Edição 1868 . 25 de agosto de 2004

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Relações exteriores
Um gol de placa

Com jogo de futebol no Haiti,
diplomacia acerta ao mostrar
o que o Brasil tem de melhor


Malu Gaspar


Reuters
Jogadores do Brasil nas ruas da capital do Haiti: delírio

Houve quem julgasse que a presença dos craques da Seleção Brasileira de Futebol no Haiti, devidamente escoltados pelo presidente Lula, foi um golpe de populismo internacional promovido pela diplomacia brasileira, ou algo como uma versão globalizada do pão e circo dos imperadores romanos. Levando-se em conta o que se passou nas poucas horas em que os jogadores brasileiros ficaram no Haiti na quarta-feira passada, quando golearam por 6 a 0 a seleção haitiana, trata-se de uma leitura apressada e rasteira. A diplomacia brasileira, que sob o governo petista já cometeu deslizes e excessos, desta vez acertou em cheio: ao demonstrar respeito e interesse pelo povo mais miserável das Américas, o Brasil introduziu um elemento novo na cena diplomática – o de que uma força internacional num país estrangeiro não precisa viver apenas de soldados e armas. Com a festa, que levou ao delírio um povo fanático por futebol, o Brasil ofereceu um presente simpático à população haitiana, fazendo uma exibição pública do que o Brasil tem de melhor.


Fernando Pimentel
Tiago Queiroz/AE
Médici recebe a seleção de 70: por um naco de popularidade Pelé: em 1967, ele também parou um país em guerra

Há uma predisposição muito favorável ao Brasil no futebol, e, com o jogo, essa predisposição pode se estender às tropas brasileiras e à liderança do Brasil no processo de paz, diz o embaixador brasileiro aposentado João Baena Soares, que, como secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), cargo que ocupou durante dez anos, esteve inúmeras vezes no Haiti. A iniciativa mostra também que o Brasil se interessa pelo Haiti e pelos outros países do Caribe, o que nem sempre acontecia no passado, diz o diplomata. Desde que as forças rebeldes conseguiram a renúncia do presidente Jean-Bertrand Aristide há seis meses, o Haiti mergulhou numa onda de violência difícil de conter, apesar da presença de 2.300 soldados estrangeiros, entre os quais 1.200 são brasileiros. Há três meses, o Brasil recebeu dos Estados Unidos o comando das forças de paz das Nações Unidas, que deve manter-se no país até 2006, quando se planeja que o Haiti já tenha um novo governo democraticamente eleito. Enquanto isso não acontece, a tarefa urgente das forças internacionais é reequipar o país de praticamente tudo – de coleta de lixo a escolas, de hospitais à rede de eletricidade.

Nesse agudo estado de necessidade, a prioridade é tirar o Haiti da violência, estancando os surtos de assaltos e estupros diários entre a população – coisa que o jogo de futebol conseguiu por pelo menos um dia. É óbvio que a presença do presidente Lula foi uma tentativa de capturar para si próprio um pouco da popularidade dos jogadores – como a de Ronaldo, que foi tratado como ídolo e ficou impressionado com a calorosa recepção popular em Porto Príncipe, chegando a dizer que só sentiu tamanha emoção quando voltou ao Brasil com o título de campeão mundial nas Copas de 1994 e 2002. Não fosse essa a intenção, o presidente poderia ter ido ao Haiti quando os soldados brasileiros desembarcaram no país. Sabendo que soldados não costumam ser tão populares quanto jogadores de futebol, Lula só foi ao Haiti agora, mas sua intenção não fere o protocolo, não agride a diplomacia nem desmerece a iniciativa do governo em sociedade com a Confederação Brasileira de Futebol. "É inevitável que toda ação diplomática desse gênero tenha uma preocupação com a imagem", diz o chanceler no governo anterior, embaixador Luiz Felipe Lampreia.

O exemplo mais notório de um presidente que tentou associar-se à popularidade do futebol no Brasil foi o ditador Emílio Garrastazu Médici, que recebeu publicamente os jogadores que ganharam a Copa de 1970 e era, de fato, um fanático por futebol. A iniciativa do governo petista, porém, não tem parentesco com o lance de Médici. Afinal, hoje em dia o Brasil vive num ambiente democrático no qual é bem mais difícil manipular imagens e símbolos. O fato é que, com o chamado "jogo da paz", mais uma vez o futebol brasileiro ajuda a depor armas, pelo menos por algumas horas. Em 1967, Pelé esteve na Nigéria para fazer amistosos pelo Santos. Os guerrilheiros nigerianos e as tropas do ditador da época selaram um armistício de 48 horas, cujo único objetivo era liberar todos para ver Pelé jogar. E assim foi.

 
 
 
 
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