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Cinema
O cabelo dele mudou...
...e
a carreira de Tom
Cruise também não
vai ser a mesma depois do intenso Colateral

Isabela Boscov
Divulgação
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Cruise, como o
matador
Vincent: trabalho é trabalho, e tem de ser
bem-feito |
Colateral
(Collateral, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta
sexta-feira no país, parece singularmente despreocupado com
o fato de que Tom Cruise encabeça o seu elenco. Na belíssima
seqüência introdutória, toda a atenção
do filme está centrada em Max (Jamie Foxx), um motorista
de táxi que se prepara meticulosamente para iniciar o turno
da noite. No meio da confusão ensurdecedora da garagem, Max
limpa o carro, coloca uma foto das Ilhas Maldivas no console, fecha
as janelas para cortar o barulho e sai para o crepúsculo
de Los Angeles como se estivesse em sua própria ilha. Por
alguns minutos, ele vai compartilhá-la com sua primeira passageira
do dia, uma promotora pública (Jada Pinkett Smith) com quem
tem uma discussão sobre a melhor rota Max conhece
todas, e as tem cronometradas e com quem estabelece uma ligação
que vai bem além de um flerte. É uma afinidade, que
o diretor Michael Mann explora com deliberação e inspiração.
Quando Cruise, de barba e cabelos grisalhos, e vestido de cinza
dos pés à cabeça, entra no táxi de Max,
todos os alicerces do filme já estão fincados
uma Los Angeles tumultuada e desconectada, e personagens que se
definem, se reconhecem e se comunicam através de sua obsessão
por trabalho. Todos aqui estão trabalhando madrugada adentro:
a promotora, que vai começar um julgamento pela manhã,
policiais de homicídio, agentes do FBI, trompetistas de jazz
e, claro, Max e o personagem de Cruise, que se apresenta como Vincent.
Acenando
com seis notas de 100 dólares, Vincent recruta o taxista
para levá-lo a cinco locais diferentes nas horas seguintes.
Na primeira parada, um corpo cai de uma janela no quarto andar sobre
o carro de Max, que pergunta, apavorado, a seu passageiro: "Você
o matou?". Vincent explica que não. As balas de seu revólver
e a queda é que mataram o sujeito. Vincent tem outras quatro
encomendas para despachar e, já que Max se inteirou involuntariamente
desse fato, o que o assassino espera dele é o mesmo que ele
próprio tem a oferecer: frieza, expediente e capacidade de
propor soluções para os empecilhos que possam surgir.
Além de respeito profissional, que será a base sobre
a qual, novamente, motorista e passageiro irão estabelecer
uma ligação e uma afinidade. É esse dado que
de imediato tira Colateral da vala comum dos filmes sobre
reféns e captores, ou sobre personalidades antagônicas
que têm de conviver. Não há oposição
aqui. Há apenas visões diversas, e curiosamente complementares,
sobre uma crença comum: trabalho é trabalho, e tem
de ser bem-feito.
Divulgação
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| Foxx e Jada: alguns
minutos, num táxi, que mostram o que é cinema
de categoria |
Em qualquer
criação de Michael Mann, da série Miami
Vice a filmes como O Informante e Ali, essa ética
do trabalho, seja ele qual for, é o que existe de mais importante.
É condizente que Mann, de 61 anos, dirija Colateral
sem pausas para respirar e transparecendo uma inquietação
que não é o que se espera de alguém com sua
longa experiência. Mann sabe tudo que há para saber
sobre como fazer um filme. Mas essa bagagem, em vez de constituir
um peso, é um estímulo a mais para que o diretor se
imponha um sem-número de dificuldades lógicas. Um
filme quase todo rodado à noite (com uma nova geração
de câmera digital, muito mais sensível à cor),
no encalço de um táxi que percorre sem parar uma das
cidades mais espalhadas do mundo, é antes de tudo uma prova
de resistência. A de Mann é comparável à
de um maratonista, e quem tem de passar no teste é a platéia,
desafiada a acompanhá-lo numa jornada espetacularmente intensa.
Mann também
não é diretor de se rebaixar a fazer suspense com
trunfos escondidos na manga. Como nos melhores noir, as cartas de
Colateral estão sempre sobre a mesa. A mais alta delas
e, em tese, a mais arriscada é obviamente Tom
Cruise. Os especialistas da indústria de cinema há
tempos vêm detectando um declínio na popularidade dos
superastros do calibre de Cruise, Tom Hanks e Julia Roberts. Como
a produção é cada vez mais voltada para os
espectadores jovens, esses ícones já entrados na meia-idade
não significam muito para a nova geração
e suas bilheterias recentes confirmam a teoria. Com Colateral,
entretanto, Cruise não tenta agradar a quem não quer
ser agradado e, com isso, se coloca um lance à frente do
jogo. Vincent é um sociopata sem atenuantes, o que é
habitualmente considerado uma opção perigosa para
um astro. Cruise torna-a ainda mais difícil: em vez de facilitar
a condenação moral de Vincent, ele o dota de senso
de humor, de uma inteligência pragmática que não
há como não admirar e também de uma personalidade
atraente. Sempre melhor em papéis que pedem mais exerção
física do que emocional, o ator tira todo o proveito dos
diálogos curtos e incisivos do roteirista Stuart Beattie.
Quando Max pergunta a Vincent há quanto tempo ele está
na sua profissão, o matador devolve, sem um traço
de ironia: "No setor privado? Há seis anos". É uma
atuação econômica e obstinada, e a primeira
em que Cruise deixa de ser Cruise para ser seu personagem. Muito
bem orientado por Michael Mann, ele abriu mão inclusive do
seu sorriso e da mania de usar o cabelo, aqui cortado à escovinha,
como muleta dramática. Ainda que nunca mais se aventure por
outro personagem como Vincent, o que Cruise fez em Colateral
é o mais inatingível dos feitos para um astro de sua
categoria: uma reinvenção.
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