deita e rola no papel do mais cabeça-dura dos quatro
ases, mas Sutherland tem pouco a fazer na pele do velhote mulherengo
e Garner, o pacificador da turma, menos ainda. Mesmo assim,
sobram motivos para a platéia se divertir. Como a cena que
já ficou famosa, em que os protagonistas tiram a roupa para
um exame médico e revelam até as rugas mais recônditas.
O confronto deles com os astronautas novatos não é
exatamente original, mas funciona, e a troca de farpas entre o quarteto
deixa que se vislumbre a amizade da vida real. Fiel ao seu credo
naturalista, de evitar ensaios em excesso, Eastwood mistura humor,
drama e até ficção científica de maneira
harmoniosa. E, quando se acredita que Hollywood já filmou
aviões de todos os jeitos possíveis, ele se sai com
uma seqüência inicial inovadora. Eastwood pode estar
no terço final de sua carreira, mas filma como se ela estivesse
apenas começando.
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