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Aventura
Código da vida, parte II
Craig Venter, o biólogo americano
que mapeou o genoma humano,
agora tenta desvendar o DNA de
toda a vida na Terra

Gabriela Carelli
Neste mês completa um ano que o biólogo
americano Craig Venter embarcou numa grande aventura a bordo de
seu luxuoso iate, o Sorcerer II. Seu objetivo é navegar
ao redor do planeta, numa viagem de 45.000
quilômetros, para coletar todos os microrganismos que encontrar
pelo caminho, decifrar o DNA de cada um deles e armazenar as informações
no mais completo banco de dados de genética ambiental já
produzido. Venter, para quem não se lembra, fundou a Celera
Genomics, um dos dois consórcios científicos que decifraram
o genoma humano, em 2000. Afastado da presidência da Celera
há dois anos, ele não refreou sua audácia.
Se primeiro seqüenciou o código genético de um
indivíduo humano, agora pretende, por assim dizer, abrir
o DNA de todo o planeta. O que nós conhecemos como vida é
apenas a camada superficial de um mundo desconhecido. A grande maioria
dos seres vivos são bactérias e microrganismos. Do
1,7 milhão de plantas e espécies de animais catalogados,
só 6.000 são microrganismos.
Os cientistas estimam que as espécies que só podem
ser vistas com aparelhos especiais cheguem a 10 milhões.
Ou, quem sabe, a 100 milhões.
Venter acredita que o código genético
de microrganismos pode se transformar num excelente negócio
no futuro. Esses seres microscópicos estão na base
da cadeia alimentar e dão forma aos ciclos de carbono, nitrogênio
e outros nutrientes que sustentam todo o ecossistema. Em teoria,
o DNA deles pode conter a chave para gerar energia barata, desenvolver
remédios e acertar as bagunças da natureza provocadas
pelo avanço da civilização. Há bactérias
que só vivem em locais onde existe petróleo. Quem
identificá-las terá o mapa da mina para explorar o
produto. Outros microrganismos são capazes de captar gás
carbônico da atmosfera. Imagine como o controle desse processo
seria útil para reduzir o efeito estufa. Trata-se, obviamente,
de uma aposta. "Não sabemos o que as bactérias podem
fazer, pois não sabemos quem elas são. Quem descobrir
primeiro terá um material de valor inestimável", diz
o geneticista Salmo Raskin, brasileiro que integra a equipe do Projeto
Genoma Humano.
A volta ao mundo num iate de luxo faz lembrar
as grandes expedições científicas do século
XIX, especialmente a de Charles Darwin. Numa jornada de cinco anos
a bordo do veleiro Beagle, o naturalista inglês coletou
os elementos que lhe permitiram desenvolver a teoria da evolução
das espécies. O Sorcerer II está, por sinal,
refazendo em boa parte o roteiro de Darwin. "Tenho o dever de catalogar
o mundo microscópico. Minhas descobertas vão fechar
todas as lacunas que Darwin deixou", disse Venter à revista
americana Wired, que o entrevistou no mês passado no
Pacífico Sul. Projetos grandiosos, com boas chances de se
tornarem uma mina de dinheiro, são a marca registrada de
Venter. Em 1998, ele reuniu investidores privados para criar a Celera,
cujo objetivo era decifrar o mapa genético humano. Foi uma
espécie de corrida com seu único concorrente, o Projeto
Genoma Humano, bancado pelo governo dos Estados Unidos e por instituições
internacionais. Rivais por princípio, ambos chegaram a um
acordo de cavalheiros, mediado pelo governo americano, e anunciaram
em conjunto a conclusão do mapeamento. As ações
da Celera foram às nuvens e Venter acumulou uma fortuna
estimada em 700 milhões de dólares. Já a empresa
acabou no prejuízo, pois a mercadoria que tinha para vender
o genoma humano é fornecida de graça
pelo consórcio bancado pelo governo americano.
Fora da Celera, Venter investiu 100 milhões
de dólares do próprio bolso na criação
de uma fundação cujo objetivo é pesquisar o
DNA dos microrganismos. De recursos externos, ele obteve apenas
3 milhões de dólares do Departamento de Energia dos
Estados Unidos e mais 4,25 milhões de dólares de uma
fundação americana. Como não tem sócios,
toca o projeto do jeito que lhe parece melhor. Sua expedição
começou em agosto de 2003, no Canadá. A previsão
é que termine em 2005. No último balanço, divulgado
em março, já haviam sido identificadas 1.800
espécies de micróbios e 1,2 milhão de novos
genes. Darwin armazenava em garrafas e sacos de juta as plantas
e os animais que recolhia. Venter recolhe água do mar e filtra
os microrganismos por meio de processos químicos. O material
é então enviado para ser analisado nos Estados Unidos.
Localizado a meio caminho entre Nova York e Washington, seu laboratório
é uma das três maiores estruturas de seqüenciamento
genético. A prioridade número 1 é usar o material
coletado para criar uma seqüência artificial de DNA que
funcione como se fosse de um ser vivo. Até agora, sem sucesso.
Se um dia conseguir, Venter terá dado um passo maior que
o de qualquer outro ser humano. Terá brincado de Deus.
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