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Venezuela
Vitória, dúvida e impasse
Oposição não reconhece sucesso
de Chávez
no plebiscito e expõe divisão dos venezuelanos

José Eduardo Barella
AP
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| Chávez comemora a vitória folgada
no referendo: apoio de 60% dos eleitores |
A vitória do presidente venezuelano
Hugo Chávez no plebiscito realizado no domingo 15 reforçou
duas certezas. A primeira é que Chávez tem inegável
apoio popular. A segunda é que o país continua dividido,
o que deve exigir uma nova estratégia de Chávez para
que a Venezuela não afunde de vez no caos. O referendo, no
qual os eleitores deveriam decidir se o presidente teria seu mandato
encurtado, serviu como um tira-teima entre governo e oposição.
A Venezuela passou os últimos dois anos mergulhada numa queda-de-braço
entre Chávez e uma frente de partidos que tentou a todo custo
miná-lo. Para combater o populismo do presidente, a oposição
aderiu a um golpe militar fracassado e liderou quatro greves gerais
que agravaram a crise econômica. Chávez reagiu com
expurgos nas Forças Armadas, perseguições políticas
e medidas para fortalecer seu poder incluindo uma reestruturação
na estatal do petróleo, que lhe permitiu assumir o controle
direto da principal fonte de divisas do país. Para pôr
fim à disputa, nada mais democrático que o voto direto.
O referendo foi convocado depois que a oposição conseguiu
juntar apoio num abaixo-assinado, mecanismo semelhante ao que possibilitou
a eleição do ator Arnold Schwarzenegger ao governo
da Califórnia. A expectativa era de uma disputa equilibrada.
Mas o resultado oficial, divulgado quatro horas após o fechamento
das urnas, mostrou um placar de 58% a favor do presidente e 42%
para a oposição. Chávez recebeu apoio de seis
em cada dez eleitores e assegurou sua permanência no Palácio
de Miraflores até 2006.
Fim do impasse na Venezuela? Longe disso.
A oposição recusou-se a admitir a derrota, alegando
fraude na apuração dos votos. De início, a
denúncia parecia desculpa de mau perdedor. Pela primeira
vez uma eleição no país contava com urnas eletrônicas,
testadas anteriormente por observadores neutros. O problema é
que o conselho eleitoral, órgão responsável
pela apuração e de maioria chavista, deu à
oposição motivos para duvidar do resultado. Uma auditoria
realizada numa mostra aleatória de urnas eletrônicas,
horas depois da eleição, foi feita sem a presença
dos oposicionistas, o que gerou desconfiança. Na terça-feira,
os observadores internacionais chefiados pelo ex-presidente americano
Jimmy Carter atestaram a lisura da votação. A vitória
de Chávez estava sacramentada. Mesmo assim, as denúncias
prosseguiram (veja quadro). Foi necessária outra auditoria,
dois dias depois, para esfriar a polêmica. Os observadores
não encontraram irregularidades.
O plebiscito não representa um atestado
de qualidade do governo Chávez, que é ruinoso. Mas
o resultado das urnas mostra que a maioria da população
venezuelana aprova seu governo, suas idéias e seus métodos.
É a vantagem da democracia, o menos pior dos regimes. A oposição
tem todo o direito de criticar e espernear, mas deve buscar reparação
nas urnas, conforme mandam a lei e os costumes, e não num
golpe de Estado como fez em passado recente. Nem mesmo o
fato de que Chávez também seja um golpista justifica
que tramem sua derrubada. A polarização mostra que
o país está rachado em dois blocos irreconciliáveis.
Essa cisão é o resultado de um processo iniciado em
meados dos anos 80, quando a Venezuela viu cair de forma rápida
sua participação no mercado mundial de petróleo
produto responsável por 75% das exportações
e metade da receita do governo. O esgotamento desse modelo econômico
dependente do petróleo ampliou as desigualdades sociais.
Foi como salvador da pátria que Chávez
chegou ao poder, em 1998. Com um discurso sob medida para as periferias,
ele apostou no carisma e no estilo personalista. Seu programa de
governo mescla nacionalismo, populismo esquerdista e uma visão
ingênua de distribuição de renda. Em um ano,
com a popularidade atingindo 90%, o presidente ampliou ainda mais
seus poderes. Chávez convocou plebiscitos, reformou a Constituição,
prolongou o próprio mandato e se afastou dos empresários.
A desenvoltura em ocupar o espaço político não
encobriu seus erros. Mesmo com o dinheiro arrecadado pela Venezuela
com a alta do preço do petróleo nos últimos
seis anos 120 bilhões de dólares , Chávez
não conseguiu melhorar o padrão de vida da população.
Durante seu governo, a economia encolheu 15%, a classe média
perdeu um terço do poder aquisitivo e a inflação
cresce a um ritmo anual de 30%. Os venezuelanos na linha de pobreza,
que somavam 57% da população, agora chegam a 70%.
Parte do fiasco é creditada aos efeitos
das greves convocadas pela oposição em 2002, que reduziram
a produção petrolífera. Mas a ineficiência
administrativa também tem peso. "Chávez estrangulou
o setor privado, afastou os investidores estrangeiros e gastou o
dinheiro do petróleo em assistencialismo, em vez de criar
empregos", resumiu o cientista político Miguel Diaz, do Centro
de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington. As
sucessivas altas do petróleo nos últimos oito meses
trouxeram um novo fôlego para o governo. A expectativa é
que a economia cresça 10% neste ano. Chávez investiu
uma parcela razoável do dinheiro do petróleo em programas
sociais que acabaram assegurando o voto popular no plebiscito. O
desafio agora é buscar a conciliação interna
e diversificar a economia. "A oposição acredita que
os problemas do país se resumem ao presidente, o que é
uma tolice", disse a VEJA o cientista político Aníbal
Pérez-Liñán, professor da Universidade Pittsburgh,
nos Estados Unidos. "Chávez, por sua vez, precisa se convencer
de que uma oposição vibrante é a melhor garantia
de sobrevivência de seu regime."
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