|
|
Imprensa Uma farsa chamada IstoÉ Como
uma das virtudes editoriais de VEJA, a checagem rigorosa dos fatos, foi transformada
em "erro proposital" pelo jornalismo fraudulento da revista IstoÉ
 |
| Não tem 1 milhão na capa de VEJA sobre Ibsen.
Tem na matéria de IstoÉ, que usou o mesmo título de
VEJA | No momento em que o governo tenta
amordaçar a imprensa, por meio de um projeto de lei que cria um conselho
federal para "orientar, disciplinar e fiscalizar" a atividade dos profissionais
de jornais e revistas, o mau jornalismo da revista IstoÉ tentou
massacrar o bom jornalismo de VEJA, fornecendo munição aos adversários
da liberdade de informação e opinião. Em sua edição
da semana passada, numa fraude jornalística que lhe serviu de capa, IstoÉ
retomou o episódio do processo contra o ex-presidente da Câmara
dos Deputados Ibsen Pinheiro, ocorrido em 1993, para afirmar que Ibsen, acusado
de participar do esquema da Máfia dos Anões do Orçamento,
havia sido "massacrado" por uma reportagem de capa de VEJA, na qual uma movimentação
financeira do ex-deputado equivalente a 1.000 dólares
havia se transformado em 1 milhão de dólares, em virtude de um erro
grosseiro no cálculo de conversão, procedimento comum à época,
por causa das sucessivas trocas de moeda que ocorriam no Brasil. IstoÉ
afirma que esse erro de VEJA foi decisivo para a cassação, em
1994, de Ibsen, então um forte candidato a presidente do Brasil. E o mais
grave: que o erro foi proposital. Para embasar sua fraude jornalística,
IstoÉ lançou mão de uma carta endereçada a
Ibsen Pinheiro por Luís Costa Pinto, o Lula, na época editor da
sucursal de VEJA em Brasília e autor da reportagem sobre Ibsen. Nessa carta,
escrita onze anos depois do episódio, Lula diz que o ex-editor executivo
de VEJA Paulo Moreira Leite, ao ser informado pelo chefe da equipe de checagem
da revista, Adam Sun, de que a movimentação era de 1.000
dólares, e não de 1 milhão de dólares, sugeriu que
Lula encontrasse alguém para sustentar a cifra milionária. Por medo
de perder o emprego, segundo ele próprio, Lula então recorreu ao
deputado Benito Gama, que teria se disposto a cacifar a falsa informação.
A FRAUDE
Como se verá nesta reportagem, a peça de Lula usada de modo fraudulento
por IstoÉ seria apenas cômica se não tivesse se transubstanciado
num ato irresponsável e criminoso perpetrado pela direção
de IstoÉ, para destruir o maior patrimônio de VEJA, aquele
que a transformou na maior revista brasileira e na quarta do mundo: sua credibilidade.
A regra mais elementar do jornalismo manda que uma denúncia, seja ela qual
for, deve ser apurada com rigor. Se assim não fosse, pululariam na imprensa
acusações feitas por malucos e gente desonesta. A carta de Luís
Costa Pinto é uma peça falsa, indevidamente amplificada pelo mau
jornalismo de IstoÉ. Costa Pinto foi um bom profissional do jornalismo,
participou de apurações de reportagens em VEJA, inclusive a entrevista
com Pedro Collor, irmão de Fernando Collor, uma das mais importantes realizações
da revista. Depois deixou de servir ao jornalismo para se servir do jornalismo,
tornando-se marqueteiro, consultor de políticos e lobista, pronto a se
engajar em operações pangaias. Imerso nessa confusão profissional,
ele produziu a carta que serviu aos interesses mesquinhos de IstoÉ.
