A corrida pelo
primeiro lugar
Com
o leilão do Banestado, abre-se a
temporada de caça ao Banespa, cuja aquisição
pode definir o pódio do sistema financeiro
Cristiana
Baptista
Na
semana passada encerrou-se uma etapa decisiva na corrida pela liderança
do sistema financeiro nacional. O campeonato já dura três
anos. Nesse torneio já se viu de tudo. Houve episódios
de bate-boca entre banqueiros brasileiros e estrangeiros, acusações
de favorecimento e verdadeiros leilões privados para a compra
de bancas saudáveis. Houve quem ficasse com bancos alquebrados
só para aumentar sua fachada de poder no Brasil. As instituições
financeiras nacionais chegaram a temer uma invasão internacional
e alguns estrangeiros amargaram a frustração de perceber
que o Brasil não é, afinal, um lugar onde se ganha
dinheiro tão facilmente como se supunha. Num leilão
disputadíssimo, o Itaú passou a ser dono do Banestado,
banco do Estado do Paraná, privatizado. Pagou 1,6 bilhão
de reais 300% acima do preço mínimo estabelecido
pelo governo. Com isso, ficou mais próximo do Bradesco, o
maior banco privado nacional, e ainda impediu que o Unibanco pusesse
em risco sua segunda colocação no páreo.
Nos
últimos cinco anos, o Itaú, comandado pela família
Setúbal, comprou, em média, um concorrente por ano.
Considerando o trabalho que dá para digerir cada um desses
corpos estranhos, é notável que tenha conseguido ser
o mais lucrativo, entre todas as empresas de capital aberto do país,
no ano passado. Seu lucro foi de 1,87 bilhão de reais
700 milhões a mais que o do Bradesco. É um desempenho
especialmente impressionante se se considerar que o Bradesco é
uma empresa gerida por profissionais, enquanto os comandantes do
Itaú, embora eficientíssimos, como mostram os resultados,
são de uma mesma família.
Não
é fácil encontrar, em qualquer parte do mundo e em
qualquer setor da economia, uma família com tino empreendedor
por gerações seguidas. Mais raros ainda são
os bancos que se perpetuam, com sucesso, sob um mesmo sobrenome.
Até os lendários Rothschild, hoje na sexta geração,
enfrentam problemas de sucessão em sua banca. Os Setúbal
ainda estão na terceira geração de banqueiros,
mas demonstram talento espantoso. O Itaú nasceu em 1945,
criado por Alfredo Egydio de Souza Aranha. Em 1959, Olavo Setúbal,
sobrinho de Souza Aranha, assumiu o comando do banco. Demonstrou
ter jeito para a coisa. Enquanto muitas instituições
fecharam, quebraram ou foram vendidas, o Itaú tornou-se,
rapidamente, um dos maiores bancos do Brasil, disputando cabeça
a cabeça com o Bradesco de Amador Aguiar. Há cinco
anos, o quarto dos sete filhos de Olavo, Roberto Setúbal,
dirige o Itaú. Nesse período, o banco expandiu-se
dentro e fora do país.
Aos
46 anos, Roberto trabalha doze horas por dia. É ouvido com
atenção por interlocutores com interesse em saber
a temperatura da economia brasileira e seus rumos. Atualmente, ele
vê apenas uma nuvem negra no horizonte. É o preço
alto do petróleo (veja reportagem).
Mas suas razões são diferentes das que assustam o
senso comum. Setúbal disse a um amigo que, em sua opinião,
a economia brasileira absorve sem pressão inflacionária
um eventual aumento no preço dos combustíveis. Seu
temor maior é o impacto de uma crise do petróleo sobre
a economia americana, o que poderia atrapalhar o atual processo
de aterrissagem suave, transformando-o num choque recessivo. Para
aqueles que acham que a profissão de banqueiro é para
quem ama o risco, Roberto Setúbal é a antítese
do modelo. Os adversários dizem que o Itaú é
severo além da conta. "A regra de ouro deles não é
emprestar a quem precisa, mas a quem pode pagar", diz um concorrente.
O Itaú carrega a fama de ter a equipe mais rigorosa na avaliação
dos investimentos que o banco faz. "Tomo decisões sabendo
que tenho de dar satisfação aos 100.000
acionistas do Itaú", diz Roberto Setúbal.
