Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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Beleza
Miss Bisturi

Chineses promovem o primeiro
concurso de beleza só para
mulheres que fizeram plástica


Giuliana Bergamo


AFP
Imagine China
O natural versus o retocado: a beleza "pura" de Meng Zhang, miss China 2004 (à esq.), e a propaganda de uma clínica de plástica com fotos de "antes e depois" de uma jovem operada


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A abertura econômica e o crescimento avassalador que a ela se seguiu deflagraram uma revolução de costumes na China. Um dos sinais mais visíveis dessa reviravolta é o crescimento da indústria da beleza no país. Lojas de cosméticos, salões e clínicas de estética proliferam nas grandes cidades. Também há cartazes nas ruas que enaltecem a cirurgia plástica. A escritora Lucy Hao, de 24 anos, personifica o entusiasmo pelas formas esculpidas por bisturi que tomou conta das chinesas. Depois de gastar 50.000 dólares em doze cirurgias, que lhe mudaram até a batata das pernas, ela transformou-se em garota-propaganda de um centro de cirurgia plástica. Suas fotos de "antes e depois" estão em todos os cantos. O contingente de mulheres que se submetem a operações estéticas é tão grande que, em novembro próximo, será realizado o Miss Bisturi, o primeiro concurso de beleza no mundo destinado única e exclusivamente a moças "plastificadas". A regra é muito clara: a operação deve ter sido realizada até maio último e a candidata precisa provar a mudança física com um documento assinado pelo cirurgião.



Foto divulgação/Satoshi/Maxim Magazine

Sob o ditador Mao Tsé-tung, a preocupação com a aparência era tida como uma manifestação de decadência pequeno-burguesa – e, como tal, podia ser alvo de punições por parte do regime. Essa situação perdurou até bem depois da morte de Mao, em 1976. Tanto que os concursos de beleza demoraram a ser autorizados: só em meados dos anos 90 eles começaram a ser organizados na China. Hoje, oito de cada dez mulheres dos grandes centros urbanos seguem alguma dieta de emagrecimento. Delas, menos de 10% precisam realmente perder peso por questões de saúde. As outras fazem regime apenas para alcançar uma silhueta mais delgada. E o sonho da maioria das chinesas que recorrem à plástica é obter um aspecto mais ocidental. Quanto mais parecidas com as atrizes americanas, melhor – a demanda é por seios avantajados por implantes de silicone, olhos arredondados, nariz e queixo mais estreitos, pálpebras menores e quadris delineados em sessões de lipoescultura.

A idéia de eleger a mais bela mulher submetida a uma plástica surgiu em maio deste ano, depois que a estudante Yang Yuan, de 18 anos, foi desclassificada do principal concurso de beleza do país, o Miss China. Os organizadores descobriram que ela havia se submetido a onze operações estéticas. "O objetivo dos nossos concursos é priorizar a beleza natural da mulher chinesa", disse a VEJA Errol Pang, responsável pela organização de um dos concursos. A vencedora do Miss China 2004, a estudante Meng Zhang, de 23 anos, tem os traços típicos de uma oriental: o rosto redondo, o nariz largo e os olhos rasgados. Quando exibia essas características, Yang Yuan nunca conseguiu chegar a uma final de concurso de beleza. Isso só aconteceu depois que ela mudou a sua fisionomia na mesa de cirurgia – e, curiosamente, perdeu o que seria a "pureza" chinesa. Com a desclassificação de Yang Yuan, alguns empresários tiveram a esperteza de criar o Miss Bisturi.


Reuters
Revire-se, camarada Mao: os cartazes apregoam que bom mesmo é chinesa com seios siliconados

O mais tradicional dos concursos de beleza, o Miss Universo, liberou a participação de candidatas submetidas a cirurgias plásticas em 1990. Vários países seguiram os mesmos passos e hoje a maioria não faz nenhuma restrição à beleza esculpida pelo bisturi. Toda miss Venezuela, antes de concorrer ao título mundial, passa necessariamente por intervenções estéticas até ficar, digamos, no ponto. Em 2001, a gaúcha Juliana Borges foi eleita miss Brasil depois de ser integralmente reconstruída em operações plásticas. Ela passou por quase duas dezenas de cirurgias. Corrigiu as orelhas de abano, colocou silicone nos seios, fez lipoaspirações, removeu algumas pintas e fez preenchimento nos dois lados do maxilar, "para dar mais ângulo ao rosto". Antes as normas eram mais ao estilo Mao. Em 1954, quando Martha Rocha foi eleita miss Brasil, as concorrentes não podiam pintar os cabelos nem sequer usar batom. A maquiagem só foi permitida três anos depois, e os cabelos pintados, apenas em 1965. Como é natural que os concursos de beleza se adaptem às mudanças de comportamento, não demorará para que a miss China seja uma moça com olhos arredondados. É a marcha inexorável da história, camaradas.

 
 
 
 
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