Tirem
isso de mim
Primeiro homem a ter uma mão
transplantada agora quer que
os médicos amputem o membro
AFP
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| Clint
Hallam (à esq.) e Jean-Michel Dubernard, um dos médicos
que realizaram o transplante: rejeição do organismo causada
pela indisciplina do paciente |
Parece
uma tragédia barata, mas um dos maiores feitos da medicina
pode acabar indo por água abaixo. O neozelandês Clint
Hallam, o primeiro ser humano a receber um transplante de mão
no mundo, quer arrancar o membro porque não consegue tolerar
a pressão psicológica de ter uma parte do corpo que
pertenceu a outra pessoa. É um drama que oito dos melhores
médicos do planeta, habituados a passar horas em frente a
uma mesa de cirurgia, nunca imaginaram enfrentar. Hallam alega que
o resultado da operação não correspondeu a
suas expectativas. Tem vergonha da nova mão desproporcional,
com coloração muito diferente da do resto do braço
e as unhas mais duras e escuras que o normal. "Tudo piorou quando
o membro começou a ser rejeitado pelo organismo", diz ele.
"Aí percebi que nunca ia ser realmente meu." Os médicos
não sabem mais o que fazer para convencer o paciente de que
vale a pena continuar insistindo. Eles atribuem o fracasso à
indisciplina de Hallam, que não toma os remédios anti-rejeição
com regularidade e foge das consultas como o diabo da cruz. "Mesmo
com uma seleção rigorosa, cometemos o erro de escolher
um mau exemplo", diz o cirurgião inglês Nadey Hakim.
Os médicos perceberam que teriam problemas pela frente logo
depois da operação, quando descobriram que Hallam
havia mentido descaradamente para participar do processo de seleção
da pesquisa. Acreditavam que ele era um empresário bem-sucedido
e que tinha perdido a mão direita num acidente com uma serra
elétrica em um canteiro de obras havia 16 anos. Na verdade,
ele era um ex-presidiário que se acidentou na oficina da
cadeia onde cumpria pena por fraude. Hallam ficou treze horas na
mesa de cirurgia e recebeu a mão e o antebraço de
um motociclista que teve morte cerebral. Foi informado de que teria
de tomar remédios por toda a vida, enfrentaria problemas
de saúde e poderia até sofrer de câncer. "Ele
reagiu bem durante os primeiros meses, quando estava na França
e era acompanhado de perto pela equipe médica", explica o
cirurgião Jean-Michel Dubernard, que participou da operação.
Com o paciente de volta à Nova Zelândia, os médicos
perceberam que a situação lhes escapava do controle.
Hallam não conseguiu suportar o tratamento. Num dramático
depoimento ao jornal The Times, de Londres, contou que a
medicação o fazia sofrer mais do que quando não
tinha a mão. Ele tinha diarréias crônicas
emagrecia até 2 quilos por dia e regularmente ficava
gripado e com febre. Sem a ajuda dos remédios, manchas vermelhas
se acumulam sobre o novo membro nos pontos em que os anticorpos
estão ganhando a batalha. É um desfecho assustador,
que mais parece uma versão moderna de Frankenstein. Ele,
que dizia ter o sonho de poder abraçar a mulher e os quatro
filhos com as duas mãos, agora só quer se livrar do
pesadelo que a ciência lhe deu de presente.
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Como
foi a operação de Hallam
Os ossos do pulso do doador foram fixados com placas de platina
aos ossos do antebraço
do paciente
Duas artérias e três veias principais foram costuradas
e restabeleceram o suprimento de sangue para a mão
Por último, foram ligados tendões, músculos
e nervos, e a pele foi costurada
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Saiba
mais |
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