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Pesquisa
do Ibope revela que
César Nogueira e Nilson Vargas
A pesquisa do Ibope eRatings foi realizada em duas etapas. Na primeira, os pesquisadores procuraram fazer um raio X da rede quantos são e onde estão os internautas brasileiros, sua idade, sexo, escolaridade e profissão. Durante três meses, dispararam ligações para quase 700.000 números de telefone selecionados aleatoriamente por computador, até conseguir uma amostra confiável de 1.500 residências, espalhadas por todo o Brasil, onde pudessem aplicar seus questionários. "Adotamos o mesmo padrão usado nos catorze países onde já realizamos essa pesquisa", diz Tolis Vossos, diretor-geral do Ibope eRatings.
Preferências nacionais É uma curiosidade de almanaque, mas que serve bem para demonstrar a fome de bola com que os brasileiros encaram a internet e a vibração com que essa onda vai se espalhando. O número de residências penduradas na rede global de computadores dobrou nos últimos doze meses. "O Brasil está entrando num ano decisivo", diz Silvio Genesini, sócio-diretor da Andersen Consulting, que também teve acesso aos dados do Ibope eRatings. "Os efeitos da revolução da internet vão começar a ser sentidos para valer a partir de agora, com uma rápida popularização do acesso." Tudo depende, é lógico, de que a economia brasileira não tropece em nenhuma pedra muito grande e continue crescendo. Na segunda etapa do trabalho, os pesquisadores foram escarafunchar o gosto dos internautas brasileiros e seu comportamento na rede. Isso é feito usando-se técnicas semelhantes às aplicadas pelo Ibope para medir a audiência na televisão. O instituto recrutou cerca de 2.500 usuários domésticos espalhados pelo Brasil e instalou programas especiais em seus computadores para monitorar cada passo deles na rede (para o ano que vem, o instituto vai ampliar a amostra, acompanhando também as pessoas que acessam a rede a partir do trabalho). Os relatórios informam os endereços virtuais que visitam, quantas vezes abrem cada página na rede, a quantidade de anúncios vistos, se clicam ou não os banners, o tempo e os horários que se dedicam a navegar. Parece exagero, mas nessa operação de rastreamento pode estar em jogo a vida ou a morte de pedaços inteiros da internet. Na televisão, um ponto a mais ou a menos na audiência dos programas vale milhões de dólares em verba de propaganda, prestígio, liderança e até empregos. A internet tende a seguir um caminho parecido. O desempenho dos sites com o público é capaz de atrair ou afastar os investidores das ações das empresas da nova economia nas bolsas de valores. Pode também aumentar o faturamento com propaganda e garantir, assim, a permanência dos sites no ar. A pesquisa do Ibope eRatings tem um capítulo especial dedicado a medir a eficiência da publicidade na internet. Os sensores do instituto contam quantas vezes os banners pequenos anúncios coloridos que emolduram e patrocinam as páginas da web são clicados pelas pessoas. O que se percebe, olhando esse desempenho, é que no Brasil, como no resto do mundo, ainda não se encontrou a melhor forma de vender os peixes na rede. A taxa de cliques em geral é muito baixa (veja quadro). Assim como a rivalidade dominical entre os programas de Gugu Liberato no SBT e de Faustão na Globo é alimentada semanalmente pelos índices de audiência, agora na internet também se deve instalar uma briga de foice entre sites e portais. O campo de batalha são os rankings divulgados pelos institutos de pesquisa. O do Ibope, em setembro, traz resultados capazes de balançar a rede. Alguns deles:
Longe da briga entre megaportais, tubarões do mercado financeiro e gigantes da mídia, a internet reserva lugar de honra a endereços como o hpg.com.br cujo nome é a sigla de homepage grátis , uma comunidade de 160.000 sites, a maioria minúsculas páginas de pessoas que usam a rede para frugalidades como mostrar suas coleções de selos, falar de seus passatempos ou simplesmente fazer amigos. Quase metade dos brasileiros que usaram a internet em setembro passou pelo menos uma vez por endereços como Hpg e Geocities. O sucesso dessas comunidades virtuais é um recado para os empresários da era digital. Se eles quiserem ganhar dinheiro vendendo seus produtos e expondo suas propagandas, precisam entender o que pensa e o que quer essa legião de internautas que se abriga em comunidades no melhor estilo dos pioneiros da internet democrática, sem barreiras e meio anárquica. As pesquisas também derrubam muitos mitos sobre os usos e os costumes na internet. Um deles dizia que o turismo pelos sites de sexo é o que mais atrai a atenção do público na rede. Para espanto geral, os números mostram que os brasileiros gastam, em média, apenas dois minutos por mês nesses endereços um décimo do tempo que despendem nos sites dos bancos. O endereço quegostoso.com, que apela para a pornografia pura, teve 242.000 visitantes em setembro, segundo o Ibope eRatings. Perdeu para um site de educação, o da Universidade de São Paulo, que atraiu 359.000 internautas, com idéias e informações acadêmicas. Na semana passada, a Media Metrix, que disputa com o Ibope eRatings a posição de termômetro da audiência na internet sob o ponto de vista do usuário, divulgou seu primeiro ranking sobre a rede no Brasil. A medição levou em conta as nove principais regiões metropolitanas do país, mais o interior de São Paulo. A ordem final dos mais visitados é bem diferente da apresentada pelo Ibope. Na lista dos dez domínios mais importantes da Media Metrix, por exemplo, o Yahoo.com está em quarto lugar. No do Ibope eRatings, ele é o 17º. O serviço de buscas Cadê, que despontou em segundão na lista do Ibope, está em quinto pelas contas do instituto concorrente. Na relação dos maiores sites de finanças, o Banco do Brasil, que lidera, segundo o Ibope, não aparece entre os três primeiros da Media Metrix. As divergências de números e posições de liderança entre as empresas de pesquisa se devem a diferenças no critério de medição, como o tamanho das amostras e o número de regiões pesquisadas. Outra razão é que a internet é uma novidade tão recente que os especialistas na matéria ainda não tiveram tempo para digeri-la direito. A medição do Ibope tem uma vantagem importante. É nacional e mostra, pela primeira vez, como os internautas estão distribuídos geograficamente pelo país. Do total de usuários da rede, 64% estão concentrados na Região Sudeste, seguida pelo Sul (18%), Nordeste (9%), Centro-Oeste (7%) e Norte (2%). O sobe-e-desce nos rankings vai dar muito o que falar nos restaurantes da Rua Amauri, em São Paulo, e nos escritórios da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, locais onde se concentra boa parte dos executivos das empresas pontocom. Mas a discussão em torno de algumas dezenas de visitantes ou algumas centenas de page views talvez seja o menos importante nessa história. "A grande virtude das pesquisas é deixar claro que a internet no Brasil está apenas começando e já é um mercado fantástico", diz Tolis Vossos, do Ibope. Os números revelam que, de um lado, existe uma massa de pessoas doidas para se plugar à rede e navegar. Sabe-se, de outro lado, que há uma manada de empresas ansiosas por tornar lucrativos seus negócios na internet. "As duas partes ainda não se encontraram", diz Genesini, da Andersen Consulting. A boa notícia é que, com mais conhecimento sobre o público, aumentam as chances de que os internautas e as empresas de internet comecem a falar a mesma língua e a rede mundial de computadores possa cumprir seu ideal.
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