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Olimpíadas
Medalhas biônicas
Engenheiros e cientistas
são os
atletas invisíveis dos Jogos. Mesmo
na vela, até há pouco tida como um
esporte intuitivo,
os computadores
podem fazer diferença

André Fontenelle,
de Atenas
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| Regata da classe 470: meteorologistas exclusivos
ajudam na briga pelo ouro |
É mesmo uma contradição.
No esporte olímpico, os limites do homem foram superados
há muito tempo. Dos 10 500 atletas reunidos em Atenas, todos
os que estão disputando as competições apenas
com os recursos do próprio corpo não têm nenhuma
chance de vencer. Se o doping farmacológico nunca esteve
tão vigiado e o genético ainda é sonho de alguns
e temor de muitos, há outro tipo de estimulante a
tecnologia empurrando os competidores na direção
de resultados cada vez melhores. Não há quem condene
seu uso. Pelo contrário. Existe uma corrida cada vez mais
intensa pela descoberta de recursos que impulsionem os atletas para
além dos recordes. Disputa-se em laboratórios a prova
para definir quem terá, na arena, as ferramentas que farão
novos campeões. Na prática, os jogos são uma
espécie de videogame. Depois de encontrar o melhor material
humano disponível, técnicos e cientistas o programam
e aparelham para competir. Isso vale tanto para a esgrima, a mais
informatizada disputa olímpica, como para o atletismo, a
natação ou qualquer esporte coletivo. As seleções
brasileiras de voleibol, que até sexta-feira seguiam invictas,
são dois exemplos evidentes. Seus jogadores podem ser os
melhores do mundo, mas também é espantosa a eficiência
dos programas de computador que os auxiliam à beira da quadra.
Foveró karfí
Que cortada! , comemorava o placar eletrônico
a cada ponto marcado no jogo do time masculino na terça-feira
passada, contra a Itália. Atrás da quadra, entre bocejos,
a estatística Roberta Giglio, da comissão técnica
brasileira, teclava comandos num pequeno computador e transmitia
os dados processados a outro laptop, operado por um auxiliar no
banco de reservas. Por um fone de ouvido sem fio, o técnico
Bernardinho recebia informações para a próxima
jogada. O software que Roberta aperfeiçoou indica quem, na
quadra oposta, apresentará mais dificuldade para receber
o saque, para onde esse jogador deverá mandar a bola,
qual atacante adversário tem chance de ser acionado e que
posição de bloqueio pode ser eficiente contra ele.
Com um banco de dados de centenas de partidas, Roberta vara noites
sem dormir alimentando o micro com as mais de 1 000 probabilidades
de jogadas de cada equipe a ser enfrentada. Se uma partida com duas
centenas de pontos disputados pode ser definida por apenas dois,
como aquela, a informatização pode representar o 1%
que faz a diferença. É difícil encontrar um
atleta que discorra sobre a teoria dos jogos, um campo da matemática
que estuda probabilidades e fundamenta essa tecnologia. O que importa
é que sejam hábeis para executar o que ela determina.
Seleções de todos os esportes utilizam sistemas semelhantes.
"Mas, além de ter os números, é preciso saber
o que fazer com eles", diz Roberta.
AP
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AFP
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| A jogadora Sandra Pires: o vôlei, na areia ou na quadra,
usa softwares para analisar os possíveis adversários
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O judoca russo Dmitri Nossov vibra com a vitória: faltaram
vídeos de adversários para os brasileiros |
Os recursos variam conforme o esporte, mas
sempre estão presentes. Na natação, são
visíveis nas roupas dos nadadores, desenvolvidas por engenheiros
aeroespaciais, com técnicas da indústria cinematográfica,
para reproduzir a pele do tubarão, o mais rápido dos
animais aquáticos. Neste ano surgiram toucas que não
deixam uma ruga na cabeça do nadador e óculos sem
tiras, fixados como ventosas. Esses equipamentos podem reduzir em
até 8% a resistência da água ao corpo do atleta
e render os milésimos de segundo que equivalem a um degrau
no pódio. Na piscina, tudo é feito para favorecer
a quebra de recordes. O alargamento das raias em 37 centímetros,
o aumento do diâmetro das bóias de demarcação
em 5 e as prainhas nas bordas, com ralos que sugam a água,
foram definidos para diminuir a formação de ondas.
Quanto mais retornos existem no fundo da piscina, menos turbulência
há na água. As modernas, como a de Atenas, têm
mais de oitenta retornos. Para que os nadadores rendam a máxima
velocidade embaixo da água, o professor de mecânica
e engenharia espacial Rajat Mittal compara o movimento dos competidores
com o de modelos ideais criados por um supercomputador da Universidade
George Washington, nos Estados Unidos. Mittal estudava como aplicar
o nado de golfinhos a robôs da Marinha quando assistiu a um
vídeo da nadadora Natalie Coughlin, percebeu a semelhança
dos movimentos e teve a idéia do projeto. Natalie conquistou
duas medalhas de ouro em Atenas.
