Montblanc,
Porsche e
demagogia
A
briga das grifes, a elegância de Marta
e a discussão que realmente importa

Monica
Weinberg, de Brasília
Ormuzd Alves/Folha
Imagem

A
elegância de Marta Suplicy encantou FHC: guarda-roupa
com tailleurs de todas as cores do arco-íris
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O
Brasil, país que gosta tanto de debater a miséria,
discutiu o luxo na semana passada. A polêmica se deu em torno
de um carro, de uma caneta e da saúde das finanças
públicas. Antigo amante dos Porsche alemães, o ministro
Alcides Tápias, do Desenvolvimento, trocou seu modelo antigo
por um 911 Evolution zero-quilômetro, um esportivo estimado
em 200.000 dólares, quase meio
milhão de reais, que é capaz de fazer 305 quilômetros
por hora. Teve de explicar aos jornais por que gosta de máquinas
tão fortes para se locomover numa nação de
economia tão fraca. Esse foi o caso do automóvel.
A história da caneta aconteceu com o ministro Pedro Malan,
da Fazenda, que em pleno Congresso foi apontado por um deputado
petista, que se expressava aos gritos, como suspeito de possuir
nada menos que uma caneta Montblanc, suíça, peça
de uns 100 dólares. Os dois ministros traíram algum
constrangimento nesses episódios. Tápias se recolheu
ao silêncio quando poderia ter respondido que comprou o carro
com salários ganhos na iniciativa privada e que se orgulha
de sua carreira bem-sucedida e bem remunerada antes de aceitar o
magro provento de servidor público na Esplanada dos Ministérios.
Malan ficou irritado com a acusação petista.
Fotos Ricardo Benichio/
Germano Luders

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Ricardo
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| O
ministro Alcides Tápias: Porsche de 200 000 dólares
e clube para correr com o carrão em autódromos
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Diante
dos dois casos, é ilustrativo observar com que elegância
e desembaraço a candidata do PT à prefeitura de São
Paulo, Marta Suplicy, carrega vestidos caros e perfeitos, além
de jóias que reduzem instantaneamente uma Montblanc a sua
insignificância como símbolo de status econômico.
No debate que travou com Paulo Maluf depois do primeiro turno, Marta
foi logo avisando que eram vizinhos num bairro que possivelmente
reúne o maior PIB per capita de todo o país, o Jardim
América, em São Paulo. É estimulante vê-la
em visita à periferia da cidade com roupas coloridas e impecáveis,
sapatos novos amassando o barro, sem cair no estilo jeans e camiseta
que caracteriza a maioria dos militantes de seu partido.
Marcelo Zocchio

Pedro
Malan diz que não usa caneta de grife e nunca teve uma
Montblanc: "Minha caneta é vagabunda" |
A sessão Montblanc do Congresso foi inesquecível.
Falava-se do salário mínimo. Na comissão de
Orçamento, o ministro Pedro Malan tentava explicar a uma
irada oposição que a Fazenda gostaria de elevar o
mínimo até as nuvens, mas não tinha condições
financeiras de suportar as conseqüências da operação.
Em razão dessa limitação dos cofres públicos,
disse o ministro, o mínimo seria reajustado no índice
da inflação, 5,57%, de acordo com a previsão
orçamentária para 2001. À sua frente, o líder
do Partido dos Trabalhadores na Câmara, deputado Aloizio Mercadante,
uma espécie de anti-Marta no PT, levantou o dedo e a voz,
com a indignação pequeno-burguesa que alguns integrantes
da legenda gostam de exibir quando enfrentam um adversário
do governo. "O aumento de 28 centavos por dia previsto no Orçamento
não dá nem para pagar a tinta dessa caneta Montblanc
que o senhor está usando", atacou o petista, denunciando
a caneta suíça. "Minha caneta não é
Montblanc", explicou Malan pacientemente. "É uma caneta vagabunda."
Em seguida, girando entre os dedos a pobre esferográfica
sem pedigree, Pedro Malan garantiu que o governo aceita qualquer
aumento do mínimo, qualquer mesmo, desde que os senhores
parlamentares apontem de onde cortar no orçamento para compensar
a elevação. Antes que o sol se ponha sobre a transcendental
questão da esferográfica, vale a pena lembrar que
quem é dono de lanc é o petista que fez a
acusação bizarra, sim, ele próprio, Aloizio
Mercadante. A caneta de Malan é uma peça de 3 reais,
dessas que os hotéis colocam ao lado do telefone. Mercadante
ganhou sua Montblanc de presente, mas não a usa. Pelo menos
em público. Ele acha que a peça destoa do figurino
de quem luta por um mundo mais justo.
Alan Marques/Folha Imagem

