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A radiografia da
internet brasileira

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Perfil do internauta brasileiro

Pesquisa do Ibope revela que
o Brasil já tem 14 milhões de
internautas e mostra quem são
os gigantes da rede

César Nogueira e Nilson Vargas

Claudio Rossi

No cardápio: além da casa e do trabalho, locais como os cibercafés levam cada vez mais pessoas à rede


Que a internet é um sucesso de público no Brasil, ninguém duvida. O que faltava até agora era medir o tamanho desse sucesso. Nunca se soube com certeza quantas pessoas, no país, estavam usando a rede mundial de computadores. Menos ainda se sabia o que essa gente faz quando está conectada. Isso está mudando. Nos últimos meses, grandes institutos de pesquisa saíram a campo para medir, pesar, tomar a pressão e radiografar a internet brasileira, tentando decifrar o fenômeno. O mais abrangente desses levantamentos acaba de ser concluído pelo Ibope eRatings.com – um instituto de pesquisa especializado em internet, nascido da associação do Ibope com a americana ACNielsen. O resultado do estudo, publicado com exclusividade por VEJA, é espantoso. Mostra que a internet já é muito maior no Brasil do que se imaginava. Melhor ainda: a rede tem combustível de sobra para crescer rapidamente no país. Algumas constatações do trabalho do Ibope eRatings:

Os pesquisadores perguntaram aos brasileiros que ainda não estão conectados à internet quando pretendem entrar na rede. A resposta: nos próximos doze meses a internet deverá fazer sua estréia em cerca de 4,6 milhões de domicílios, segundo a vontade declarada de seus ocupantes. Se isso acontecer, o número de internautas simplesmente triplica.

O Brasil já tem 14 milhões de pessoas com acesso à internet. Segundo a pesquisa, 9,4 milhões – um em cada dez brasileiros com mais de 16 anos – surfaram na web pelo menos uma vez nos últimos três meses.

Quando comparado com alguns países da Europa, o Brasil não faz feio. Tem mais pessoas conectadas à rede do que a Espanha ou a França, com pouco mais de 8 milhões cada um, e quase empata com a Itália. Só não chega perto dos Estados Unidos, a nação mais plugada do mundo. Lá são 151 milhões de internautas, a metade do total mundial.

O acesso à internet está deixando rapidamente de ser um privilégio da elite com telefone e computador em casa. Existem hoje pelo menos 6,4 milhões de internautas que só podem ser chamados assim porque desfrutam a web no trabalho, na escola, na universidade ou em outros locais, como os cibercafés.

A cada 24 horas, cerca de 4,9 milhões de brasileiros circulam pela rede. E não é só para bater papo. Nos últimos seis meses, 1,4 milhão realizaram compras on-line. É um desempenho surpreendente para uma forma de comércio que só muito recentemente começou a se instalar no Brasil.

A pesquisa do Ibope eRatings foi realizada em duas etapas. Na primeira, os pesquisadores procuraram fazer um raio X da rede – quantos são e onde estão os internautas brasileiros, sua idade, sexo, escolaridade e profissão. Durante três meses, dispararam ligações para quase 700.000 números de telefone selecionados aleatoriamente por computador, até conseguir uma amostra confiável de 1.500 residências, espalhadas por todo o Brasil, onde pudessem aplicar seus questionários. "Adotamos o mesmo padrão usado nos catorze países onde já realizamos essa pesquisa", diz Tolis Vossos, diretor-geral do Ibope eRatings.

Raul Junior

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Para estudar um fenômeno global, não poderia ser diferente. Usando a mesma metodologia de pesquisa, as mesmas questões e sistema de processamento, fica fácil comparar as situações dos diferentes países. Dá para ver, por exemplo, que os internautas nacionais estão entre aqueles que gastam mais tempo na rede. Em média investem oito horas mensais passeando pelas páginas da web e só perdem nesse quesito para os americanos, que surfam nove horas e meia por mês. A marca dos brasileiros equivale à dos japoneses e supera a de franceses, ingleses e australianos, entre outros.

