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Vinho
Adeus à tradição
Vinicultores franceses querem
leis especiais para enfrentar
queda no consumo interno

Antonio Ribeiro, de Paris
A verdade está no fundo do copo, diz
a tradição dos bistrôs franceses. O americano
Robert Parker, enólogo de maior prestígio da atualidade,
diz que se deve prestar atenção apenas no conteúdo
da garrafa de vinho, sem dar bola para o rótulo. Mas cinco
parlamentares das regiões vinícolas da França,
apoiados por uma centena de colegas e pelo lobby da uva, acreditam
que o futuro do vinho pode ser determinado por decreto. Eles professam
que vinho é alimento e não uma reles bebida alcoólica.
Querem que o conceito vire lei para evitar que a imagem do vinho
seja associada a qualquer outro produto tóxico, sem distinção
entre excesso e moderação no consumo. Basicamente,
a bancada da uva pretende driblar a lei que proíbe a publicidade
de bebidas alcoólicas no rádio e na televisão.
Tirar o vinho da família das bebidas
alcoólicas é um desafio à realidade científica.
A bebida contém a mesma molécula tóxica presente
nos destilados mais fortes: o etanol, substância que provoca
a embriaguez e, em certas pessoas, a dependência. Nesse aspecto,
uma dose de 4 mililitros de cachaça desce mais difícil,
mas se equipara a um copo de 12 mililitros de um caríssimo
vinho Château Pétrus. "O vinho, se consumido durante
as refeições, em doses moderadas, produz efeitos benéficos
à saúde", afirmou a VEJA um dos autores da proposta
de mudança da lei, o deputado francês Paul-Henri Cugnenc,
vinicultor e cirurgião do aparelho digestivo do Hospital
Europeu Georges Pompidou, em Paris. Por "doses moderadas" Cugnenc
se refere à recomendação da Organização
Mundial de Saúde de consumo alcoólico sem risco para
os adultos saudáveis: três copos de vinho diários
para os homens e dois para as mulheres, fora do período de
gravidez.
Ao lado do leite e da água, o vinho
é uma das mais antigas bebidas da humanidade. As refeições
eram regadas a vinho muito antes da Santa Ceia. Até metade
do século XX, a bebida foi responsável por 10% das
calorias ingeridas na dieta dos povos mediterrâneos. Mas os
hábitos mudaram na França, a começar pelo presidente
Jacques Chirac, que não esconde sua preferência pela
cerveja mexicana. Em 1980, uma em cada duas refeições
dos franceses era acompanhada de vinho. Hoje, é apenas uma
em quatro. Pesquisas mostram que a preciosa bebida nacional foi
substituída à mesa por água e, acreditem, Coca-Cola.
Os motoristas atualmente tocam no copo conscientes de que o bafômetro
está à espreita. O sucesso das campanhas preventivas
reduziu drasticamente tanto os acidentes de trânsito como
o consumo de vinho.
A supersafra de 56,6 milhões de hectolitros
prevista para este ano será colhida num clima nebuloso para
o vinho francês. Se o consumo interno baixou, as exportações
despencaram. Principal produtora de vinhos do mundo, a França
enfrenta a concorrência crescente de Chile, Austrália,
Estados Unidos, África do Sul, Nova Zelândia e Argentina.
Os vinhos do "novo mundo" são cada dia mais saborosos e,
quase sempre, baratos. Eles representavam apenas 1% do comércio
mundial na década de 80. Hoje, abastecem 23% do mercado.
Para enfrentar a concorrência, os vinicultores franceses lutam
para derrubar a lei que proíbe alterar artificialmente o
sabor de seus vinhos. Produtores de vinhos de qualidade inferior
querem melhorá-los com raspas de madeira, método freqüente
na produção do "novo mundo". A célebre enóloga
francesa Myriam Huet vê nisso uma tentativa de enganar o consumidor.
"Vinhos ruins devem simplesmente desaparecer", disse ela a VEJA.
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