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Relações exteriores
Um gol de placa
Com jogo de futebol no Haiti,
diplomacia acerta ao mostrar
o que o Brasil tem de melhor

Malu Gaspar
Reuters
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| Jogadores do Brasil nas ruas da capital do
Haiti: delírio |
Houve quem julgasse que a presença dos
craques da Seleção Brasileira de Futebol no Haiti,
devidamente escoltados pelo presidente Lula, foi um golpe de populismo
internacional promovido pela diplomacia brasileira, ou algo como
uma versão globalizada do pão e circo dos imperadores
romanos. Levando-se em conta o que se passou nas poucas horas em
que os jogadores brasileiros ficaram no Haiti na quarta-feira passada,
quando golearam por 6 a 0 a seleção haitiana, trata-se
de uma leitura apressada e rasteira. A diplomacia brasileira, que
sob o governo petista já cometeu deslizes e excessos, desta
vez acertou em cheio: ao demonstrar respeito e interesse pelo povo
mais miserável das Américas, o Brasil introduziu um
elemento novo na cena diplomática o de que uma força
internacional num país estrangeiro não precisa viver
apenas de soldados e armas. Com a festa, que levou ao delírio
um povo fanático por futebol, o Brasil ofereceu um presente
simpático à população haitiana, fazendo
uma exibição pública do que o Brasil tem de
melhor.
Fernando Pimentel
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Tiago Queiroz/AE
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| Médici recebe a seleção de 70: por um
naco de popularidade |
Pelé: em 1967, ele também parou um país
em guerra |
Há uma predisposição muito
favorável ao Brasil no futebol, e, com o jogo, essa predisposição
pode se estender às tropas brasileiras e à liderança
do Brasil no processo de paz, diz o embaixador brasileiro aposentado
João Baena Soares, que, como secretário-geral da Organização
dos Estados Americanos (OEA), cargo que ocupou durante dez anos,
esteve inúmeras vezes no Haiti. A iniciativa mostra também
que o Brasil se interessa pelo Haiti e pelos outros países
do Caribe, o que nem sempre acontecia no passado, diz o diplomata.
Desde que as forças rebeldes conseguiram a renúncia
do presidente Jean-Bertrand Aristide há seis meses, o Haiti
mergulhou numa onda de violência difícil de conter,
apesar da presença de 2.300 soldados
estrangeiros, entre os quais 1.200 são
brasileiros. Há três meses, o Brasil recebeu dos Estados
Unidos o comando das forças de paz das Nações
Unidas, que deve manter-se no país até 2006, quando
se planeja que o Haiti já tenha um novo governo democraticamente
eleito. Enquanto isso não acontece, a tarefa urgente das
forças internacionais é reequipar o país de
praticamente tudo de coleta de lixo a escolas, de hospitais
à rede de eletricidade.
Nesse agudo estado de necessidade, a prioridade
é tirar o Haiti da violência, estancando os surtos
de assaltos e estupros diários entre a população
coisa que o jogo de futebol conseguiu por pelo menos um dia.
É óbvio que a presença do presidente Lula foi
uma tentativa de capturar para si próprio um pouco da popularidade
dos jogadores como a de Ronaldo, que foi tratado como ídolo
e ficou impressionado com a calorosa recepção popular
em Porto Príncipe, chegando a dizer que só sentiu
tamanha emoção quando voltou ao Brasil com o título
de campeão mundial nas Copas de 1994 e 2002. Não fosse
essa a intenção, o presidente poderia ter ido ao Haiti
quando os soldados brasileiros desembarcaram no país. Sabendo
que soldados não costumam ser tão populares quanto
jogadores de futebol, Lula só foi ao Haiti agora, mas sua
intenção não fere o protocolo, não agride
a diplomacia nem desmerece a iniciativa do governo em sociedade
com a Confederação Brasileira de Futebol. "É
inevitável que toda ação diplomática
desse gênero tenha uma preocupação com a imagem",
diz o chanceler no governo anterior, embaixador Luiz Felipe Lampreia.
O exemplo mais notório de um presidente
que tentou associar-se à popularidade do futebol no Brasil
foi o ditador Emílio Garrastazu Médici, que recebeu
publicamente os jogadores que ganharam a Copa de 1970 e era, de
fato, um fanático por futebol. A iniciativa do governo petista,
porém, não tem parentesco com o lance de Médici.
Afinal, hoje em dia o Brasil vive num ambiente democrático
no qual é bem mais difícil manipular imagens e símbolos.
O fato é que, com o chamado "jogo da paz", mais uma vez o
futebol brasileiro ajuda a depor armas, pelo menos por algumas horas.
Em 1967, Pelé esteve na Nigéria para fazer amistosos
pelo Santos. Os guerrilheiros nigerianos e as tropas do ditador
da época selaram um armistício de 48 horas, cujo único
objetivo era liberar todos para ver Pelé jogar. E assim foi.
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