Reuters
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AFP
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| Dupla inglesa em prova do salto ornamental: câmeras
de TV com sensores seguem todo o movimento |
Nadador ucraniano com roupa que imita a pele do tubarão:
engenharia aeroespacial |
Judocas e competidores do atletismo consomem
boa parte de seu tempo analisando vídeos dos adversários
para encontrar pontos fracos e copiar os melhores movimentos. Jadel
Gregório, o brasileiro do salto triplo, vê a si mesmo
em imagens digitalizadas por meio de um software suíço
e pode estudar cada passada, atitude dos braços e giro das
pernas. O judoca Carlos Honorato, derrotado por um inglês
e um australiano na semana passada, atribui as surpresas à
falta de material para fazer a lição de casa. "Meus
adversários me estudaram mais do que eu a eles", diz. Os
dirigentes do judô brasileiro não criaram um arquivo
sortido com lutas de potenciais adversários de seus atletas.
Isso ainda seria pouco. Na Austrália, dois institutos usam
cinema tridimensional para formar jogadores de esportes coletivos,
como hóquei, críquete e futebol. Com óculos
de realidade virtual, goleiros, por exemplo, são colocados
em cenas reais, diante de chutadores de pênalti. Ciclistas
pedalam contra adversários digitais, sobre máquinas
que simulam a reação da bicicleta em percursos acidentados.
Ainda não há resultados no futebol, mas a ciclista
Sara Carrigan, treinada no sistema, ganhou uma medalha de ouro em
Atenas. Em Melbourne, um laboratório desenvolve um remo novo
para caiaques, mais eficiente, a ser usado em 2008, em Pequim. Em
Colorado Springs, nos Estados Unidos, um centro de alta performance
cuja construção custou 25 milhões de dólares
oferece uma piscina com correntezas e simuladores de profundidades
abissais.
AP
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| O iatista Robert Scheidt: coleção
de bons resultados com barco de fibra de vidro |
Pode-se considerar que a tecnologia está presente nos jogos
desde os primórdios da disputa, quando corredores procuravam
calçados, meias e uniformes mais confortáveis que
os dos concorrentes. O computador estreou no registro de resultados
em 1964, em Tóquio, quando também surgiram as primeiras
varas para salto feitas de fibra de vidro. Na tradicional maratona,
desde Sydney os participantes levam no tênis um chip que informa
sua posição e velocidade a cada 5 quilômetros
percorridos a uma central de controle. A vela seguiu por muito tempo,
romanticamente, considerada como um esporte intuitivo. Hoje, com
a explosão tecnológica, o esporte conta com os gurus
meteorologistas e seus computadores. O mais famoso é o americano
George Caras, nascido na Grécia, contratado para servir exclusivamente
aos gregos nesta Olimpíada. Um de seus boletins da semana
passada dizia que o vento na marina de Ágios Kosmás,
lugar de disputa das regatas, estaria "às 14 horas num ângulo
entre 170 e 190 graus, na velocidade de 8 a 12 nós, com rajadas
de bombordo, principalmente nos momentos de sol". Essas informações
permitem tanto preparar o barco quanto apostar em certas trajetórias
durante a prova. Velejando em casa e com previsões exclusivas,
a equipe local espera ganhar medalha na classe 470 feminina (liderada,
sim, pelas gregas, até o fim da semana), além da Mistral
masculina e Finn.
Reuters
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| Prova de canoagem: a luta com a correnteza
artificial é atração à parte das
Olimpíadas |
Aparatos como o capacete ultra-aerodinâmico
usado pela ciclista holandesa Leontien Zijlaard-van Moorsel nas
provas contra o relógio já ameaçam tornar-se
estrelas capazes de rivalizar com o próprio prestígio
dos competidores e muitos reclamam dessa possibilidade. "O
talento é mais importante do que o acessório", afirmou
o corredor marroquino Hicham El Guerrouj na entrevista concedida
durante o lançamento da sapatilha que usará na disputa
dos 1.500 metros, desenvolvida com base
nas informações que ele mesmo forneceu. A mesma empresa
lançou em Atenas um colete que resfria o corpo do atleta
antes da competição, retardando a elevação
da temperatura corporal e, com isso, melhorando as funções
metabólicas dos corredores. A novidade traz uma nova pergunta
ao cenário esportivo: isso pode ser considerado uma espécie
de doping?
