Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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Idéias
O enigma Getúlio Vargas

No cinqüentenário da morte do presidente,
faltaram obras sérias para
decifrar o
personagem e o seu legado


Chrystiane Silva e Jerônimo Teixeira

 

BIBLIOGRAFIA ESCASSA
O memorialismo de Tavares e as teorias conspiratórias
de Aguiar são as únicas novidades na estante getulista


EXCLUSIVO ON-LINE
Especial Getúlio Vargas

Na manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas apontou um revólver 32 com cabo de madrepérola para o próprio peito e puxou o gatilho. Deixou uma carta em que dizia, memoravelmente, "saio da vida para entrar na história". Passados cinqüenta anos do suicídio, a bela frase retórica poderia, quem sabe, ser contestada. A figura e o legado de Getúlio continuam vivos, e pedem para ser decifrados. Ele é um personagem de dimensões míticas, um dos raros políticos do passado que gerações mais recentes mencionam com familiaridade. Sua herança se faz sentir no dia-a-dia do Brasil: nas leis trabalhistas, no funcionamento de companhias estatais como a Petrobras ou de entidades como o Senai, bem como no nacionalismo que ainda grassa em certas esferas ou no apreço popular por figuras salvadoras, que desempenhem o papel de "pai dos pobres". Por isso é tão surpreendente o vácuo de publicações com que foi saudado o aniversário da morte de Getúlio Vargas. O desinteresse ou a incapacidade de produzir obras de folêgo a respeito do presidente e de seus quase vinte anos de governo têm algo de escandaloso, tendo em vista que até mesmo a tarefa básica de elaborar uma biografia decente do político ainda está por realizar.

Apenas cinco obras sobre Vargas pipocaram pelas livrarias aproveitando o cinqüentenário de sua morte. Predomina entre elas um certo tom sensacionalista na reconstituição dos últimos dias do presidente. Vitória na Derrota – A Morte de Getúlio Vargas (Casa da Palavra; 248 páginas; 39,90 reais), de Ronaldo Conde Aguiar, traz estampada na capa a pergunta fatal: "Quem levou Getúlio ao suicídio?". O culpado, somos levados a concluir, é um monstro compósito, uma hidra com as cabeças do jornalista de oposição Carlos Lacerda, dos setores reacionários das Forças Armadas e, claro, do capital internacional. Sociólogo da Universidade de Brasília, Aguiar diz, na introdução, que não escreveu o livro para ser lido apenas por seus pares. O desejo de popularizar o conhecimento seria elogiável, se não fosse perseguido ao custo de alguns expedientes duvidosos – volta e meia, o autor cede à tentação de "reproduzir" os pensamentos mais íntimos de Vargas. O mesmo recurso ficcional, aliás, é utilizado pelo jornalista Flávio Tavares no seu ensaio memorialístico sobre os últimos dias de Vargas em O Dia em que Getúlio Matou Allende (Record; 336 páginas; 41,90 reais). Em Quem Matou Vargas, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony estica a ficção até o limite, acompanhando o pensamento do presidente na hora da morte. Reedição revisada e anotada de uma reportagem publicada em capítulos semanais na revista Manchete, em 1967, o livro de Cony leva a história naturalmente dramática de Getúlio ao histrionismo. Sua narrativa kitsch não se constrange nem diante das mais estranhas metáforas. Lá pelas tantas, o jornalista Samuel Wainer, dono do jornal getulista Última Hora, é comparado a um cão pastor, o que faz de Getúlio uma "ovelha apetitosa", guardando "o aconchego do poder" em sua lã. Assim como a obra de Cony, Vargas, Uma Biografia Política e 1954 – Um Tiro no Coração também são relançamentos – ambos assinados pelo historiador gaúcho Hélio Silva nos anos 60 e 80.


CRISE POLÍTICA
Carlos Lacerda, opositor de Getúlio Vargas, foi ferido por um pistoleiro ligado à guarda do presidente. O atentado precipitou o fim trágico de Vargas, que aparece à esquerda em sua última foto pública

Vitória na Derrota e Quem Matou Vargas são obras irmãs na paranóia com que exploram o episódio central da crise política que conduziu Vargas ao gesto extremo: o atentado da Rua Toneleros, no qual um pistoleiro ligado à guarda pessoal do presidente feriu o jornalista de oposição Carlos Lacerda no pé e matou o major-aviador Rubem Florentino Vaz. Há de fato muitos pontos obscuros no inquérito que a Aeronáutica conduziu sobre o crime – o prontuário médico de Lacerda, por exemplo, desapareceu misteriosamente. Com esse flanco aberto, os autores se permitem urdir conspirações hipotéticas para derrubar Vargas. Cony chega a sugerir que a CIA pode ter um dedo no episódio – em um silogismo acrobático, o historiador diletante cita a participação da agência de espionagem americana no golpe de Estado que depôs o presidente chileno Salvador Allende como evidência de sua ingerência sobre um assassinato cometido no Rio de Janeiro.

