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Por que não dá certo

Sem conseguir chegar a um acordo sobre
como viver juntos na Palestina, árabes e
judeus mergulham na violência

Jaime Klintowitz

Reuters

Acordo de má vontade: reunidos por pressão americana no Egito, na semana passada,Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense, Ehud Barak (foto), concordaram em tentar acalmar os ânimos no Oriente Médio. Mas se recusaram a pôr o acordo no papel e até mesmo a trocar um aperto de mãos. Mais de 100 pessoas, a maioria árabe, já foram mortas na revolta palestina, que começou no final de setembro

O que está acontecendo com Yasser Arafat? O homem que foi guerrilheiro durante três décadas e hoje é um senhor gordote de 71 anos está dando sinais contraditórios sobre a disposição dos palestinos de realmente buscar a paz nos territórios que ocupam em Israel, cercados pelo domínio político, econômico e militar dos judeus. Arafat, sem o ônus da rotina de governar, desfila pelo mundo como um dos mais prestigiados estadistas do planeta, com seu turbante quadriculado na cabeça e um Prêmio Nobel no currículo, ganho em parceria com o israelense Itzhak Rabin pelos acordos de paz de 1993. A questão é se Arafat entende como o mundo mudou desde que ele criou, nos anos 60, a Fatah, movimento guerrilheiro que se tornou a espinha dorsal da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Agora, ele lidera um levante contra a ocupação israelense de dimensões nunca vistas – e que parece desfocado num momento em que as ofertas já colocadas sobre a mesa de negociação fazem supor que se está a um passo de dar uma pátria aos palestinos. Na sexta-feira passada, às vésperas de uma reunião de líderes de nações árabes no Cairo, capital do Egito, as ruas de algumas cidades dos territórios ocupados eram de novo tomadas pelas cenas já comuns nas últimas semanas. Em meio a explosões de tiros, bombas incendiárias e pedradas, dez pessoas morreram e a possibilidade de paz continuava distante. À frente dos palestinos, Arafat é uma esperança de acordo com os judeus, mas o velho líder parece vacilar, mesmo que o tempo esteja correndo contra ele. Sofre do mal de Parkinson, uma doença degenerativa, e a saúde debilitada incentiva uma guerra surda por sua sucessão entre líderes palestinos mais jovens.

 
AFP
Reuters
Milicianos palestinos na Cisjordânia: dúvidas se Arafat ainda tem controle sobre as manifestações Tanque israelense de guarda diante da cidade de Ramallah: planos de emergência para isolar as povoações palestinas com cercas e campos minados

A Palestina vive um conflito que se arrasta desde o princípio do século XX, quando as primeiras levas de judeus sionistas desembarcaram com planos de criar um Estado judaico na região. Em 1947, a ONU votou pela partilha da área em dois Estados, e, no ano seguinte, os judeus criaram Israel. Perto de 800.000 árabes deixaram o território do novo Estado ou foram expulsos e hoje formam um contingente de 2,5 milhões de refugiados vivendo em vários países. Foi nesse cenário que surgiu Yasser Arafat. Nos anos 70, ele colocou a questão palestina no centro das atenções mundiais com uma sangrenta campanha terrorista contra Israel. No final dos anos 80, desistiu do plano irrealista de riscar o Estado judeu do mapa e buscou a acomodação com o inimigo. Passou, então, a representar o triunfo do bom senso sobre o fanatismo numa região em que a emoção costuma falar mais alto. Sempre é difícil encontrar a realidade por trás da máscara de homens que simbolizam uma causa. Embora sustente o mito de que Jerusalém é sua cidade natal, Yasser Arafat nasceu realmente no Cairo, em 1929, numa família palestina. Vivia em Jerusalém quando os israelenses tomaram a parte árabe da cidade, em 1967. Transferiu sua central guerrilheira primeiro para a Jordânia (de onde foi expulso pelo Exército jordaniano, em 1970), depois para o Líbano (expulso pelos israelenses em 1982) e, por fim, para a Tunísia, a milhares de quilômetros de distância do inimigo israelense. Foi em Túnis que se casou pela primeira vez, com a cristã Suha Al-Taweel, 35 anos mais jovem, numa cerimônia secreta, em 1990. Sua primeira filha, Zahwa, nasceu cinco anos depois. Ele é também pai adotivo de 75 órfãos recolhidos em campos de refugiados na Síria e no Líbano. Em 1994, mudou-se para a Faixa de Gaza, com Suha, mas apenas 35 dos filhos adotados foram com ele (os outros quarenta ficaram estudando na Europa ou já se haviam casado).