Se o diretor de redação de IstoÉ, o fotógrafo
Hélio Campos Mello, tivesse se dado ao trabalho de mandar um de seus repórteres
apurar as afirmações de Lula, chegaria à conclusão
óbvia de que a carta é repleta de absurdos. Se tivesse se dado ao
trabalho, ainda, de dar uma olhadela nos arquivos de sua própria revista,
veria que IstoÉ, em 1993, publicou na mesma semana que VEJA que
Ibsen havia movimentado 1 milhão de dólares por ironia do
destino, a matéria de IstoÉ trazia o mesmo título
da de VEJA, "Até tu, Ibsen". E só mais um pouquinho de trabalho
seria suficiente para constatar que jornais como Folha de S.Paulo e O
Estado de S. Paulo também haviam noticiado a mesma quantia. A razão
é simples: a cifra de 1 milhão de dólares não foi
um erro de VEJA, e muito menos intencional. Foi um erro da CPI do Orçamento,
divulgado, repita-se, por todos os grandes órgãos de imprensa. Esse
erro foi corrigido por VEJA na edição da semana seguinte. Correção
que foi sonegada por IstoÉ. Mas o fotógrafo Hélio
Campos Mello estava ocupado demais para fazer o trabalho certo. O
MAU JORNALISMO DE IstoÉ
| VEJA APONTOU O ERRO DA CPI... |
Clique na imagem para vê-la
ampliada  |
| Na primeira reportagem (à dir.), VEJA reproduziu
o erro da CPI, afirmando que 1 milhão de dólares haviam sido depositados
na conta de Ibsen. Na segunda reportagem (à esq.), VEJA traz a seus
leitores a correção feita pelos auditores da CPI | Como
IstoÉ faz mau jornalismo, cabe a VEJA fazer a lição
de casa da suposta concorrente e desmontar a peça caluniosa e amalucada
de Luís Costa Pinto, marqueteiro quando lhe convém, lobista quando
lhe convém, jornalista quando lhe convém e ético quando lhe
convém. Em sua carta, Lula diz que foi
acordado antes das 8 da manhã do sábado seguinte ao fechamento da
revista, por toques insistentes da campainha do apartamento onde morava, pela
repórter Silvania Dal Bosco, sua colega de sucursal de VEJA em Brasília.
De acordo com Lula, Silvania lhe disse que, como não havia conseguido contatá-lo
por telefone (fora do gancho, segundo Lula), Paulo Moreira Leite havia lhe pedido
que fosse até a casa dele. Lula, então, telefonou para a redação
em São Paulo, onde foi informado, "aos gritos", pelo chefe da checagem
de VEJA, Adam Sun, de que a conversão estava errada de que 1.000
dólares haviam se transformado em 1 milhão.
Se IstoÉ tivesse entrevistado Silvania, depararia com a primeira
informação contraditória. A ex-repórter de VEJA, hoje
assessora de imprensa, nega que tenha acordado Luís Costa Pinto a pedido
de Moreira Leite. "Não me lembro de ter sido mandada à casa de Lula
para avisá-lo sobre o tal erro. A história é incompreensível
do começo ao fim. Os fatos citados por Lula são do meu total desconhecimento.
Nunca falamos sobre esse suposto erro. Naquela noite, a sucursal preparava uma
matéria sobre Ibsen. Eu sabia disso, mas nunca fiquei sabendo se houve
algum problema de edição nem que Adam Sun havia identificado algum
engano na matéria. Fui envolvida nesse episódio por Lula sem ao
menos ter sido avisada."
| ...MAS ISTOÉ
SONEGOU A CORREÇÃO | Clique
na imagem para vê-la ampliada  |
| No mesmo dia em que VEJA chegava às bancas, IstoÉ
e os jornais circularam com a mesmíssima informação e a mesma
fonte: 1 milhão de dólares na conta de Ibsen, segundo a CPI |
"É UMA INJUSTIÇA IGNÓBIL"
IstoÉ também não entrevistou
o ex-checador de VEJA Adam Sun. Indignado por ter sido usado maldosamente por
Lula, Sun endereçou uma carta a IstoÉ, na qual rebate ponto
por ponto as fantasias delirantes e os detalhes mentirosos do ex-jornalista. Procurado
por VEJA, Sun repassou sua carta, dizendo que dela constava tudo o que tinha a
dizer sobre o assunto. E o que diz a carta? Diz, em resumo, que:
Não é verdade que ele tenha gritado: "Lula, essa soma não
dá 1 milhão de dólares. Dá 1.000".
Não é verdade, como afirma Lula,
que a checagem tenha recebido um prêmio de 1.000
dólares por ter detectado e corrigido um erro. O prêmio foi de 500
dólares, e quem o recebeu não foi Sun, e sim a checadora Maria Margarida
Negro, Margô. O que a checadora Maria Margarida
Negro corrigiu foi a soma dolarizada de dois cheques embolsados por Ibsen. No
relatório de Lula, enviado à redação em São
Paulo, constava que os dois cheques totalizavam o equivalente a 600.000
dólares, quando na verdade a cifra era de 600 dólares.
