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A fera do skate

O brasileiro Bob Burnquist, o "Crazy Bob",
é um dos ídolos do esporte nos Estados Unidos

Marcelo Marthe

Na pré-adolescência, o carioca Robert Dean Silva Burnquist era um garoto branquelo, magricela e ruim de bola. Com toda a pinta de gringo – seu pai é americano e a mãe, mineira de Uberaba –, passava por alienígena na escola de classe média alta que freqüentava em São Paulo. Quando ganhou seu primeiro skate, aos 11 anos, idade em que tingia os cabelos de vermelho ou azul, seus colegas perceberam que, por trás do branquelo, existia uma fera. "O cara se arrebentava todo", lembra um deles. "Mas não estava nem aí." Hoje, doze anos e dezoito ossos fraturados depois, Burnquist é um dos maiores ídolos mundiais do skate. Espécie de Gustavo Kuerten sobre rodinhas, tornou-se o brasileiro mais bem-sucedido nesse esporte radical. É reverenciado pelas principais publicações do ramo e acumula vinte vitórias em torneios no exterior desde 1995, época em que se mudou para os Estados Unidos. Aos 23 anos, possui uma fortuna na casa de 1 milhão de dólares. Seu sucesso ajudou a catapultar o Brasil para uma posição de destaque no circuito mundial. Neste momento, o país é a segunda potência do esporte. Burnquist está no topo do ranking de skate vertical, a categoria dos que voam mais de 3 metros acima do solo, naquelas rampas em forma de U. Outros três nomes nacionais figuram entre os dez melhores dessa lista. Há ainda um paranaense – Carlos de Andrade, o "Piolho" – em primeiro lugar na modalidade street, que, como diz o nome em inglês, é disputada em circuitos de rua.

 
Daniel Bourqui
Otávio Neto
Paulo Gouvea
Nome: Bob Burnquist
Idade: 23 anos

Fortuna: US$ 1 milhão

Vitórias internacionais: 20

Ossos quebrados: 18

O sucesso de Bob Burnquist é uma miragem para quem treina no Brasil. "Temos um circuito respeitável e o número de adeptos só aumenta, mas ninguém fatura com isso", diz Cesar Gyrão, editor da revista especializada Tribo Skate. Enquanto aqui é difícil sobreviver do esporte, nos Estados Unidos esse mercado tem uma força impressionante: movimenta 1 bilhão de dólares anuais só com a venda de roupas e equipamentos. Estima-se que haja naquele país 10 milhões de skatistas. Com tanta gente praticando, as competições têm espaço garantido em canais de TV, como a ESPN. Burnquist soube tirar proveito desse ambiente. É um dos protagonistas do Tony Hawk's Pro Skater, videogame popularíssimo nos Estados Unidos. Já foi garoto-propaganda em outdoors, fez aparições em seriados de TV, emprestou seu nome a um modelo de tênis e até a brinquedos. "Acho que estou virando uma corporação", brinca.

Os outros atletas brasileiros que se deram bem na Califórnia – a meca do skate – estão longe do patamar alcançado por Burnquist, mas não têm do que reclamar. O paranaense Carlos de Andrade, que tem boas chances de tornar-se campeão na categoria street, a mais popular do esporte, ganha algo em torno de 5.000 dólares por mês. Em situação parecida se encontram os paulistas Lincoln Ueda, Cristiano Mateus e Sandro Dias. Desde o ano passado, o Brasil sedia uma das etapas do campeonato mundial de skate vertical. O evento, que fecha o calendário do ano 2000, acontecerá em São Paulo no começo de novembro e poderá ser o palco onde Burnquist ganhará o inédito título mundial. "As chances de o Bob ser campeão são de 99%", aposta Alexandre Vianna, presidente da Confederação Brasileira de Skate.

Para além dos campeonatos conquistados, o que faz de Burnquist um ídolo é seu estilo ousado. "Crazy Bob" (Bob Maluco), como ficou conhecido por se arriscar muito nas manobras, é capaz de inverter a posição dos pés sobre a prancha enquanto realiza curvas fechadíssimas, a 70 quilômetros por hora. É claro que isso às vezes resulta em quedas perigosas, que lhe valeram quatro fraturas no mesmo pulso, cotovelos e costelas quebrados e mais de sessenta pontos. Para executar suas loucuras na rampa, Burnquist dispõe de apenas 45 segundos – esse é o tempo destinado a cada skatista nas disputas. O assédio das tietes é grande, mas ele jura que só tem olhos para a namorada, a americana Jennifer O'Brien, de 27 anos, que também é skatista e mãe de Lotus, sua filha de 7 meses. O lar da família é um rancho de 10.000 metros quadrados nas proximidades de San Diego, Califórnia. Na propriedade, avaliada em 350.000 dólares, há uma casa confortável e uma grande rampa de skate só para ele. Seus pais também moram lá, assim como um amigo brasileiro que é professor de capoeira. Da mãe, Burnquist herdou a crença no espiritismo. E cultiva um gosto musical peculiar para um skatista. Enquanto a maioria de seus colegas ouve hardcore ou rap, ele se amarra em Sivuca e João Gilberto. E o skatinho vai, e a tardinha cai...

 

Garota, eu vou para a Califórnia

Assim como Burnquist (abaixo), outros skatistas brasileiros estão se dando bem nos Estados Unidos. Alguns ocupam os primeiros lugares dos rankings mundiais

 
Luiz Calado

 

Fernando Moraes
Fotos Shin Shiwma
Dias: paulista na quinta colocação Ueda: radical nas manobras aéreas Andrade: no topo da categoria street

 

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