Testamento
em technicolor
Janela
Indiscreta, o melhor filme de
Alfred Hitchcock, é relançado em cópia
restaurada. Obrigue-se a vê-lo
Isabela Boscov
Com
uma perna engessada até o quadril, o fotógrafo jornalístico
"Jeff" Jefferies está temporariamente aposentado de sua vida
de aventuras mundo afora, aquela que o leva para o centro de guerras
civis e a lugares tão primitivos que, em suas palavras, um
sujeito tem de se dar por sortudo se conseguir uma refeição
de cabeças de peixe com arroz. É na sala de seu pequeno
apartamento nova-iorquino, contudo, que Jeff irá enfrentar
seus piores desafios: a compulsão em espiar a vida alheia
afinal, ele é um repórter e a intimidade
com uma mulher tão irresistível que casamento é
a única coisa que se pode propor a ela. Jeff é o protagonista
do melhor filme de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta (Rear
Window, Estados Unidos, 1954). Restaurado em toda a beleza de
seu technicolor original, ele será relançado nesta
sexta-feira em São Paulo e, a seguir, em outras cidades do
país.
Assim
como ler Anna Karenina de Tolstoi ou ouvir a Quinta Sinfonia
de Beethoven, ver ou rever Janela Indiscreta (e na tela grande,
já que o vídeo amarrota os enquadramentos magistrais
do diretor) é indispensável. Primeiro, porque ali
está o testamento de um gênio. E depois, porque Hitchcock
foi tão feliz e arguto na sua concepção do
filme que nada nele, da trama às interpretações,
envelheceu. Ou seja, o prazer que é capaz de proporcionar
continua intacto nestes 46 anos que o separam de sua estréia.
Janela Indiscreta, finalmente, oferece ao espectador uma
oportunidade única. É como se a sua poltrona fosse
na verdade a cadeira de Hitchcock. Assistir à fita equivale
a ver a vida, e o cinema, pelos olhos do protagonista e, por extensão,
do cineasta. Preso a uma cadeira de rodas por conta de sua perna
quebrada, Jeff não pode fazer nada além de olhar e
"dirigir" a namorada e a enfermeira, encarregando-as de desvendar
os acontecimentos intrigantes do apartamento à sua frente,
no qual um marido insatisfeito parece ter dado cabo de sua esposa
inválida. Ou será só a imaginação
do fotógrafo, angustiado com a idéia de cair ele próprio
numa armadilha conjugal?
Se
Hitchcock se tornou o mestre do suspense (o lugar-comum é
incontornável), é porque sabia que não há
nada mais imprevisível do que a vida dos simples mortais.
Em Janela Indiscreta, ele eleva essa convicção
à máxima potência. Há mais excitação
e intriga em cada uma das janelas que Jeff observa do que em todos
os locais exóticos que ele percorreu em sua carreira. O que
vai acontecer, por exemplo, com a solteirona que finge ter convidados
para o jantar e bebe por dois? Quem vai se matar primeiro, ela ou
o pianista que não consegue compor? Num outro apartamento,
um casal em lua-de-mel não sai do quarto, mas passa da paixão
diretamente para a recriminação: "Se eu soubesse que
você ia largar o emprego, não teria me casado", acusa
a mulher. À frente, uma bailarina se deixa cortejar por vários
homens um sinal de encrenca? E, claro, há o caixeiro-viajante
que cuida da mulher doente e se exaspera com suas queixas intermináveis.
"Não
serás apanhado" O cinema americano de hoje tem
alguma dificuldade em enxergar as tonalidades de cinza que existem
entre o preto e o branco mas não Hitchcock, que de
maniqueísta não tinha nada. Nenhum de seus heróis
é inteiramente bom, e a maioria de seus vilões tem
características que ganham a simpatia da platéia.