A referência a esses cheques não está na matéria de
VEJA nem na capa da revista, uma vez que a checagem havia detectado o erro de
Costa Pinto e impedido que VEJA o publicasse.
A checagem de VEJA não descobriu que qualquer soma de cheques de Ibsen
dava 1 000 dólares, e não 1 milhão de dólares.
Adam Sun conclui sua carta afirmando: "Sempre me pautei
pelo rigor da verdade dos fatos. Todos os erros de informação quando
detectados pela minha equipe, tanto em VEJA como em Época, eram
sanados antes de a matéria ser publicada. Afirmar que a checagem sob a
minha responsabilidade deixou de corrigir uma informação errada
intencionalmente e ainda por cima ser conivente com esse tipo de mau jornalismo
é uma injustiça ignóbil".
Como não entrevistou Sun, IstoÉ também não
ouviu Margô, ex-checadora de VEJA. VEJA a entrevistou. Margô não
só confirma tudo o que Sun diz em sua carta, como acrescenta um detalhe
que ilustra o bom jornalismo praticado por VEJA: um elogio de Ibsen à revista.
"No final de 1993, eu estava checando a edição de fim de ano, sobre
Betinho, quando o então diretor de redação de VEJA, Mario
Sergio Conti, foi à minha mesa, o que me surpreendeu. Ele me disse que
Ibsen Pinheiro havia agradecido a um órgão de imprensa por ter descoberto
e evitado que saísse um erro em suas contas", diz Margô. Esse órgão
de imprensa evidentemente era VEJA. O DIRETOR
DE IstoÉ É MÍOPE OU ANTIÉTICO O
milhão de dólares de movimentação que consta da primeira
matéria de VEJA, assim como da de IstoÉ e dos jornais, foi
passado pela CPI como saldo das contas de Ibsen e não se referia exclusivamente
aos cheques em questão, que contabilizavam, afinal, apenas 600 dólares,
como descobriu a checadora Margô. Esse milhão de dólares,
como VEJA viria a esclarecer na matéria seguinte, era na verdade o total
da movimentação das contas de Ibsen entre 1989 e 1993, e somente
isso. Movimentar, no jargão bancário, não significa ter,
explicou VEJA, diante da confusão da CPI.
Egberto Nogueira  |
| Lula Costa Pinto: a triste trajetória de repórter
brilhante a marqueteiro e lobista | Lula,
que chegou a ser chefe da sucursal de VEJA em Brasília, aparenta desconhecer
o funcionamento e a hierarquia da revista em que trabalhou. Em VEJA, nenhuma matéria
de capa é publicada ou alterada sem a participação do diretor
de redação. No entanto, na carta de Lula, a revista parecia um pasquim
à deriva. Ela não cita Mario Sergio Conti, que ocupava o cargo de
diretor de redação. Pela carta de Lula, a sucursal de Brasília
também parecia não ter chefe. Ele não faz nenhuma menção
a Eduardo Oinegue, atual diretor de Exame, que na época comandava
a sucursal de VEJA em Brasília. "Naquele tempo, assim como hoje, todos
os contatos importantes de São Paulo com a sucursal de Brasília
eram feitos através do chefe da sucursal. Eu não participei de nenhuma
discussão como a descrita na carta", diz Oinegue. A hipótese mais
provável é que, ao omitir os nomes de Conti e Oinegue, e concentrar
toda a responsabilidade sobre Moreira Leite, Lula tentou diminuir o espectro das
reações a suas mentiras. Um dos
dois protagonistas do episódio contatados por IstoÉ foi Benito
Gama. Ele pretende processar Lula por calúnia e difamação.
"Esse episódio é um delírio, uma fantasia de Lula, que me
causa um enorme constrangimento", diz Benito. O outro foi Paulo Moreira Leite,
atual diretor de redação do jornal Diário de S. Paulo.
Na véspera da publicação da fraude, IstoÉ deu
a Moreira Leite uma hora para escrever uma declaração sobre o caso.