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Fica para a próxima, em Pequim
Fotos Reuters
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ers
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| Flávio Canto em ação:
o judoca ganhou a segunda medalha de bronze da semana
magra para o Brasil |
Guga após a derrota: o tenista pensa agora
em disputar os próximos Jogos Olímpicos
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Como sempre,
a primeira semana dos Jogos Olímpicos deu um
choque de realidade nos mais entusiasmados torcedores
nacionais. Duas medalhas de bronze, no judô, é
um resultado que derrubou até as previsões
de publicações estrangeiras especializadas
em esportes. Casos como o das ginastas finalistas Daniele
Hypólito e Camila Comin ou o da nadadora Joanna
Maranhão, quinta colocada na final dos 400 metros
medley, representam uma vitória para as atletas,
mas pouco importam para uma torcida que só olha
para o pódio. Neste domingo, o cenário
pode começar a mudar com os resultados do velejador
Robert Sheidt e as perspectivas em torno do saltador
Jadel Gregório e de Daiane dos Santos. O vôlei,
na quadra e na areia, faz campanha promissora, assim
como o futebol e até o basquete feminino, que
ainda mantêm a esperança de se ver compensado,
em esportes coletivos, um desempenho frustrante em várias
modalidades individuais.
Há
um discurso quase padronizado entre os que, apesar do
esforço, foram barrados por adversários
mais competentes. "Eu posso ir aos Jogos de Pequim,
mesmo com 39 anos", afirma Hugo Hoyama, do tênis
de mesa. "Nosso trabalho é para brigar por medalhas
nos próximos Jogos Olímpicos", informa
Rodney Araújo, chefe da equipe de remo. Mesmo
atletas consagrados vão por esse caminho. "Vejo
a possibilidade de disputar os próximos Jogos",
especulava Gustavo Kuerten após cair na primeira
rodada do torneio de tênis.
A questão
é que essa reação repete o que
já foi dito em outras Olimpíadas e passa
ao largo da discussão de prioridades. É
evidente que o país não tem cacife para
disputar a imensa maioria das modalidades e precisa
eleger quais receberão os investimentos que formarão
atletas a longo prazo e não para uma eventual
aventura nos próximos Jogos. Por enquanto, a
ginástica feminina é quase a única
demonstração de gasto bem feito com os
2% que o Comitê Olímpico Brasileiro arrecada
das loterias. Em outras áreas, ainda é
preciso esperar para conferir. Na próxima Olimpíada.
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Um pé aqui, o outro em 2008
Reuters
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AP
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| O gigante chinês Yao Ming: produto esportivo
made in China |
A ginasta Fan Ye, na barra: a delegação
chinesa supera expectativas na primeira semana |
Nas duas últimas
Olimpíadas, os Estados Unidos dominaram o quadro
de medalhas sem ser incomodados. Das repúblicas
da antiga União Soviética, com as quais
brigavam durante a Guerra Fria, apenas a Rússia
se manteve forte. Em Atenas, uma nova rival começou
a surgir: a China. A quatro anos de organizarem os Jogos
em Pequim, os chineses levaram 407 atletas a Atenas
e até a quinta-feira da primeira semana lideraram
o quadro de medalhas de ouro. Num dos resultados mais
surpreendentes, a dupla americana de tênis formada
por Venus Williams e Chanda Rubin foi derrotada pelas
desconhecidas Li Ting e Sun Tian Tian. "Elas treinam
muito e só têm a evoluir", resignou-se
Venus.
O chamado
efeito-sede apareceu novamente. Todo país que
se prepara para organizar os Jogos melhora já
nas Olimpíadas anteriores. Foi assim em 2000,
com a Grécia. A revista americana Sports Illustrated
calculou que os chineses ganharão mais de setenta
medalhas, contra 111 dos americanos. Nos primeiros seis
dias de competição, a China conquistou
dez medalhas não previstas pela revista em esportes
tão variados quanto esgrima, tiro, judô,
natação, levantamento de peso e saltos
ornamentais. O quadro só começou a mudar
no fim da semana passada, mas deu um indício
do que se poderá ver daqui a quatro anos. "Atenas
é uma ótima chance para nossos atletas
adquirirem experiência para Pequim", diz o vice-presidente
do Comitê Olímpico Chinês, Li Furong.
Não faltam aos chineses elementos para o progresso
olímpico. A imensa população é
o mais óbvio. Mas há também a determinação
e a mão forte do governo, os recursos
que uma ditadura pode manobrar sem contestações
e uma história relacionada ao esporte. Telas
do pintor chinês Qian Xuan datadas de 600 anos
atrás mostram o imperador Zhao Kuangyin chutando
de um lado para outro e com violência uma ju,
nome dado à bola feita de couro e recheada de
cabelos. Há quem considere esse esporte um precursor
do futebol que hoje se pratica em todo o planeta.
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Com reportagem de Gustavo Poloni
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