Esteira e fofoca
O
dia do personal trainer tem muito exercício,
vários desabafos e paquera também
Flávia
Varella
Eliane Coster
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| Adriane
com Altieri: horários imprevistos e viagem |
Na novela das 8, Alma, personagem de Marieta Severo, finge que faz
ginástica sob as ordens e os toques de Romeu, interpretado
pelo modelo e deus grego Paulo Zulu. Enquanto ela malha, seu marido,
escondido, se corrói de ciúme. No mundo das estrelas,
a cantora Madonna escolheu seu personal trainer à época,
o bem esculpido Carlos León, para conceber a primeira filha,
Lola. No mundo dos mortais comuns, vida de treinador particular
tem mais suor e menos fantasia. Personal que é personal acompanha
os alunos em tudo: levantamento de peso, alongamento, corrida, caminhada
e bicicleta. Não faz necessariamente todos os exercícios
junto, mas dá um duro danado. E, sim, às vezes pinta
um clima de sedução. Cantadas, beijos extremamente
amistosos, abraços insinuantes, confidências de corações
solitários tudo isso acaba acontecendo. Afinal, corpo
sarado, saúde e mais disposição podem ser os
principais objetivos dos cerca de 30.000
brasileiros que contratam professores de educação
física (há 5.000 no mercado,
doze vezes mais que quatro anos atrás). Mas é difícil
mexer no corpo sem tocar também em algum cantinho da alma.
"É
melhor que terapia", garante a empresária paulista Suzana
Sandoval Scavarillo, de 54 anos, que interrompeu sete anos de análise
assim que contratou José Carlos Altieri como seu treinador.
"Quando estou deprimidinha, ele chega e pergunta o que tenho. Falo,
falo, saio lépida e feliz", conta Suzana, na sala de sua
casa, onde, dois anos atrás, mandou arrancar a requintada
decoração em estilo inglês, com forro de madeira
e tecido na parede, colocou um espelho de 10 metros quadrados e
instalou aparelhos esportivos. "A sala está sempre aqui,
mas só me exercito quando o José Carlos vem", confessa.
O expediente de Altieri costuma começar às 7 da manhã
com um treino duplo para um executivo e sua mulher. Em meia hora,
tem de estar em outro bairro, onde atende o juiz José Carlos
Camargo Magano, de 36 anos. Com o juiz os exercícios são
puxados e os assuntos, variados, mas quase sempre há discussões
sobre futebol e qual das Sheilas do Tchan é mais bonita,
a loira ou a morena. Nos dois temas, instrutor e aluno divergem.
A aula seguinte é tranqüila: num bairro residencial,
Altieri caminha e bate papo com a dona-de-casa Maria
Luiza Ferrarini Fernandes, de 49 anos, e sua filha, Maria Augusta,
de 25. "Ele é um amigo. Preciso até tomar cuidado
para não descarregar todos os problemas no professor", diz
Luiza.
Claudio Rossi
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Rogério Voltan
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| Galasso
treina os gêmeos Flávio e
Gustavo, que contracenam com a Feiticeira, e
ensina um movimento para Andréa Basílio Lemos:
um pouco aula, um pouco terapia |
"Para
treinar bem, precisamos conhecer a rotina do aluno. A gente já
chega perguntando se dormiu bem, como está se sentindo. Acabamos
sabendo das coisas", diz o instrutor Marco Aurélio Vieira,
responsável pelo corpão de Joana Prado, a Feiticeira.
"O lado psicológico é fundamental, faz parte da obrigação
profissional." Com esse elemento em jogo, e diante do temperamento
em geral expansivo dos brasileiros, não é de estranhar
que aluno e professor em pouco tempo se comportem como amigos, discutindo
assuntos íntimos. A aluna das 9 e meia da manhã das
terças-feiras de Marcelo Butenas é uma mulher separada,
mãe de dois adolescentes, que também treinam com ele
em horários diferentes. No dia em que a reportagem de VEJA
acompanhou a rotina de Butenas, ela chegou meia hora atrasada à
piscina da academia Fórmula, onde faz aula particular três
vezes por semana. Entrou diretamente na água, molhou a cabeça
e desabafou: "Estou com problemas com o Bruno". Cada vez que voltava
à borda da piscina para novas orientações de
exercícios, desabafava um pouco mais. Mil metros nadados,
concluiu: "Está um caos lá em casa, tio".
Numa
atmosfera em que o corpo é o centro absoluto das atenções,
fazer uma abordagem mais atrevida não exige prodígios
de imaginação. O professor Luiz Galasso já
sabe perfeitamente o que se segue a uma frase-chave: "Não
estou sentindo nada. Me mostre qual músculo tem de doer".
Marcar o último horário do dia também pode
ser outro indício de que vem cantada pela frente. Uma aluna
certa vez contratou Galasso para um pacote de aulas das 22 às
23 horas. "Logo percebi o que ela queria", observa o treinador.
Percebeu e topou. Quando a proposta não é interessante,
o jeito é fazer-se de desentendido. "Do mesmo modo que existe
o fetiche da sedução do bombeiro ou da enfermeira,
agora a fantasia é com o personal trainer", diz Galasso.