Preferências nacionais – É uma curiosidade de almanaque, mas que serve bem para demonstrar a fome de bola com que os brasileiros encaram a internet e a vibração com que essa onda vai se espalhando. O número de residências penduradas na rede global de computadores dobrou nos últimos doze meses. "O Brasil está entrando num ano decisivo", diz Silvio Genesini, sócio-diretor da Andersen Consulting, que também teve acesso aos dados do Ibope eRatings. "Os efeitos da revolução da internet vão começar a ser sentidos para valer a partir de agora, com uma rápida popularização do acesso." Tudo depende, é lógico, de que a economia brasileira não tropece em nenhuma pedra muito grande e continue crescendo.

Na segunda etapa do trabalho, os pesquisadores foram escarafunchar o gosto dos internautas brasileiros e seu comportamento na rede. Isso é feito usando-se técnicas semelhantes às aplicadas pelo Ibope para medir a audiência na televisão. O instituto recrutou cerca de 2.500 usuários domésticos espalhados pelo Brasil e instalou programas especiais em seus computadores para monitorar cada passo deles na rede (para o ano que vem, o instituto vai ampliar a amostra, acompanhando também as pessoas que acessam a rede a partir do trabalho). Os relatórios informam os endereços virtuais que visitam, quantas vezes abrem cada página na rede, a quantidade de anúncios vistos, se clicam ou não os banners, o tempo e os horários que se dedicam a navegar.

Parece exagero, mas nessa operação de rastreamento pode estar em jogo a vida ou a morte de pedaços inteiros da internet. Na televisão, um ponto a mais ou a menos na audiência dos programas vale milhões de dólares em verba de propaganda, prestígio, liderança e até empregos. A internet tende a seguir um caminho parecido. O desempenho dos sites com o público é capaz de atrair ou afastar os investidores das ações das empresas da nova economia nas bolsas de valores. Pode também aumentar o faturamento com propaganda e garantir, assim, a permanência dos sites no ar. A pesquisa do Ibope eRatings tem um capítulo especial dedicado a medir a eficiência da publicidade na internet. Os sensores do instituto contam quantas vezes os banners – pequenos anúncios coloridos que emolduram e patrocinam as páginas da web – são clicados pelas pessoas. O que se percebe, olhando esse desempenho, é que no Brasil, como no resto do mundo, ainda não se encontrou a melhor forma de vender os peixes na rede. A taxa de cliques em geral é muito baixa (veja quadro).

Assim como a rivalidade dominical entre os programas de Gugu Liberato no SBT e de Faustão na Globo é alimentada semanalmente pelos índices de audiência, agora na internet também se deve instalar uma briga de foice entre sites e portais. O campo de batalha são os rankings divulgados pelos institutos de pesquisa. O do Ibope, em setembro, traz resultados capazes de balançar a rede. Alguns deles:

A liderança do UOL, além de folgada, é maior do que se supunha. De cada 100 internautas ativos no país em setembro, 66 passaram pelo provedor. A concentração de audiência que o UOL tem no Brasil é, proporcionalmente, maior que a do Yahoo!, atual líder, nos Estados Unidos.

Apesar do barulho que faz na mídia, o iG tem menos da metade da audiência do UOL e perde para o Bol e o Terra. Mesmo assim, o sexto lugar no ranking do Ibope é um feito e tanto para um projeto que nasceu há poucos meses e não está sob o guarda-chuva de um grande grupo financeiro ou de comunicações.

Os sites de bancos não chegam a ser primores de audiência. Mas reúnem uma massa fiel de internautas que gastam com aplicações financeiras, transferências e outras operações mais tempo do que em qualquer outro local da rede. Líder na categoria finanças, o Banco do Brasil tem 1,1 milhão de clientes que acessam seu site. No Bradesco, a clientela virtual passa desse número. O banco consegue melhor desempenho que portais como Starmedia e Zipnet pelo critério de páginas vistas no mês de setembro.

