Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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Tales Alvarenga
Baleia no Planalto

"Lula goza hoje da imunidade de uma
baleia. Transformou-se quase numa
entidade protegida pelo Ibama. Está
tão confiante que ousa tudo"

O presidente Lula é como aquela baleia que encalhou uma semana atrás numa praia do Rio, atraindo uma multidão de populares que queriam ajudar a salvá-la. Tanto no caso da baleia como no de Lula, os brasileiros torcem por eles. Nem o presidente nem o cetáceo parecem ter entendido isso. Não se esforçam para desencalhar.

Por um impulso irracional, o brasileiro ama as baleias. Não se sabe por que devora sem compaixão o bacalhau, que é cada vez mais raro nos mares do norte. Também aprova Lula, conforme as pesquisas. O que se espera é que as baleias e o presidente façam um esforço para justificar o prestígio que têm. Lula está fazendo exatamente o oposto. Seu governo inventa desnecessariamente uma nova crise a cada semana.

Em viagens ao exterior nos últimos dias, Lula defendeu um projeto de censura à imprensa e chamou os jornalistas de "covardes" por ficarem contra esse projeto. Em outra oportunidade, disse que foi ao Gabão aprender com o ditador de lá como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição. Lula é tão espontâneo como uma baleia. Com freqüência cisma de nadar em direção à praia sem perceber que vai encalhar. Diz absurdos e toma decisões de um amadorismo tosco. As pessoas são complacentes com ele, e a vida segue adiante.

Entre os jornalistas, há mesmo muitos covardes, mas não por se negarem a ficar na defesa de um projeto autoritário do governo para amordaçar a imprensa. Quanto ao desejo de permanecer 37 anos no poder, como quer Lula, essa é uma característica bastante comum nos políticos. Sergio Motta, homem forte do governo de Fernando Henrique, tinha um projeto de vinte anos para os tucanos no Planalto. Agora, descobre-se que o projeto de poder dos petistas é coisa para meio século.

Lula fez as declarações citadas acima em tom de gracejo. Quis mostrar que não leva tais assuntos muito a sério. Talvez essa capacidade de fazer coisas espontaneamente, com jeito brincalhão, explique um pouco da popularidade de Lula. Os brasileiros não são muito exigentes em relação a crianças, índios e pessoas brincalhonas como baleias.

Durante séculos, as baleias foram caçadas e algumas espécies se tornaram candidatas à extinção. Hoje, esse risco não existe mais. Manadas de cetáceos trafegam impunemente pela costa brasileira, para cima e para baixo, sem sofrer ataque de espécie alguma, a não ser a proximidade de barcos cheios de turistas que tiram fotos, abanam as mãos e gritam coisas animadoras para elas.

Lula é tratado com simpatia semelhante. Foi perseguido por uma ditadura e, quando entrou na vida política, sofreu preconceito da elite porque se mostrava disposto a virar o Brasil de pernas para o ar. Apelidado de "sapo barbudo" em sua primeira campanha presidencial, em l989, foi deglutido pela elite e pela classe média. Está perfeitamente integrado ao topo da pirâmide econômica e social. Os preconceitos que havia contra o sindicalista agressivo se transformaram em preconceitos a favor do presidente.

Lula goza hoje da imunidade de uma baleia. Transformou-se quase numa entidade protegida pelo Ibama. Está tão confiante que ousa tudo. Inclusive nadar para a praia.

 
 
 
 
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