|
|
Idéias
O enigma
Getúlio
Vargas
No
cinqüentenário da morte do presidente,
faltaram obras sérias para decifrar
o
personagem e o seu legado

Chrystiane Silva e Jerônimo
Teixeira
 |
 |
|
BIBLIOGRAFIA
ESCASSA
O memorialismo
de Tavares e as teorias conspiratórias
de Aguiar são as únicas novidades na estante
getulista
|
Na manhã
de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas apontou um revólver
32 com cabo de madrepérola para o próprio peito e
puxou o gatilho. Deixou uma carta em que dizia, memoravelmente,
"saio da vida para entrar na história". Passados cinqüenta
anos do suicídio, a bela frase retórica poderia, quem
sabe, ser contestada. A figura e o legado de Getúlio continuam
vivos, e pedem para ser decifrados. Ele é um personagem de
dimensões míticas, um dos raros políticos do
passado que gerações mais recentes mencionam com familiaridade.
Sua herança se faz sentir no dia-a-dia do Brasil: nas leis
trabalhistas, no funcionamento de companhias estatais como a Petrobras
ou de entidades como o Senai, bem como no nacionalismo que ainda
grassa em certas esferas ou no apreço popular por figuras
salvadoras, que desempenhem o papel de "pai dos pobres". Por isso
é tão surpreendente o vácuo de publicações
com que foi saudado o aniversário da morte de Getúlio
Vargas. O desinteresse ou a incapacidade de produzir obras de folêgo
a respeito do presidente e de seus quase vinte anos de governo têm
algo de escandaloso, tendo em vista que até mesmo a tarefa
básica de elaborar uma biografia decente do político
ainda está por realizar.
Apenas cinco
obras sobre Vargas pipocaram pelas livrarias aproveitando o cinqüentenário
de sua morte. Predomina entre elas um certo tom sensacionalista
na reconstituição dos últimos dias do presidente.
Vitória na Derrota A Morte de Getúlio
Vargas (Casa da Palavra; 248 páginas; 39,90 reais),
de Ronaldo Conde Aguiar, traz estampada na capa a pergunta fatal:
"Quem levou Getúlio ao suicídio?". O culpado, somos
levados a concluir, é um monstro compósito, uma hidra
com as cabeças do jornalista de oposição Carlos
Lacerda, dos setores reacionários das Forças Armadas
e, claro, do capital internacional. Sociólogo da Universidade
de Brasília, Aguiar diz, na introdução, que
não escreveu o livro para ser lido apenas por seus pares.
O desejo de popularizar o conhecimento seria elogiável, se
não fosse perseguido ao custo de alguns expedientes duvidosos
volta e meia, o autor cede à tentação
de "reproduzir" os pensamentos mais íntimos de Vargas. O
mesmo recurso ficcional, aliás, é utilizado pelo jornalista
Flávio Tavares no seu ensaio memorialístico sobre
os últimos dias de Vargas em O Dia em que Getúlio
Matou Allende (Record; 336 páginas; 41,90 reais).
Em Quem Matou Vargas, o jornalista e escritor Carlos Heitor
Cony estica a ficção até o limite, acompanhando
o pensamento do presidente na hora da morte. Reedição
revisada e anotada de uma reportagem publicada em capítulos
semanais na revista Manchete, em 1967, o livro de Cony leva
a história naturalmente dramática de Getúlio
ao histrionismo. Sua narrativa kitsch não se constrange
nem diante das mais estranhas metáforas. Lá pelas
tantas, o jornalista Samuel Wainer, dono do jornal getulista Última
Hora, é comparado a um cão pastor, o que faz de
Getúlio uma "ovelha apetitosa", guardando "o aconchego do
poder" em sua lã. Assim como a obra de Cony, Vargas, Uma
Biografia Política e 1954 Um Tiro no Coração
também são relançamentos ambos assinados
pelo historiador gaúcho Hélio Silva nos anos 60 e
80.
 |
|
CRISE
POLÍTICA
Carlos Lacerda, opositor de Getúlio
Vargas, foi ferido por um pistoleiro ligado à guarda
do presidente. O atentado precipitou o fim trágico
de Vargas, que aparece à esquerda em sua última
foto pública
|
Vitória
na Derrota e Quem Matou Vargas são obras irmãs
na paranóia com que exploram o episódio central da
crise política que conduziu Vargas ao gesto extremo: o atentado
da Rua Toneleros, no qual um pistoleiro ligado à guarda pessoal
do presidente feriu o jornalista de oposição Carlos
Lacerda no pé e matou o major-aviador Rubem Florentino Vaz.
Há de fato muitos pontos obscuros no inquérito que
a Aeronáutica conduziu sobre o crime o prontuário
médico de Lacerda, por exemplo, desapareceu misteriosamente.
Com esse flanco aberto, os autores se permitem urdir conspirações
hipotéticas para derrubar Vargas. Cony chega a sugerir que
a CIA pode ter um dedo no episódio em um silogismo
acrobático, o historiador diletante cita a participação
da agência de espionagem americana no golpe de Estado que
depôs o presidente chileno Salvador Allende como evidência
de sua ingerência sobre um assassinato cometido no Rio de
Janeiro.
