Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
O cabelo dele mudou...

...e a carreira de Tom Cruise também não
vai ser a mesma depois do intenso Colateral


Isabela Boscov


Divulgação
Cruise, como o matador Vincent: trabalho é trabalho, e tem de ser
bem-feito


EXCLUSIVO ON-LINE
Galeria de fotos

DA INTERNET
Trailer

Colateral (Collateral, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, parece singularmente despreocupado com o fato de que Tom Cruise encabeça o seu elenco. Na belíssima seqüência introdutória, toda a atenção do filme está centrada em Max (Jamie Foxx), um motorista de táxi que se prepara meticulosamente para iniciar o turno da noite. No meio da confusão ensurdecedora da garagem, Max limpa o carro, coloca uma foto das Ilhas Maldivas no console, fecha as janelas para cortar o barulho e sai para o crepúsculo de Los Angeles como se estivesse em sua própria ilha. Por alguns minutos, ele vai compartilhá-la com sua primeira passageira do dia, uma promotora pública (Jada Pinkett Smith) com quem tem uma discussão sobre a melhor rota – Max conhece todas, e as tem cronometradas – e com quem estabelece uma ligação que vai bem além de um flerte. É uma afinidade, que o diretor Michael Mann explora com deliberação e inspiração. Quando Cruise, de barba e cabelos grisalhos, e vestido de cinza dos pés à cabeça, entra no táxi de Max, todos os alicerces do filme já estão fincados – uma Los Angeles tumultuada e desconectada, e personagens que se definem, se reconhecem e se comunicam através de sua obsessão por trabalho. Todos aqui estão trabalhando madrugada adentro: a promotora, que vai começar um julgamento pela manhã, policiais de homicídio, agentes do FBI, trompetistas de jazz e, claro, Max e o personagem de Cruise, que se apresenta como Vincent.

Acenando com seis notas de 100 dólares, Vincent recruta o taxista para levá-lo a cinco locais diferentes nas horas seguintes. Na primeira parada, um corpo cai de uma janela no quarto andar sobre o carro de Max, que pergunta, apavorado, a seu passageiro: "Você o matou?". Vincent explica que não. As balas de seu revólver e a queda é que mataram o sujeito. Vincent tem outras quatro encomendas para despachar e, já que Max se inteirou involuntariamente desse fato, o que o assassino espera dele é o mesmo que ele próprio tem a oferecer: frieza, expediente e capacidade de propor soluções para os empecilhos que possam surgir. Além de respeito profissional, que será a base sobre a qual, novamente, motorista e passageiro irão estabelecer uma ligação e uma afinidade. É esse dado que de imediato tira Colateral da vala comum dos filmes sobre reféns e captores, ou sobre personalidades antagônicas que têm de conviver. Não há oposição aqui. Há apenas visões diversas, e curiosamente complementares, sobre uma crença comum: trabalho é trabalho, e tem de ser bem-feito.

 
Divulgação
Foxx e Jada: alguns minutos, num táxi, que mostram o que é cinema de categoria

Em qualquer criação de Michael Mann, da série Miami Vice a filmes como O Informante e Ali, essa ética do trabalho, seja ele qual for, é o que existe de mais importante. É condizente que Mann, de 61 anos, dirija Colateral sem pausas para respirar e transparecendo uma inquietação que não é o que se espera de alguém com sua longa experiência. Mann sabe tudo que há para saber sobre como fazer um filme. Mas essa bagagem, em vez de constituir um peso, é um estímulo a mais para que o diretor se imponha um sem-número de dificuldades lógicas. Um filme quase todo rodado à noite (com uma nova geração de câmera digital, muito mais sensível à cor), no encalço de um táxi que percorre sem parar uma das cidades mais espalhadas do mundo, é antes de tudo uma prova de resistência. A de Mann é comparável à de um maratonista, e quem tem de passar no teste é a platéia, desafiada a acompanhá-lo numa jornada espetacularmente intensa.

Mann também não é diretor de se rebaixar a fazer suspense com trunfos escondidos na manga. Como nos melhores noir, as cartas de Colateral estão sempre sobre a mesa. A mais alta delas – e, em tese, a mais arriscada – é obviamente Tom Cruise. Os especialistas da indústria de cinema há tempos vêm detectando um declínio na popularidade dos superastros do calibre de Cruise, Tom Hanks e Julia Roberts. Como a produção é cada vez mais voltada para os espectadores jovens, esses ícones já entrados na meia-idade não significam muito para a nova geração – e suas bilheterias recentes confirmam a teoria. Com Colateral, entretanto, Cruise não tenta agradar a quem não quer ser agradado e, com isso, se coloca um lance à frente do jogo. Vincent é um sociopata sem atenuantes, o que é habitualmente considerado uma opção perigosa para um astro. Cruise torna-a ainda mais difícil: em vez de facilitar a condenação moral de Vincent, ele o dota de senso de humor, de uma inteligência pragmática que não há como não admirar e também de uma personalidade atraente. Sempre melhor em papéis que pedem mais exerção física do que emocional, o ator tira todo o proveito dos diálogos curtos e incisivos do roteirista Stuart Beattie. Quando Max pergunta a Vincent há quanto tempo ele está na sua profissão, o matador devolve, sem um traço de ironia: "No setor privado? Há seis anos". É uma atuação econômica e obstinada, e a primeira em que Cruise deixa de ser Cruise para ser seu personagem. Muito bem orientado por Michael Mann, ele abriu mão inclusive do seu sorriso e da mania de usar o cabelo, aqui cortado à escovinha, como muleta dramática. Ainda que nunca mais se aventure por outro personagem como Vincent, o que Cruise fez em Colateral é o mais inatingível dos feitos para um astro de sua categoria: uma reinvenção.

 
 
 
 
topovoltar