O esforço de transformar o suicida em mártir da causa nacionalista responde à nostalgia que ambos os autores (Aguiar de forma mais explícita) nutrem pelo "projeto" getulista. Mas não são apenas eles que nutrem esse sentimento. Outra manifestação dele está na mostra que o BNDES realizou recentemente, no Rio, com fotos e quadros de Vargas. A mostra tinha o nome de Bota o Retrato do Velho Outra Vez, tirado da conhecida marcha de Carnaval composta por Haroldo Lobo e Marino Pinto em homenagem a Vargas e gravada por Francisco Alves em 1951. O presidente do BNDES, Carlos Lessa, insiste na atualidade de Getúlio Vargas: "Hoje, continua havendo fome, como há cinqüenta anos. O Estado e a sociedade discutiam a questão e continuam discutindo". Que alguns problemas persistam, porém, não significa que as fórmulas usadas na época de Vargas para solucioná-los ainda sejam válidas. A Justiça do Trabalho e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criações de Vargas, permanecem praticamente intactas em meio a uma realidade distinta daquela em que foram implementadas – e se transformaram nos maiores empecilhos à criação de empregos no país.

 
Reprodução

MODERNIZANDO NAÇÕES
Roosevelt e Vargas (à esq.) visitam base militar americana em Natal: líderes criativos que deixaram herança duradoura. Ao lado, Getúlio visita o estande do Senai na Feira Nacional da Indústria, em 1942

O chamado "Sistema S", que reúne entidades conhecidas por siglas como Sesc, Sesi, Sest, Senac, Senai e Sebrae, também permanece intacto, com um orçamento de cerca de 7 bilhões de reais. O sistema treina trabalhadores da indústria e do comércio com recursos de uma contribuição social compulsória incidente sobre a folha salarial das empresas. Quando Vargas criou as bases do sistema, o Brasil tinha pouco mais de 41 milhões de habitantes. De cada dez trabalhadores, seis viviam da agricultura. Faltavam escolas, áreas de lazer e centros de treinamento. Desde então, as circunstâncias históricas mudaram. O Brasil modernizou-se, urbanizou-se. No entanto, todas as iniciativas para extinguir ou ajustar o sistema fracassaram. Seus defensores lembram os benefícios proporcionados pelas nove entidades do "Sistema S" que prestam serviços sociais e mantêm escolas e centros de treinamento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um dos maiores entusiastas desse legado getulista, pelo qual diz ter uma dívida de gratidão – foi no Senai que Lula fez seu curso de torneiro mecânico, entre 1961 e 1963. "O Senai foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida", disse o presidente numa entrevista em outubro de 2002. O Senai, na perspectiva do presidente, funcionaria como uma espécie de elevador social. Graças ao curso, Lula diz ter sido o primeiro entre os oito irmãos a ter uma profissão, a ganhar mais que o salário mínimo, a comprar uma casa própria, um carro, uma televisão e uma geladeira. No entanto, o caráter compulsório das contribuições que sustentam o "Sistema S" vem sendo muito criticado por onerar ainda mais a folha de salários num momento em que a carga tributária brasileira beira os inacreditáveis 40%. "Faz mais sentido montar um sistema de contribuição não-compulsória", diz Antoninho Trevisan, dono de uma das maiores empresas de consultoria e auditoria do país.

O brasilianista Kenneth Maxwell compara Vargas a seu contemporâneo americano Franklin Delano Roosevelt. Ambos teriam criado grandes estruturas estatais que eram inovadoras a seu tempo mas que acabaram se convertendo em camisas-de-força para os governos atuais. "Nos Estados Unidos, essas amarras só se afrouxaram na era Reagan. No Brasil, creio que ainda estão se afrouxando", diz Maxwell. A omissão da academia e a renúncia da inteligência brasileira em conduzir uma reavaliação profunda da figura e do legado de Getúlio Vargas contribuem para o sufoco permanente das camisas-de-força populistas. A herança construtiva do líder gaúcho fica reduzida, assim, a seu aspecto mais conservador e verdadeiramente passadista – o getulismo. Uma biografia de fôlego poderia recuperar exatamente o ímpeto renovador de um líder que tomou o poder em 1930 para derrubar as oligarquias decrépitas da Velha República. Getúlio Vargas, afinal, é maior do que o getulismo. "Ele respondeu às exigências de seu tempo. Não faz sentido pregar um regresso ao seu projeto nacionalista, assim como não faz sentido dizer que ele estava errado", diz o historiador Boris Fausto, autor de A Revolução de 1930.

 
 
 
 
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