Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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Vinho
Adeus à tradição

Vinicultores franceses querem
leis especiais para enfrentar
queda no consumo interno


Antonio Ribeiro, de Paris

A verdade está no fundo do copo, diz a tradição dos bistrôs franceses. O americano Robert Parker, enólogo de maior prestígio da atualidade, diz que se deve prestar atenção apenas no conteúdo da garrafa de vinho, sem dar bola para o rótulo. Mas cinco parlamentares das regiões vinícolas da França, apoiados por uma centena de colegas e pelo lobby da uva, acreditam que o futuro do vinho pode ser determinado por decreto. Eles professam que vinho é alimento e não uma reles bebida alcoólica. Querem que o conceito vire lei para evitar que a imagem do vinho seja associada a qualquer outro produto tóxico, sem distinção entre excesso e moderação no consumo. Basicamente, a bancada da uva pretende driblar a lei que proíbe a publicidade de bebidas alcoólicas no rádio e na televisão.

Tirar o vinho da família das bebidas alcoólicas é um desafio à realidade científica. A bebida contém a mesma molécula tóxica presente nos destilados mais fortes: o etanol, substância que provoca a embriaguez e, em certas pessoas, a dependência. Nesse aspecto, uma dose de 4 mililitros de cachaça desce mais difícil, mas se equipara a um copo de 12 mililitros de um caríssimo vinho Château Pétrus. "O vinho, se consumido durante as refeições, em doses moderadas, produz efeitos benéficos à saúde", afirmou a VEJA um dos autores da proposta de mudança da lei, o deputado francês Paul-Henri Cugnenc, vinicultor e cirurgião do aparelho digestivo do Hospital Europeu Georges Pompidou, em Paris. Por "doses moderadas" Cugnenc se refere à recomendação da Organização Mundial de Saúde de consumo alcoólico sem risco para os adultos saudáveis: três copos de vinho diários para os homens e dois para as mulheres, fora do período de gravidez.

Ao lado do leite e da água, o vinho é uma das mais antigas bebidas da humanidade. As refeições eram regadas a vinho muito antes da Santa Ceia. Até metade do século XX, a bebida foi responsável por 10% das calorias ingeridas na dieta dos povos mediterrâneos. Mas os hábitos mudaram na França, a começar pelo presidente Jacques Chirac, que não esconde sua preferência pela cerveja mexicana. Em 1980, uma em cada duas refeições dos franceses era acompanhada de vinho. Hoje, é apenas uma em quatro. Pesquisas mostram que a preciosa bebida nacional foi substituída à mesa por água e, acreditem, Coca-Cola. Os motoristas atualmente tocam no copo conscientes de que o bafômetro está à espreita. O sucesso das campanhas preventivas reduziu drasticamente tanto os acidentes de trânsito como o consumo de vinho.

A supersafra de 56,6 milhões de hectolitros prevista para este ano será colhida num clima nebuloso para o vinho francês. Se o consumo interno baixou, as exportações despencaram. Principal produtora de vinhos do mundo, a França enfrenta a concorrência crescente de Chile, Austrália, Estados Unidos, África do Sul, Nova Zelândia e Argentina. Os vinhos do "novo mundo" são cada dia mais saborosos e, quase sempre, baratos. Eles representavam apenas 1% do comércio mundial na década de 80. Hoje, abastecem 23% do mercado. Para enfrentar a concorrência, os vinicultores franceses lutam para derrubar a lei que proíbe alterar artificialmente o sabor de seus vinhos. Produtores de vinhos de qualidade inferior querem melhorá-los com raspas de madeira, método freqüente na produção do "novo mundo". A célebre enóloga francesa Myriam Huet vê nisso uma tentativa de enganar o consumidor. "Vinhos ruins devem simplesmente desaparecer", disse ela a VEJA.

 
 
 
 
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