Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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Saúde
Falta de ar – e de juízo

A maioria dos brasileiros vítimas de asma
não se trata como deveria. É o que mostra
o maior levantamento sobre a doença


Paula Neiva

 
Fabiano Accorsi

O garoto Thor, com os pais, Luciana e Plínio: uma vida normal graças ao tratamento continuado



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Mal crônico com forte componente genético, a asma é domável, mas a maior parte de suas vítimas não se trata adequadamente. A conclusão é da maior e mais minuciosa radiografia da doença já feita na América Latina, o Airla (sigla em inglês para Percepções e Realidade sobre a Asma na América Latina). Patrocinado pelo laboratório GlaxoSmithKline, o levantamento foi feito em onze países, com 2.200 pessoas, e seus resultados foram apresentados na semana passada, no Congresso Internacional de Pediatria, no México. Os brasileiros estão entre os que mais descuidam do problema. Dos cerca de 20 milhões de doentes, 57% não se tratam como deveriam. As conseqüências desse pouco-caso podem ser desastrosas. Deixada a seu próprio curso, a asma pode levar a crises desesperadoras e até matar por asfixia. Um dos erros típicos é circunscrever o tratamento aos momentos de crise. Como o diabetes e a hipertensão, a asma exige cuidados constantes.

A asma é causada pela inflamação dos brônquios, canais de passagem do ar, e pela contração exagerada dos músculos localizados ao redor deles. As crises acontecem quando o doente entra em contato com algum fator que aumenta ainda mais a inflamação e a contração muscular. Quando isso ocorre, o volume de ar transportado por esses canais cai drasticamente. Vem a crise e, com ela, a sensação de sufocamento. O que funciona como gatilho para as crises de um doente não oferece necessariamente o mesmo perigo para outro paciente. Mas os fatores desencadeantes mais comuns são: stress, poluição, cheiros fortes, como os de perfume, tinta ou cigarro, atividade física intensa, pêlos de animais, poeira, vírus da gripe e variações bruscas de temperatura. O estudante paulista Thor Assmann, de 11 anos, teve sua primeira crise há seis anos, depois de uma gripe. Seu pai, o professor de educação física Plínio Assmann, também é vítima do mal. Os dois são exemplo de como a vida pode ser normal, apesar da asma. "No começo, eu ficava assustadíssima: é muito aflitivo ver a luta de um filho pelo ar", diz Luciana, mãe de Thor. "Hoje sei que a asma é uma doença que requer cuidados especiais, mas com a qual é possível conviver muito bem." No caso do menino, a doença é mantida sob controle por meio de medicamentos de uso diário e da prática regular de esporte. Para Plínio, basta a ginástica moderada.

 
Andre Schiliro
Eduardo Marques/Tempo

O nadador Xuxa, garoto-propaganda de uma campanha para estimular o tratamento da asma, e seu tio, o aposentado Rogério Queiroz: vítimas do problema

A prática regular de exercícios, sob a supervisão de especialistas, ajuda a aumentar a capacidade respiratória, o que deixa os pulmões fortalecidos para enfrentar as crises. O nadador Fernando Scherer, o Xuxa, só começou a nadar por causa da asma, que se manifestou quando ele contava 12 anos. Graças à natação, Xuxa nunca mais teve um ataque de falta de ar. Hoje, aos 29 anos, é o garoto-propaganda de uma campanha da Sociedade Brasileira de Asmáticos, cujo slogan é "Vida sem medo. Vida livre dos sintomas". O tio de Xuxa, o advogado aposentado Rogério Queiroz, de 64 anos, está entre os 5% de asmáticos que manifestam a doença depois dos 50 anos. Queiroz ficou tão assustado com a severidade das crises que resolveu antecipar a aposentadoria. "Tinha receio de que o stress no trabalho agravasse as crises e de que as crises prejudicassem o trabalho", diz ele. A última vez em que sentiu a agonia da falta de ar foi há vinte dias. Nada, no entanto, que lembre o início da doença. Graças à vida sem stress, aos medicamentos e aos exercícios físicos semanais, há três anos Queiroz não é hospitalizado por causa da asma.

Existem basicamente dois tipos de remédio para asma. Há os de uso contínuo, usados para prevenir as crises. Eles podem ser antiinflamatórios ou broncodilatadores de ação prolongada. Há também os de uso emergencial, que dilatam os brônquios rapidamente, administrados nos momentos de crise. Além disso, os asmáticos devem evitar a exposição aos fatores que deflagram a falta de ar e praticar exercícios regularmente – sempre com acompanhamento. "Os tratamentos disponíveis hoje funcionam bem", diz o pneumologista Alberto Cukier, professor da Universidade de São Paulo. "O maior desafio dos médicos é manter a adesão do paciente à terapia prescrita." Quando isso acontece, até 90% das crises podem ser evitadas.

 

Os números da doença

• A asma afeta 300 milhões de pessoas no mundo

20 milhões delas no Brasil

30% dos doentes têm mais de uma crise por semana

57% dos asmáticos brasileiros não controlam a doença adequadamente

76 milhões de dólares são gastos anualmente pelos cofres públicos brasileiros com as 400 000 internações decorrentes da doença – é o terceiro maior gasto da rede pública de saúde com hospitalizações


Fontes:
Asthma Insights and Reality in Latin
America e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia



 

As ameaças

A asma é uma doença crônica causada pela inflamação dos brônquios, que se manifesta sobretudo por chiado no peito e falta de ar. Entre os principais fatores que desencadeiam as crises estão:

Stress

Variações bruscas de temperatura

Exposição a elementos que causam alergia, como poeira, talco, mofo ou cheiro de perfume e de tinta

Exercícios físicos intensos e sem supervisão


Fonte:
Alberto Cukier, pneumologista do
Instituto do Coração, de São Paulo

 
 
 
 
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