De certo ponto de vista, Arafat não tem do que se queixar. Desde que começou a negociar com Israel, a OLP deixou o exílio, ganhou reconhecimento internacional, estabeleceu-se em áreas autônomas com governo próprio (mesmo que sem soberania e com poderes muito limitados), recebe ajuda financeira estrangeira. Três meses atrás, o presidente americano, Bill Clinton, convocou Arafat e o primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, para discutirem um acordo final para a pendenga entre árabes e judeus. Barak o surpreendeu com uma ousada proposta de criar o Estado palestino em 90% da Cisjordânia, com capital nos bairros árabes de Jerusalém (veja mapa). Israel anexaria apenas áreas densamente habitadas por judeus. Tratava-se, do ponto de vista israelense, de uma concessão revolucionária, visto revogar o sacrossanto princípio de ter a cidade como "capital eterna e unificada de Israel". Do ponto de vista palestino, é outra coisa. Ácido crítico de Arafat, Edward Said, palestino que leciona literatura numa universidade americana, diz que tudo o que os acordos de paz concederam aos palestinos foi "uma série de administrações municipais em bantustões" sob o controle externo de Israel. A comparação com o bantustão em que os brancos sul-africanos confinavam a maioria negra nos anos do apartheid não é estapafúrdia. Israel não esconde a existência de um plano de emergência para ser usado caso o confronto fuja ao controle ou Arafat declare independência por conta própria. Consiste em isolar com cercas e campos minados os centros populacionais palestinos, numa separação total entre árabes e judeus. Confinados em seus enclaves, os palestinos dependeriam da boa vontade de Israel até para receber comida de fora.

 
AP
AFP
Num gesto de desafio, jovem palestino exibe o peito para os soldados israelenses: uma guerra de pedras, coquetéis molotov e tiros para matar

No encontro em que ouviu as propostas do primeiro-ministro israelense, sob o olhar de Bill Clinton, Yasser Arafat rejeitou integralmente a oferta. Para espanto e irritação do anfitrião americano, partiu sem fazer a contraproposta esperada pela Casa Branca. Muitos israelenses viram nisso a prova de que Arafat nunca pretendeu realmente fazer a paz. Não lhes passa pela cabeça que o líder palestino simplesmente concluiu que já não poderia fazer a paz na mesa de negociações. Não se a melhor oferta de Barak significa algo menos que a soberania palestina sobre a parte árabe da Cidade Santa, ocupada por Israel na guerra de 1967. Arafat prometeu centenas de vezes a seu povo que não negociaria a entrega de Jerusalém Oriental e, particularmente, aquilo que se tornou o ícone do nacionalismo palestino: a Esplanada das Mesquitas. Faz parte da tragédia desse conflito que os principais santuários judeu e muçulmano estejam não só na mesma cidade, mas também na mesma rocha. Os árabes o chamam de Haram al-Sharif ("Nobre Santuário"), e acreditam que dali o profeta Maomé ascendeu ao céu. Abriga as mesquitas de Al-Aksa e de Omar e é o terceiro mais importante santuário do islã. Os judeus o chamam de Monte do Templo, pois ali se erguia o Templo Sagrado. Numa das laterais está o Muro das Lamentações. É o que resta do Segundo Templo, destruído nos anos 70, e local mais sagrado do judaísmo. Primeiro-ministro com precário apoio parlamentar, Barak arriscou o cargo ao propor uma divisão das pedras sagradas de seu povo. É irônico que o líder israelense mais pacifista da história do país tenha obtido como resposta uma rebelião sangrenta.

O sonho de Arafat é entrar na história como um novo Saladino, o general muçulmano que tomou Jerusalém dos cruzados quase um milênio atrás. Se tivesse aceito algumas ruas a menos do que aquelas que os árabes tinham em 1967, provavelmente seria recebido como um traidor. Ou, na hipótese mais dramática, correria o risco de ser assassinado como Anuar Sadat, o presidente do Egito, o primeiro a assinar a paz com Israel. Os palestinos estão frustrados com o resultado dos sete anos de intermináveis negociações e com a determinação dos israelenses de continuar instalando colonos nos territórios que ocupam desde aquele ano. A Autoridade Palestina presidida por Arafat controla 40% da Cisjordânia e 80% da Faixa de Gaza (veja mapa). São cidades e aldeias que formam uma espécie de arquipélago cercado de postos de controle israelenses e colônias judaicas. Nesse cenário, a população palestina vive a indignidade diária da ocupação militar, está impedida de viajar livremente entre as cidades habitadas por seu povo. E, apesar da ajuda internacional, a economia está aos pedaços e o desemprego é alto.