Não lhe deram o direito de ler a carta de Lula que o caluniava. Diz Moreira
Leite em artigo para VEJA (veja a íntegra
abaixo): "Afirmei que a versão da matéria lida estava
errada, mas não conseguia recordar detalhes de um diálogo absurdo,
inventado, que diziam ter ocorrido havia onze anos. Não podia aceitar a
versão de que VEJA trouxera na capa a informação de que Ibsen
tinha 1 milhão de dólares nas contas. Eu sabia que a checagem apanhara
o erro estúpido. Liguei para o diretor de redação de IstoÉ,
Hélio Campos Mello, para perguntar: 'Você tem certeza de que a capa
de VEJA falava em 1 milhão?'. Sempre com o telefone na mão, ele
disse que ia verificar na mesma hora: 'Peraí... Estou vendo aqui a foto
da capa. Está meio escura... Não consigo ler tudo... Mas dá
para ler a palavra dó-la-res'. Assim se produziu e publicou uma fraude
em forma de reportagem". Das duas uma: ou Hélio
Campos Mello tem um problema de visão, e precisa ir ao oftalmologista,
ou sofre de falta de ética. Como é um bom fotógrafo... A
capa de VEJA que traz a matéria sobre Ibsen não fala em 1 milhão
de dólares. A chamada é "Até tu, Ibsen? Um baluarte do Congresso
naufraga em dólares suspeitos". Lula diz em sua carta que, para evitar
que fosse jogado fora 1,2 milhão de capas de VEJA já rodadas, Moreira
Leite teria sugerido que ele colocasse na boca de alguém a falsa informação
do milhão de dólares. Além de essa cifra não constar
da capa, como perceberia qualquer fotógrafo com ética, há
outro detalhe que ajuda a explicitar a malícia da farsa de IstoÉ/Lula:
a tiragem de VEJA em 1993 girava em torno de 800.000
exemplares. A da edição de número 1.314,
que traz a matéria de capa sobre Ibsen, foi precisamente de 834.119
exemplares, como está impresso no índice daquela revista. A tiragem
que Lula coloca na boca de Moreira Leite é a média de hoje. É
indício de mentira fabricada às pressas. O
1 MILHÃO DE IstoÉ VIROU 2,3 MILHÕES Dizer
que a reportagem de VEJA foi responsável pela cassação de
Ibsen Pinheiro é uma falsificação jornalística e uma
mentira histórica. VEJA não é o terrorista turco Ali Agca,
nem Ibsen é o papa João Paulo II. Ibsen não foi alvejado
por VEJA no auge de sua carreira política. Ele vinha se arrastando em acusações
e acabou cassado porque não soube explicar a seus pares a origem de determinadas
quantias depositadas em suas contas depósitos e movimentações
que variavam a cada semana, por absoluta inépcia da CPI do Orçamento.
Em certo momento, a movimentação de Ibsen, de acordo com a CPI,
teria atingido 2,3 milhões de dólares. Aliás, IstoÉ
registrou essa quantia em sua retrospectiva de 1993, colocando Ibsen ao lado dos
integrantes da Máfia do Orçamento, num quadrinho intitulado "Dinheiro
farto" Hélio Campos Mello também não viu isso.
Andre Penner  |
| Adam Sun, ex-chefe de checagem de VEJA: sua equipe evitou
que a revista publicasse o erro de Costa Pinto |
É entristecedor que Lula, um repórter brilhante na juventude, tenha
enveredado pelo caminho da fraude. Sua carta a Ibsen cortou definitivamente sua
trajetória no jornalismo, colocando-o no limbo onde transitam pessoas que,
por terem sido jornalistas de alguma expressão, hoje se oferecem como lobistas
e "apaziguadores de crises". Em e-mail endereçado a VEJA, Lula nada acrescentou
que esclarecesse as circunstâncias em que ele produziu sua fábula.
Tomada de surpresa pela fraude de IstoÉ,
VEJA, em sua edição passada, pediu desculpas por eventuais erros
que tenha publicado no caso de Ibsen e em outros daquele período tormentoso.
Mas eles jamais foram intencionais e quase sempre foram compartilhados
por outros veículos, como a própria IstoÉ, que também
se alimentavam das informações fornecidas pelos integrantes da CPI.
O julgamento de Ibsen foi eminentemente político. Cassado, ele teve arquivado
em 1999, pelo Supremo Tribunal Federal, um inquérito que o acusava de sonegação
fiscal. Ibsen pagou à Receita Federal 6.847
reais. Ao pagar o débito, evitou ser punido pelo crime de sonegação.