O esforço
de transformar o suicida em mártir da causa nacionalista
responde à nostalgia que ambos os autores (Aguiar de forma
mais explícita) nutrem pelo "projeto" getulista. Mas não
são apenas eles que nutrem esse sentimento. Outra manifestação
dele está na mostra que o BNDES realizou recentemente, no
Rio, com fotos e quadros de Vargas. A mostra tinha o nome de Bota
o Retrato do Velho Outra Vez, tirado da conhecida marcha de
Carnaval composta por Haroldo Lobo e Marino Pinto em homenagem a
Vargas e gravada por Francisco Alves em 1951. O presidente do BNDES,
Carlos Lessa, insiste na atualidade de Getúlio Vargas: "Hoje,
continua havendo fome, como há cinqüenta anos. O Estado
e a sociedade discutiam a questão e continuam discutindo".
Que alguns problemas persistam, porém, não significa
que as fórmulas usadas na época de Vargas para solucioná-los
ainda sejam válidas. A Justiça do Trabalho e a Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT), criações de Vargas, permanecem
praticamente intactas em meio a uma realidade distinta daquela em
que foram implementadas e se transformaram nos maiores empecilhos
à criação de empregos no país.
Reprodução
 |
 |
|
MODERNIZANDO
NAÇÕES
Roosevelt
e Vargas (à esq.)
visitam base militar americana em Natal: líderes
criativos que deixaram herança duradoura. Ao lado,
Getúlio visita o estande do Senai na Feira Nacional
da Indústria, em 1942
|
O chamado
"Sistema S", que reúne entidades conhecidas por siglas como
Sesc, Sesi, Sest, Senac, Senai e Sebrae, também permanece
intacto, com um orçamento de cerca de 7 bilhões de
reais. O sistema treina trabalhadores da indústria e do comércio
com recursos de uma contribuição social compulsória
incidente sobre a folha salarial das empresas. Quando Vargas criou
as bases do sistema, o Brasil tinha pouco mais de 41 milhões
de habitantes. De cada dez trabalhadores, seis viviam da agricultura.
Faltavam escolas, áreas de lazer e centros de treinamento.
Desde então, as circunstâncias históricas mudaram.
O Brasil modernizou-se, urbanizou-se. No entanto, todas as iniciativas
para extinguir ou ajustar o sistema fracassaram. Seus defensores
lembram os benefícios proporcionados pelas nove entidades
do "Sistema S" que prestam serviços sociais e mantêm
escolas e centros de treinamento. O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva é um dos maiores entusiastas desse legado getulista,
pelo qual diz ter uma dívida de gratidão foi
no Senai que Lula fez seu curso de torneiro mecânico, entre
1961 e 1963. "O Senai foi a melhor coisa que aconteceu na minha
vida", disse o presidente numa entrevista em outubro de 2002. O
Senai, na perspectiva do presidente, funcionaria como uma espécie
de elevador social. Graças ao curso, Lula diz ter sido o
primeiro entre os oito irmãos a ter uma profissão,
a ganhar mais que o salário mínimo, a comprar uma
casa própria, um carro, uma televisão e uma geladeira.
No entanto, o caráter compulsório das contribuições
que sustentam o "Sistema S" vem sendo muito criticado por onerar
ainda mais a folha de salários num momento em que a carga
tributária brasileira beira os inacreditáveis 40%.
"Faz mais sentido montar um sistema de contribuição
não-compulsória", diz Antoninho Trevisan, dono de
uma das maiores empresas de consultoria e auditoria do país.
O brasilianista
Kenneth Maxwell compara Vargas a seu contemporâneo americano
Franklin Delano Roosevelt. Ambos teriam criado grandes estruturas
estatais que eram inovadoras a seu tempo mas que acabaram se convertendo
em camisas-de-força para os governos atuais. "Nos Estados
Unidos, essas amarras só se afrouxaram na era Reagan. No
Brasil, creio que ainda estão se afrouxando", diz Maxwell.
A omissão da academia e a renúncia da inteligência
brasileira em conduzir uma reavaliação profunda da
figura e do legado de Getúlio Vargas contribuem para o sufoco
permanente das camisas-de-força populistas. A herança
construtiva do líder gaúcho fica reduzida, assim,
a seu aspecto mais conservador e verdadeiramente passadista
o getulismo. Uma biografia de fôlego poderia recuperar exatamente
o ímpeto renovador de um líder que tomou o poder em
1930 para derrubar as oligarquias decrépitas da Velha República.
Getúlio Vargas, afinal, é maior do que o getulismo.
"Ele respondeu às exigências de seu tempo. Não
faz sentido pregar um regresso ao seu projeto nacionalista, assim
como não faz sentido dizer que ele estava errado", diz o
historiador Boris Fausto, autor de A Revolução
de 1930.
|