Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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Aviação
Tem jeito de shopping

Mas é um aeroporto. Dezenas deles
estão sendo reformados num pacote
de obras que vai até 2007


Nahara Bauchwitz


Divulgação
Aeroporto de Fortaleza: inaugurado em 1998, está sendo adaptado ao conceito dos aero-shoppings


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Embarcar no Aeroporto de Congonhas, o mais movimentado da América do Sul, já foi um martírio. Salas de embarque apertadas, longas caminhadas a pé para chegar às aeronaves e tráfego intenso de veículos de carga ao lado dos aviões criavam dificuldades que alcançaram o ponto caótico com as obras recentes de reforma. Montes de entulho, barulho de britadeiras, lufadas de pó e congestionamentos dentro da área de estacionamento levaram muita gente a pensar duas vezes antes de viajar. Uma parte desses incômodos ainda persiste, principalmente para quem vai com o próprio carro até o aeroporto da capital paulista, mas a mudança que se começa a ver do lado de dentro indica que o trauma das obras pode ter valido a pena. Está funcionando em fase experimental uma nova área de embarque, com oito pontes de acesso direto aos aviões. Isso é parte de um conjunto de mudanças que estarão concluídas em 2006 e que, ao final, terão transformado a fisionomia de um terminal construído na década de 30 e que hoje recebe 12 milhões de passageiros por ano.

Congonhas é a obra mais visível de um pacote que há dois anos vem mudando o cenário aeroportuário do país. Do aeroporto de Salvador, reinaugurado em 2002, ao de Navegantes, passando por Porto Velho e Macaé, mais de sessenta terminais contaram ou estão prestes a contar com obras de modernização. Em muitos, o trabalho vem resultando em terminais mais parecidos com shopping centers do que com estações de embarque. O objetivo da Infraero, a empresa que administra essas instalações, é, de um lado, criar condições para atender à demanda de passageiros dos próximos dez anos e, de outro, alterar o próprio conceito de uso dos aeroportos. Em Porto Alegre, Brasília e pelo menos mais quinze cidades, foram embutidos no projeto conjuntos comerciais batizados de aero-shoppings. Além dos tradicionais cafezinho, restaurante e lojas de conveniências, encontram-se neles praças de alimentação, cabeleireiros, franquias de grifes famosas e até cinemas. "Sem criar problemas para os viajantes, procuramos incluir nesses shoppings instalações que possam servir à comunidade", explica Mariangela Russo, gerente de desenvolvimento mercadológico da Infraero. Fortaleza, cuja modernização é mais antiga, também está modificando seu shopping.


Chico Barros/Ag. Lumiar
O novo aeroporto do Recife: obras de arte entre amplos espaços e duto subterrâneo de combustível

Para os brasileiros, que estavam habituados apenas com o free shop do embarque e desembarque internacional, essa variedade comercial é uma novidade. Mas o conceito já é conhecido há tempos no exterior. O aeroporto de Frankfurt, na Alemanha, assim como o de Amsterdã, na Holanda, tem supermercado no prédio. Em Cingapura, podem-se encontrar piscina e sala de jogos. Não há dúvida de que passageiros em conexão ou vitimados por atrasos de vôos ficam bem servidos com os shoppings-aeroportos. Outra vantagem é que o visual também melhora. No do Recife, cuja operação parcial começou há um mês, janelões e teto de vidro combinam com um elegante projeto paisagístico. Obras do artista plástico Francisco Brennand e painéis de outros artistas locais estão expostos pelo ambiente. O pacote nacional inclui ainda obras de infra-estrutura com detalhes tecnológicos invisíveis, como a construção, na capital pernambucana, de um duto subterrâneo que leva combustível até os aviões, dispensando os pesados e não tão seguros caminhões-tanque. A adoção das pontes que levam diretamente aos aviões, os chamados fingers, é, para os passageiros, um dos itens de maior comodidade.


Claudio Rossi
A ponte de embarque em Congonhas: enfim, um pouco de conforto para os passageiros

Está incluída na lista de obras a modernização de Viracopos, que deverá tornar-se o maior portal aéreo do país. A 100 quilômetros da capital paulista, Viracopos já teve uma fase de suas obras inaugurada. Logo começa também a reforma do Santos Dumont, que provisoriamente operará apenas os vôos regionais e da ponte aérea entre Rio de Janeiro e São Paulo. Orçadas em 4,5 bilhões de reais, todas essas reformas atiçaram a cobiça de muitas construtoras num momento de escassez de grandes obras e algumas licitações desembocaram no conhecido roteiro de contestações. Alguns casos já foram parar no Tribunal de Contas da União. Só a longo prazo se poderá saber se nesses bastidores se encontrarão a luminosidade e a beleza arquitetônica que se vêem nos novos aeroportos.

 

Foto Antonio Milena

 

 
 
 
 
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