A administração palestina é corrupta e lida com a oposição com a mesma mão dura encontrada em qualquer ditadura dos países árabes vizinhos. Arafat anda de lá para cá no avião da presidência e não dá explicação sobre o destino dos bilhões de dólares recebidos de ajuda internacional. Guerrilheiros veteranos, que dez anos atrás viviam precariamente em Túnis ou Beirute, podem ser vistos tomando vinho francês em restaurantes chiques de Tel-Aviv. Muitos tornaram-se sócios de israelenses em negócios milionários. Ao contrário da maioria da população palestina, tratada como gado nos postos de controle israelenses, os caciques dispõem de passes vip para transitar à vontade em seus carros de luxo. Logo depois do fracasso da reunião nos Estados Unidos, Arafat procurou apoio internacional para declarar um Estado Palestino independente. Foi aconselhado por todos os países a não cutucar a onça israelense com vara curta e esperar até novembro. É possível que tenha pensado que uma rebelião forçaria Israel, talvez com a ajuda de Washington, a atender às reivindicações palestinas. Não se trata, evidentemente, de tentar derrotar o formidável exército israelense no campo de batalha, mas de levar Israel a concluir que está pagando um preço excessivo pela ocupação dos territórios palestinos.

 
Reuters
AFP
Confronto: palestino devolve bomba de gás Xeque Yassin, líder do Hamas: ameaça do fanatismo islâmico

No cenário imaginado por Arafat, o conflito poderia adquirir o contorno de um novo Kosovo. Comoveria a comunidade internacional e o Estado palestino nasceria com fronteiras melhores que aquelas oferecidas por Barak. Ou, talvez, a indignação causada pelas cenas de violência mostradas na TV pudesse ser o estopim de uma guerra regional. Não falta quem tema que os países árabes adotem um boicote nas exportações de petróleo, como ocorreu nos anos 70. Convidado pela primeira vez, neste fim de semana, a se reunir com os outros governantes árabes para discutir o conflito na Palestina, o encrenqueiro Saddam Hussein, do Iraque, clama por uma guerra santa para libertar Jerusalém. Não se deve levar a retórica árabe ao pé da letra. O Oriente Médio é hoje um lugar muito diferente do que foi uma geração atrás. A Guerra do Golfo expôs tanto a fraqueza militar como a desunião política dos países árabes. A grande amiga das aventuras messiânicas pan-arabistas, a União Soviética, deixou de existir. Em contrapartida, os Estados Unidos e Israel são hoje muito mais poderosos, econômica e militarmente. Egito e Síria, que lutaram juntos três guerras contra Israel, são agora nações empobrecidas, ansiosas não por um novo confronto, mas para ingressar na economia globalizada.

O que realmente une os países árabes é o temor de que a crise alimente o furor do fundamentalismo islâmico doméstico, uma ameaça real aos governantes. É curioso como as únicas manifestações de protesto permitidas nas ditaduras do Oriente Médio são as montadas contra Israel. Da mesma forma, se demonstrar fraqueza diante do inimigo, Arafat teme ver sua liderança ser levada de roldão pelas organizações de fanáticos muçulmanos, com um terrível currículo de atentados contra civis israelenses. Logo que os conflitos começaram, Arafat mandou soltar mais de 100 membros do Hamas, a principal delas, que estavam confinados em prisões palestinas. O levante palestino iniciado no final de setembro e a brutal reação israelense já tinham causado até sexta-feira a morte de pelo menos 111 pessoas, a maioria árabes. Ninguém sabe se a multidão que joga pedras e bombas incendiárias nos soldados israelenses obedeceria a uma ordem de Arafat para voltar para casa. Ou se ele ainda controla os 2.000 homens da Tanzim, a milícia da Fatah, que estão na linha de frente do confronto com seus fuzis de assalto e mostram cada vez maior autonomia.

Reuters
Um ciclo vicioso: o enterro das vítimas provoca novas manifestações e outros enterros

Nominalmente, o presidente da Autoridade Palestina controla uma dúzia de organizações armadas, totalizando talvez 40.000 homens, com armamento leve. Ele tem a própria guarda pessoal, a Força 17. Há a polícia de uniforme azul, que combate a criminalidade e controla o trânsito, os agentes do serviço secreto, que se vestem de preto, os comandos paramilitares, de farda verde, e, evidentemente, os espiões à paisana. Cada uma dessas forças deve lealdade a uma variedade de chefetes de facções e são todas mais ou menos leais a Arafat. Não representam mistério algum, pois trabalham em estreita colaboração com a CIA, o serviço secreto americano. É ele que faz a ligação entre arapongas palestinos e israelenses. Até onde Arafat pretende levar seu confronto, visto que Israel pode esmagar facilmente toda a sua soldadesca e infligir danos terríveis a seu povo? Os israelenses dispõem de farto arsenal de represálias possíveis, como asfixiar a economia ou cortar o fornecimento de água e luz das cidades palestinas. Reunidos por insistência dos Estados Unidos no balneário egípcio de Sharm al-Sheikh, na última terça-feira, Arafat e Barak chegaram a um compromisso verbal de que cada um faria o possível para acalmar o Oriente Médio. Tentar impedir que israelenses e palestinos continuem matando uns aos outros é, nas circunstâncias, um projeto para lá de ambicioso. Na sexta passada, o acerto verbal mostrou-se inútil. Foi o pior dia em matéria de conflitos desde que as hostilidades esquentaram, semanas atrás.

 
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