Mercadante
usa uma caneta Bic. E uma coisa ele não conta para ninguém:
ele é dono de uma Montblanc! |
Seria muito útil para a saúde econômica brasileira
que o PT abandonasse sua fase pueril e estendesse sua ira santa
a questões relevantes. O partido que foi aplaudido nas urnas
em decorrência da correção moral de seus políticos,
muitos dos quais vitoriosos na eleição para prefeito,
fica cego à moral contábil quando se trata de votar
alguma providência que discipline os gastos públicos.
Numa de suas últimas façanhas, o partido recorreu
ao Supremo Tribunal Federal contra a Lei de Responsabilidade Fiscal,
um dos mais decisivos instrumentos legais já postos em prática
no país com o objetivo de punir a malversação
do dinheiro público. A questão central não
são os Porsches ou as canetas Montblanc, símbolos
de ostentação que eventualmente algum membro do governo
se permita possuir. O que interessa à maioria é se
os políticos da oposição e do governo estão
cuidando do dinheiro público corretamente.
Nas
economias mais avançadas, essas questões são
tratadas com mais estilo. Ter milionários no governo federal
é uma tradição, por exemplo, nos Estados Unidos.
E muitos não mudam de hábito apenas porque ocupam
uma posição ao lado do presidente. O presidente Dwight
Eisenhower gostava tanto de auxiliares ricos que seu ministério
era conhecido: um grupo de "oito milionários e um encanador".
O encanador era o ministro do Trabalho, cujo pai era vivo e trabalhava,
na verdade, como mestre-de-obras na construção civil.
Pelo governo atual do democrata Bill Clinton passaram diversos milionários.
O governo de Clinton teve ou tem mais milionários trabalhando
para ele como ministros do que os republicanos George Bush e Ronald
Reagan. Clinton costuma brincar que não gosta de aparecer
em fotos ao lado do seu chefe da Casa Civil, Erskine Bowles, um
executivo que chegou a Washington com uma fortuna de 30 milhões
de dólares. "Perto dos dele, meus ternos parecem uns trapos",
disse Clinton.
O
mais rico dos auxiliares de Clinton foi Robert Rubin, seu secretário
do Tesouro, que renunciou ao cargo no final do ano passado. Rubin,
hoje um dos vice-presidentes do Citicorp, foi convocado por Clinton
quando era sócio da corretora Goldman Sachs. Sua fortuna,
calculada em 100 milhões de dólares, ficou congelada
por um mecanismo chamado "blind trust", em que os milionários
donos de cargos públicos protegem seus recursos e suas reputações
enquanto servem ao governo americano. Por esse mecanismo garante-se
que a fortuna não aumente e também não
diminua durante a temporada em Washington. Rubin odiava burocracia
e, no começo de sua gestão, usava seu próprio
jato executivo em viagens pessoais e de trabalho. Depois o vendeu,
mas passou a pagar do próprio bolso os jatinhos de aluguel
que usava em seus deslocamentos. Quando saiu do governo, a crônica
social da capital americana registrou a observação
de Clinton de que Rubin deixou a economia rica, mas Washington mais
triste. "Não vamos mais beber vinhos tão bons", teria
dito Clinton. Quando lhe contaram o comentário do presidente,
Rubin disse: "Ele gosta mais dessa piada do que eu".
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