Longe da briga entre megaportais, tubarões do mercado financeiro e gigantes da mídia, a internet reserva lugar de honra a endereços como o hpg.com.br – cujo nome é a sigla de homepage grátis –, uma comunidade de 160.000 sites, a maioria minúsculas páginas de pessoas que usam a rede para frugalidades como mostrar suas coleções de selos, falar de seus passatempos ou simplesmente fazer amigos. Quase metade dos brasileiros que usaram a internet em setembro passou pelo menos uma vez por endereços como Hpg e Geocities. O sucesso dessas comunidades virtuais é um recado para os empresários da era digital. Se eles quiserem ganhar dinheiro vendendo seus produtos e expondo suas propagandas, precisam entender o que pensa e o que quer essa legião de internautas que se abriga em comunidades no melhor estilo dos pioneiros da internet democrática, sem barreiras e meio anárquica.

As pesquisas também derrubam muitos mitos sobre os usos e os costumes na internet. Um deles dizia que o turismo pelos sites de sexo é o que mais atrai a atenção do público na rede. Para espanto geral, os números mostram que os brasileiros gastam, em média, apenas dois minutos por mês nesses endereços – um décimo do tempo que despendem nos sites dos bancos. O endereço quegostoso.com, que apela para a pornografia pura, teve 242.000 visitantes em setembro, segundo o Ibope eRatings. Perdeu para um site de educação, o da Universidade de São Paulo, que atraiu 359.000 internautas, com idéias e informações acadêmicas.

Na semana passada, a Media Metrix, que disputa com o Ibope eRatings a posição de termômetro da audiência na internet sob o ponto de vista do usuário, divulgou seu primeiro ranking sobre a rede no Brasil. A medição levou em conta as nove principais regiões metropolitanas do país, mais o interior de São Paulo. A ordem final dos mais visitados é bem diferente da apresentada pelo Ibope. Na lista dos dez domínios mais importantes da Media Metrix, por exemplo, o Yahoo.com está em quarto lugar. No do Ibope eRatings, ele é o 17º. O serviço de buscas Cadê, que despontou em segundão na lista do Ibope, está em quinto pelas contas do instituto concorrente. Na relação dos maiores sites de finanças, o Banco do Brasil, que lidera, segundo o Ibope, não aparece entre os três primeiros da Media Metrix.

As divergências de números e posições de liderança entre as empresas de pesquisa se devem a diferenças no critério de medição, como o tamanho das amostras e o número de regiões pesquisadas. Outra razão é que a internet é uma novidade tão recente que os especialistas na matéria ainda não tiveram tempo para digeri-la direito. A medição do Ibope tem uma vantagem importante. É nacional e mostra, pela primeira vez, como os internautas estão distribuídos geograficamente pelo país. Do total de usuários da rede, 64% estão concentrados na Região Sudeste, seguida pelo Sul (18%), Nordeste (9%), Centro-Oeste (7%) e Norte (2%).

O sobe-e-desce nos rankings vai dar muito o que falar nos restaurantes da Rua Amauri, em São Paulo, e nos escritórios da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, locais onde se concentra boa parte dos executivos das empresas pontocom. Mas a discussão em torno de algumas dezenas de visitantes ou algumas centenas de page views talvez seja o menos importante nessa história. "A grande virtude das pesquisas é deixar claro que a internet no Brasil está apenas começando e já é um mercado fantástico", diz Tolis Vossos, do Ibope.

Os números revelam que, de um lado, existe uma massa de pessoas doidas para se plugar à rede e navegar. Sabe-se, de outro lado, que há uma manada de empresas ansiosas por tornar lucrativos seus negócios na internet. "As duas partes ainda não se encontraram", diz Genesini, da Andersen Consulting. A boa notícia é que, com mais conhecimento sobre o público, aumentam as chances de que os internautas e as empresas de internet comecem a falar a mesma língua e a rede mundial de computadores possa cumprir seu ideal.

 

 

 

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