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Tales
Alvarenga
Baleia no Planalto
"Lula goza hoje
da imunidade de uma
baleia. Transformou-se quase numa
entidade protegida pelo Ibama. Está
tão confiante que ousa tudo"
O presidente Lula é como aquela baleia
que encalhou uma semana atrás numa praia do Rio, atraindo
uma multidão de populares que queriam ajudar a salvá-la.
Tanto no caso da baleia como no de Lula, os brasileiros torcem por
eles. Nem o presidente nem o cetáceo parecem ter entendido
isso. Não se esforçam para desencalhar.
Por um impulso irracional, o brasileiro ama
as baleias. Não se sabe por que devora sem compaixão
o bacalhau, que é cada vez mais raro nos mares do norte.
Também aprova Lula, conforme as pesquisas. O que se espera
é que as baleias e o presidente façam um esforço
para justificar o prestígio que têm. Lula está
fazendo exatamente o oposto. Seu governo inventa desnecessariamente
uma nova crise a cada semana.
Em viagens ao exterior nos últimos
dias, Lula defendeu um projeto de censura à imprensa e chamou
os jornalistas de "covardes" por ficarem contra esse projeto. Em
outra oportunidade, disse que foi ao Gabão aprender com o
ditador de lá como é que um presidente consegue ficar
37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.
Lula é tão espontâneo como uma baleia. Com freqüência
cisma de nadar em direção à praia sem perceber
que vai encalhar. Diz absurdos e toma decisões de um amadorismo
tosco. As pessoas são complacentes com ele, e a vida segue
adiante.
Entre os jornalistas, há mesmo muitos
covardes, mas não por se negarem a ficar na defesa de um
projeto autoritário do governo para amordaçar a imprensa.
Quanto ao desejo de permanecer 37 anos no poder, como quer Lula,
essa é uma característica bastante comum nos políticos.
Sergio Motta, homem forte do governo de Fernando Henrique, tinha
um projeto de vinte anos para os tucanos no Planalto. Agora, descobre-se
que o projeto de poder dos petistas é coisa para meio século.
Lula fez as declarações citadas
acima em tom de gracejo. Quis mostrar que não leva tais assuntos
muito a sério. Talvez essa capacidade de fazer coisas espontaneamente,
com jeito brincalhão, explique um pouco da popularidade de
Lula. Os brasileiros não são muito exigentes em relação
a crianças, índios e pessoas brincalhonas como baleias.
Durante séculos, as baleias foram caçadas
e algumas espécies se tornaram candidatas à extinção.
Hoje, esse risco não existe mais. Manadas de cetáceos
trafegam impunemente pela costa brasileira, para cima e para baixo,
sem sofrer ataque de espécie alguma, a não ser a proximidade
de barcos cheios de turistas que tiram fotos, abanam as mãos
e gritam coisas animadoras para elas.
Lula é tratado com simpatia semelhante.
Foi perseguido por uma ditadura e, quando entrou na vida política,
sofreu preconceito da elite porque se mostrava disposto a virar
o Brasil de pernas para o ar. Apelidado de "sapo barbudo" em sua
primeira campanha presidencial, em l989, foi deglutido pela elite
e pela classe média. Está perfeitamente integrado
ao topo da pirâmide econômica e social. Os preconceitos
que havia contra o sindicalista agressivo se transformaram em preconceitos
a favor do presidente.
Lula goza hoje da imunidade de uma baleia.
Transformou-se quase numa entidade protegida pelo Ibama. Está
tão confiante que ousa tudo. Inclusive nadar para a praia.
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