Em Janela Indiscreta, James Stewart, que sempre foi o sujeito
honesto das telas, se mostra um ator corajoso. Enverga com brilhantismo
o papel do homem que se excita e se envergonha com as coisas erradas
que faz. Por isso é fácil torcer por ele. "Em todos
nós, há um 11º mandamento que diz: não
serás apanhado", argumentava o diretor. A extraordinária
Thelma Ritter sabe temperar cada uma das falas da enfermeira com
a dose certa de vinagre. Raymond Burr é visto apenas a distância,
mas transmite todo o cansaço e o desespero de um marido preso
a uma mulher fraca e dependente. E, no papel da mulher perfeita,
o diretor escalou a própria: Grace Kelly. Resplandecente
como a socialite Lisa Fremont, que desfila modelos do "new look"
dos anos 50 como se Christian Dior tivesse mudado a moda em sua
homenagem, Grace adiciona estilo a uma personagem graciosa e discretamente
ousada. É Lisa, por exemplo, quem faz a corte a Jeff e sugere
que o relacionamento tome um caráter mais sexual. É
dela a idéia de seduzi-lo entrando às escondidas na
toca do lobo o apartamento da frente. E é para protegê-la
que o fotógrafo coloca a vida em risco. Hitchcock achava
as mulheres bonitas sumamente perigosas. "Uma concessão ao
mal", dizia.
Com
Janela Indiscreta e com todos os seus outros grandes trabalhos
(há pelo menos quinze), Hitchcock fez muito mais do que apenas
uma série de filmes magníficos. À exceção
talvez de Steven Spielberg, ninguém foi capaz de modificar
tanto o gosto do público quanto ele. Mais do que um diretor
de filmes, Hitchcock era um diretor de espectadores. Ainda hoje,
se a platéia de um suspense sabe que deve desconfiar de tudo
o que os personagens dizem e fazem, é porque ele repassou
essa lição incontáveis vezes. Uma de suas características
era ser um crítico implacável de si mesmo, do tipo
que acha defeitos em tudo o que faz. Quando lhe indagaram sobre
Janela Indiscreta, contudo, não conseguiu enxergar
ali uma falha. "Para mim, colocar o público na mente do personagem
é cinema em sua forma mais pura. E acho que Janela Indiscreta
é o melhor exemplo disso", declarou. Impossível não
concordar.
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Fria
só por fora
Para
Hitch, nenhuma loira superava Grace Kelly
"Fria
como o gelo por fora mas por dentro, rapaz!" Hitchcock
usou essas palavras para descrever a personagem de Grace Kelly
em Ladrão de Casaca. Elas, no entanto, se ajustam
também à personalidade da atriz. O diretor,
que se casou com uma morena, adorava as loiras desde
que elas exibissem temperaturas polares na superfície.
Isso explica sua predileção por Grace, a socialite
da Filadélfia que se casaria com o príncipe
Rainier, em 1956. O diretor, aliás, não se perdoava
por ter ajudado a pôr um ponto final na carreira da
atriz. Foi durante as filmagens de Ladrão de Casaca,
nas proximidades de Mônaco, que ela conheceu o príncipe
e iniciou um romance com ele. Não era sua primeira
aventura do gênero. Embora Grace fosse discreta, toda
Hollywood sabia de seus casos com astros como Clark Gable,
Ray Milland e William Holden, ou ainda com figuras do jet
set, como o estilista Oleg Cassini. A atriz aprontava muito
e tinha uma queda por homens mais velhos. Gable usava dentadura,
Milland não dispensava a peruca e Cassini tinha uma
fileira de divórcios no currículo. Rainier também
não era conhecido pelo espírito jovem. Ao que
tudo indica, sua intolerância teria acelerado a decadência
da bela, que entrou na meia-idade em luta com a balança
e o álcool. Ao morrer num acidente, em 1982, com 52
anos, ela pouco lembrava a estrela de outrora. Para isso também
servem reestréias como a de Janela Indiscreta.
Na tela, Grace nunca será menos do que perfeita.
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