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Beleza
Miss Bisturi
Chineses promovem o primeiro
concurso de beleza só para
mulheres que fizeram plástica

Giuliana Bergamo
AFP
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Imagine China
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| O natural versus o retocado: a
beleza "pura" de Meng Zhang, miss China 2004 (à
esq.), e a propaganda de uma clínica de plástica
com fotos de "antes e depois" de uma jovem operada
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A abertura econômica e o crescimento
avassalador que a ela se seguiu deflagraram uma revolução
de costumes na China. Um dos sinais mais visíveis dessa reviravolta
é o crescimento da indústria da beleza no país.
Lojas de cosméticos, salões e clínicas de estética
proliferam nas grandes cidades. Também há cartazes
nas ruas que enaltecem a cirurgia plástica. A escritora Lucy
Hao, de 24 anos, personifica o entusiasmo pelas formas esculpidas
por bisturi que tomou conta das chinesas. Depois de gastar 50.000
dólares em doze cirurgias, que lhe mudaram até a batata
das pernas, ela transformou-se em garota-propaganda de um centro
de cirurgia plástica. Suas fotos de "antes e depois" estão
em todos os cantos. O contingente de mulheres que se submetem a
operações estéticas é tão grande
que, em novembro próximo, será realizado o Miss Bisturi,
o primeiro concurso de beleza no mundo destinado única e
exclusivamente a moças "plastificadas". A regra é
muito clara: a operação deve ter sido realizada até
maio último e a candidata precisa provar a mudança
física com um documento assinado pelo cirurgião.

Foto divulgação/Satoshi/Maxim
Magazine |
Sob o ditador Mao Tsé-tung, a preocupação
com a aparência era tida como uma manifestação
de decadência pequeno-burguesa e, como tal, podia ser
alvo de punições por parte do regime. Essa situação
perdurou até bem depois da morte de Mao, em 1976. Tanto que
os concursos de beleza demoraram a ser autorizados: só em
meados dos anos 90 eles começaram a ser organizados na China.
Hoje, oito de cada dez mulheres dos grandes centros urbanos seguem
alguma dieta de emagrecimento. Delas, menos de 10% precisam realmente
perder peso por questões de saúde. As outras fazem
regime apenas para alcançar uma silhueta mais delgada. E
o sonho da maioria das chinesas que recorrem à plástica
é obter um aspecto mais ocidental. Quanto mais parecidas
com as atrizes americanas, melhor a demanda é por
seios avantajados por implantes de silicone, olhos arredondados,
nariz e queixo mais estreitos, pálpebras menores e quadris
delineados em sessões de lipoescultura.
A idéia de eleger a mais bela mulher
submetida a uma plástica surgiu em maio deste ano, depois
que a estudante Yang Yuan, de 18 anos, foi desclassificada do principal
concurso de beleza do país, o Miss China. Os organizadores
descobriram que ela havia se submetido a onze operações
estéticas. "O objetivo dos nossos concursos é priorizar
a beleza natural da mulher chinesa", disse a VEJA Errol Pang, responsável
pela organização de um dos concursos. A vencedora
do Miss China 2004, a estudante Meng Zhang, de 23 anos, tem os traços
típicos de uma oriental: o rosto redondo, o nariz largo e
os olhos rasgados. Quando exibia essas características, Yang
Yuan nunca conseguiu chegar a uma final de concurso de beleza. Isso
só aconteceu depois que ela mudou a sua fisionomia na mesa
de cirurgia e, curiosamente, perdeu o que seria a "pureza"
chinesa. Com a desclassificação de Yang Yuan, alguns
empresários tiveram a esperteza de criar o Miss Bisturi.
Reuters
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| Revire-se, camarada Mao: os cartazes apregoam
que bom mesmo é chinesa com seios siliconados |
O mais tradicional dos concursos de beleza,
o Miss Universo, liberou a participação de candidatas
submetidas a cirurgias plásticas em 1990. Vários países
seguiram os mesmos passos e hoje a maioria não faz nenhuma
restrição à beleza esculpida pelo bisturi.
Toda miss Venezuela, antes de concorrer ao título mundial,
passa necessariamente por intervenções estéticas
até ficar, digamos, no ponto. Em 2001, a gaúcha Juliana
Borges foi eleita miss Brasil depois de ser integralmente reconstruída
em operações plásticas. Ela passou por quase
duas dezenas de cirurgias. Corrigiu as orelhas de abano, colocou
silicone nos seios, fez lipoaspirações, removeu algumas
pintas e fez preenchimento nos dois lados do maxilar, "para dar
mais ângulo ao rosto". Antes as normas eram mais ao estilo
Mao. Em 1954, quando Martha Rocha foi eleita miss Brasil, as concorrentes
não podiam pintar os cabelos nem sequer usar batom. A maquiagem
só foi permitida três anos depois, e os cabelos pintados,
apenas em 1965. Como é natural que os concursos de beleza
se adaptem às mudanças de comportamento, não
demorará para que a miss China seja uma moça com olhos
arredondados. É a marcha inexorável da história,
camaradas.
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