A
fantasia pode virar romance de verdade. O personal trainer carioca
André Galvão, de 34 anos, professor de Claudia Raia,
Edson Celulari e Ricardo Macchi, já foi fisgado duas vezes.
Em uma delas, a aluna, depois de uma aula na véspera do Ano-Novo,
deu-lhe uma garrafa de champanhe com um mapa da fazenda onde ia
passar o réveillon. Galvão foi, apaixonou-se e namorou
durante um ano. O que atrapalhou? O ciúme dela. "Eu realmente
amava a garota. Mas acabou porque ela pensava que eu podia me envolver
com outras alunas", conta o treinador. Já Solange Frazão,
37 anos, jura que nunca, jamais havia saído com um aluno,
até cruzar com o ator Humberto Martins, o Baldochi da novela
Uga Uga. "Ele estava precisando perder peso e ganhar músculos,
e indicaram meu nome", lembra Solange. Além de músculos,
Humberto Martins ganhou uma esposa.
Os
romances, garantem os instrutores mais sérios, são
exceção. Já as amizades florescem. José
Carlos Altieri, personal trainer de Adriane Galisteu há quatro
anos, viajou no ano passado com ela, o então marido, Roberto
Justus (também seu aluno), e a mulher para quatro dias de
passeio na Argentina. No começo de outubro, foi ao Nordeste
com outro aluno-amigo, o operador do mercado financeiro Claudio
Schaefer, de 52 anos. A última aula antes da viagem foi leve,
por causa da gripe do aluno. Meia hora depois, ele estava na academia
do prédio da modelo Jeniffer Srour, de 22 anos. Outra idade,
outra proposta, exercícios completamente diferentes
Jeniffer quer "virar uma supermulher", como diz. Para não
se perder, Altieri tem planilhas em que planeja e acompanha o programa
de cada um. Às 8 e meia da noite, doze horas, cinco alunos,
quatro bairros e quarenta minutos de malhação pessoal
depois, termina o expediente do treinador. Até que foi leve.
Há dias em que começa uma hora e meia mais cedo, dá
aulas também no horário do almoço e atende
a qualquer momento a aluna mais famosa, Adriane. O pão conquistado
com o suor do rosto, e de todo o resto, de um personal trainer oscila
entre 40 e 80 reais a hora de aula. Ao fim do mês, a soma
pode chegar a 5.000 reais, remuneração
com que um professor de educação física nem
sonharia cinco anos atrás mesmo já incluindo
no pacote a função de psicólogo, conselheiro
e até objeto de fantasias.
Ilustração com fotos de Bob Toledo
e Ricardo Benichio
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1.
Às 8h15, a primeira aula de
Altieri: exercício pesado e
papo leve com Magano
2.
Às 9h30: caminhada e muita
conversa com Maria Luiza
e Maria Augusta
3.
Altieri, 16h45: com Suzana na sala de ginástica que
tomou o lugar da decoração inglesa
4.
Com o amigão Schaefer, às 18
horas: treino leve e planos para a viagem conjunta ao Nordeste
5.
Última aula, 19h30: muita malhação para
atender ao projeto da modelo Jeniffer de virar uma "supermulher"
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Para
afinar a carteira
| Fotos Divulgação |
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| Água
com oxigênio e peso para braço: mais novidade
que eficiência |
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| Balança:
além do peso, a gordura |
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| Fast
skin: a estrela das Olimpíadas chega às
lojas |
Além
de abrir um admirável mercado novo para os professores
de educação física, a disseminação
dos exercícios também entope as lojas de produtos
mais ou menos úteis para quem quer manter a forma.
Os lançamentos mais recentes são de tirar o
fôlego. O macacão fast skin, vedete das Olimpíadas,
que imita a pele do tubarão e diminui o atrito do corpo
com a água, chega às lojas em novembro por 900
reais; só o maiô custará 300. Ainda para
nadadores, o Stroke Monitor promete ajudar a vida de quem
perde a conta de quanto nadou: afivelado ao pulso, mede o
número e a intensidade das braçadas e conta
os "tiros" (uma ida e volta completa). Preço: 448 reais.
Fora da água, os loucos por uma balança vão
adorar a Tanita, que, além do peso, mede a porcentagem
de pura gordura no corpo. Quem quiser submeter-se a esse flagelo
dos fofos pagará 190 reais pelo modelo mais simples
e 250 reais pelo que tem memória. Outra novidade, para
adeptos da musculação, é o pesinho para
braços. Preso ao pulso, varia de 1 a 5 quilos, custa
10 reais o par e, pelo menos em teoria, substitui os aparelhos
para bíceps, tríceps e que tais. Charmosa, mas
totalmente supérflua, é a água americana
Life O2 (3 reais a embalagem de 600 mililitros), destilada,
à qual se acrescentam 700% mais de oxigênio.
Diz o fabricante que isso ajuda a repor a perda de oxigênio
durante a atividade física. "Não funciona",
avisa a nutricionista Marcia Daskal, da Fórmula Academia.
"O organismo só aproveita o oxigênio que vem
pela respiração." Mas quem resiste?
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