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Após o fenômeno, o susto

O PT, que arrasou no primeiro turno,
vive momentos de ansiedade em
três das principais cidades do país

Uilson Paiva

O Partido dos Trabalhadores está vivendo um estranho momento na reta final da campanha política. No primeiro turno das eleições, o PT sagrou-se o grande vitorioso das urnas. Em relação à eleição municipal de 1996, o número de prefeitos filiados ao partido aumentou de 112 para 174, sua bancada de vereadores subiu 30% e o total de votos que obteve saltou de 7,9 milhões para 11,9 milhões. Para completar, chegou ao segundo turno em dezesseis das 31 cidades onde haverá a rodada dupla. Em razão dessas marcas históricas, o PT começou a marcha para o segundo turno em clima de euforia, o famoso "já ganhou".

Na semana passada, os resultados de novas pesquisas eleitorais revelaram que o disparado favoritismo do PT em algumas cidades diminuiu sensivelmente. Em alguns casos, simplesmente desapareceu. O otimismo sumiu. Foi substituído pelo susto. No Recife, o petista João Paulo Cunha chegou em segundo lugar na corrida à prefeitura, atrás do atual prefeito, Roberto Magalhães, do PFL. Na primeira rodada de pesquisas feita após a contagem dos votos, no entanto, João Paulo assumiu a dianteira, abrindo 9 pontos porcentuais em relação ao adversário. O comitê petista entrou em ritmo de festa. A mais recente sondagem eleitoral foi desanimadora para seus correligionários, pois o pefelista Roberto Magalhães retomou a dianteira. Segundo os dados divulgados na última quarta-feira, Magalhães tem 47% das intenções de voto, contra 45% do candidato do PT. A mesma inversão se deu em Curitiba. Lá, o petista Ângelo Vanhoni também havia ficado em segundo lugar, perdendo para o prefeito Cassio Taniguchi, do PFL. E também era o líder na primeira pesquisa. Sua vantagem sobre o prefeito era de fabulosos 20 pontos. Na semana passada, a pesquisa mostrou que a diferença entre os dois já caiu para 8 pontos e teme-se no PT que Vanhoni talvez não consiga segurar a reação pefelista.

O susto provocado pelas pesquisas ocorreu até mesmo em São Paulo, cidade onde a vitória da candidata do PT, Marta Suplicy, é dada como certa. Marta obteve 58% das intenções de voto na primeira pesquisa feita logo após a abertura das urnas, contra 28% de Paulo Maluf, do PPB, diferença de 30 pontos. Na semana passada, a diferença entre os dois havia caído para 23. Não é lá uma redução significativa, são apenas 7 pontos, mas impressiona quando quem avança é um candidato tido por muitos como o mais novo morto-vivo da política. Na opinião dos especialistas, o processo que atinge o PT, envolvendo euforia seguida de susto, é uma indicação positiva de que o partido vive uma fase de amadurecimento. "Eles viraram celebridades. Portanto, não é de estranhar que, num primeiro momento, as pesquisas registrassem esse otimismo", explica Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope. "Conforme as pessoas vão conhecendo o que eles pregam, alguns se entusiasmam e continuam apoiando suas teses. Outros preferem abandoná-los. É isso que os números estão mostrando."

Num primeiro momento, entendem os especialistas, muitos eleitores declararam apoio ao PT no começo do segundo turno por embalo. Agiram como a dona-de-casa que adquire uma nova marca de sabão em pó na onda de uma boa propaganda. Os publicitários chamam isso de "compra por impulso". Se a consumidora não identifica qualidades no produto recém-comprado, acaba trocando a novidade pela marca que comprava tradicionalmente. Ao surgir como alternativa de poder, o PT está passando por aquilo que os analistas chamam de teste da vidraça. O partido ganha visibilidade, atrai os holofotes e o eleitorado começa a julgar não apenas aqueles políticos contra quem o PT faz acusações, mas os próprios petistas.

Esse processo em que os eleitores começam a olhar o PT com um misto de atenção redobrada e boa dose de desconfiança é acompanhado por uma inversão na forma como o partido é encarado pelos adversários. O PT já não é mais tido como uma agremiação exótica ou de ação restrita a algumas regiões do país. Passou a ser encarado como uma máquina partidária respeitável e temida. Para a cientista política Maria Victoria Benevides, da Universidade de São Paulo, ao se transformar em um partido mais "assustador", com maior poder eleitoral, o PT virou alvo de acusações mais severas. A estratégia dos demais partidos é assustar o eleitor, identificando o PT com greves, badernas, direitos humanos e o Movimento dos Sem Terra. O tom das campanhas por todo o país deixa isso evidente. Em Curitiba, Vanhoni é chamado de "candidato do MST". "A bagunça vai tomar conta do Recife se o PT ganhar", disse Roberto Magalhães, na capital pernambucana. Em São Paulo, Maluf está atacando em duas frentes. Vem batendo forte na tecla de que o PT é o partido das "greves e do MST" e está apelando para uma tentativa de constranger Marta Suplicy por causa das posições da candidata, favorável à união civil de pessoas do mesmo sexo e à diminuição da pena para criminosos que estudarem dentro da cadeia.

Em política, as previsões são irresponsáveis, mas o diretor do instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, lembra que na eleição de 1996 só houve um caso nas capitais em que o candidato vencedor no primeiro turno perdeu no segundo turno. Ele ocorreu em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. O atual governador do Estado, Zeca do PT, ganhou a eleição do primeiro turno com 8 pontos de vantagem sobre seu oponente André Puccinelli, do PMDB. No segundo turno perdeu a eleição por 411 votos, uma diferença de 0,2%. Se a lógica das urnas vingar, o PT perde em Curitiba e no Recife. E ganha em São Paulo.

 
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