No
caso da compra do Banestado, atribui-se ao olho aguçado da
equipe de consultores do Itaú terem enxergado montanhas onde
os outros viram abismos. Ou seja, com base na mesma fornada de dados
fornecida a todos os potenciais compradores do Banestado, o Itaú
vislumbrou maiores possibilidades. "Se há uma coisa que o
Itaú não economiza é com consultores. Eles
contratam os seniores. Os outros ficam com os juniores", diz um
bem-sucedido banqueiro de investimento paulista.
Bradesco
e Unibanco fizeram avaliação diferente e deixaram
o banco estatal do Paraná escorregar para as mãos
do Itaú. "Nossa decisão foi absolutamente racional.
Acabamos de comprar o Bandeirantes e agora foi a vez do Itaú.
Uma hora se ganha e outra se perde. Vamos pensar na próxima",
diz Joaquim Francisco de Castro Neto, presidente do Unibanco.
A
definição do líder entre os bancos, agora,
depende apenas de mais um leilão marcado para o próximo
dia 20 de novembro: o do Banespa, o bancão do Estado de São
Paulo que está sob intervenção federal desde
1994. A venda do Banespa é o grande prêmio que define
a disputa sobre quem será o maior banco brasileiro nos próximos
anos. Espera-se que, dos nove habilitados a participar do leilão,
pelo menos cinco cheguem à bolsa carioca com chance de vencer.
O Banespa está avaliado em 1,8 bilhão de reais. Os
especialistas calculam que, no calor da briga entre os bancos, ele
possa ser vendido por mais de 4 bilhões de reais. "O Banespa
definirá o jogo de forças no mercado financeiro nacional.
Seu comprador experimentará um crescimento muito rápido.
Bancos menores não terão escala para trabalhar de
forma lucrativa e eficiente em todo o território brasileiro
e encontrarão dificuldade para competir", diz Erivelto Rodrigues,
presidente da Austin Asis, consultoria especializada em análise
de bancos.
Quanto
se pagará pelo Banespa é uma incógnita. Os
bancos são avaliados de acordo com dados objetivos. Eles
levam em consideração o número de clientes
e o volume de depósitos, os títulos que o banco tem,
a qualidade dos créditos a receber, suas instalações
e equipamentos. Além disso, enumeram dívidas fiscais,
trabalhistas e previdenciárias. O somatório resulta
num valor bastante próximo do real mas que sempre
será contestado (veja a coluna
de Gustavo Franco). Quem está interessado na compra
acrescenta a esses cálculos outros fatores de ordem mais
subjetiva ou particular. Assim, se o banco que está à
venda possui muitas agências em áreas em que o comprador
não opera, ele é mais valioso, já que acrescenta
poder ao comprador. Se as agências são redundantes,
o valor cai. Para o Itaú, com apenas quarenta agências
no Paraná (Estado com o quinto maior PIB do país),
as 346 agências do Banestado têm muito mais valor que
para o Bradesco, cuja presença no Estado já era forte.

Roberto Setúbal: análise de
risco meticulosa |
Os
bancos andam se atracando, no Brasil, porque ser grande virou uma
questão de sobrevivência. Num país enorme, de
economia aberta e grande competição, só consegue
obter dinheiro no exterior e atrair clientela de qualidade quem
investe bastante em novos produtos. E os investimentos são
caros. A implantação, a manutenção e
a atualização de um sistema completo que dê
aos clientes acesso à conta via internet, com segurança
máxima nas transações, par cerca de
100 milhões de dólares. Com 10 milhões de clientes,
um banco como o Bradesco dilui facilmente o que gasta com as mais
avançadas soluções tecnológicas. O mesmo
vale para o Itaú, com seus 7,5 milhões de clientes,
ou para o Unibanco, que tem 3,5 milhões.
Como
fator para aumentar a escala da operação e, portanto,
diminuir custos, o Banespa é decisivo para esses três
grandes nacionais. O banco estatal paulista tem atualmente 3 milhões
de clientes, mais de 700 000 deles funcionários públicos
que recebem salário todo mês na conta e são
uma espécie de clientela cativa. O banco é muito forte
no interior de São Paulo, o Estado mais rico do país.
Depois de saneado pelo governo federal, ficou com as contas quase
em ordem. Quem comprar o Banespa dará um salto à frente
dos demais. Nesse contexto se entende o olhar e o comentário
enigmáticos que Roberto Setúbal costuma dirigir ao
prédio do Banespa, avistável dos andares mais altos
da sede do Itaú, no centro velho de São Paulo. "É,
o Banespa está perto, bem perto."
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