Quantos às outras irregularidades apontadas pela CPI, o Ministério
Público não encontrou provas suficientes. Só para lembrar,
Fernando Collor de Mello não recebeu condenação também
por falta de provas. Hoje, Ibsen quer voltar à política. Candidatou-se
a vereador em Porto Alegre. A fraude de IstoÉ/Lula é, assim,
uma peça de propaganda política a carta mentirosa irá
constar também de uma biografia que Ibsen diz que se prepara para lançar.
A fraude de IstoÉ ganhou os holofotes
de parte da imprensa. Alguns jornais e articulistas se apressaram em condenar
VEJA sem antes verificar os fatos. Se tivessem realizado um procedimento básico
do jornalismo, o de certificar-se do que eles próprios publicaram sobre
o caso no passado, teriam se livrado de cometer o mesmo deslize que IstoÉ
falsamente imputou a VEJA. Chegou-se a dizer que o episódio era fruto de
uma disputa comercial entre IstoÉ e VEJA. Trata-se de uma manobra
encobridora. Não há disputa comercial entre as duas revistas. A
circulação total de VEJA é quase quatro vezes maior do que
a de IstoÉ, hoje a terceira semanal do Brasil, atrás de Época.
E VEJA só vende assinaturas e exemplares em bancas.
| "QUANTOÉ"
 |
| Jornalismo heterodoxo de IstoÉ: a reportagem
entrevista e o comercial manda a conta | A capa
da edição da revista IstoÉ que chegou às bancas
no dia 24 de julho, intitulada "Rio trabalhador", trouxe evidências de que
a publicação entrega a seus leitores material publicitário
disfarçado de reportagem. O informe publicitário com 21 páginas
de elogios ao desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro chamou a atenção
de dois jornalistas de veículos diferentes: Milton Coelho da Graça,
do site Comunique-se, e os responsáveis pela coluna de Monica Bergamo,
na Folha de S.Paulo. O primeiro, em artigo veiculado no dia 26 de julho,
pergunta: "Como uma revista pode ter credibilidade em suas reportagens investigativas
enfiando no meio delas matérias pagas desse tipo?". Uma semana depois,
a coluna de Monica Bergamo informou que a "reportagem" de IstoÉ
teria sido paga pela Federação das Indústrias do Estado do
Rio de Janeiro (Firjan). Em carta a VEJA, a Firjan explica o episódio,
mas não melhora em nada a situação de IstoÉ.
Fica claro que a revista usa métodos heterodoxos: a redação
faz e o comercial cobra pelas reportagens. A Firjan diz que um repórter
de IstoÉ solicitou entrevista com seu presidente, Eduardo Eugênio
Gouvêa Vieira, para uma "reportagem especial sobre o Rio de Janeiro" e que,
"depois da entrevista, o comercial da IstoÉ procurou a área
de marketing da Firjan oferecendo espaço publicitário para apoiar
a publicação". O "jornalismo" praticado por IstoÉ já
rendeu à revista, em círculos bem informados, o apelido de "QuantoÉ".
Os esquemas de IstoÉ já haviam sido denunciados pelo jornalista
Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo, no ano passado. Em reportagem
que lhe rendeu o Prêmio Esso de melhor contribuição à
imprensa em 2003, Rodrigues investigou o uso de dinheiro público por parte
do governo do Paraná, em 2002, na compra de matérias jornalísticas
favoráveis à gestão de Jaime Lerner, à época
seu titular. Rodrigues registrou que o único veículo de circulação
nacional pago para elogiar Lerner fora a IstoÉ Gente, também
da Editora Três. Nota fiscal obtida pelo repórter mostrou que, para
publicar "reportagens" elogiando as atrações turísticas do
Estado, a revista cobrou 500 000 reais. | |
| "ESTELIONATÁRIOS
DE FACTÓIDES" 
Por Paulo Moreira
Leite
Claudio Rossi  |
| Paulo Moreira Leite. IstoÉ não lhe
deu o direito de ler a peça que o caluniava | Fui
informado da fraude publicada pela revista IstoÉ à meia-noite,
numa quinta-feira, pelo celular, quando recebi o prazo de uma hora para redigir
uma declaração sobre o caso. Não pude ler o artigo de Jayson
Blair Costa Pinto (Jayson Blair é o nome do repórter que, até
ser desmascarado recentemente, inventou personagens, situações e
escreveu reportagens inteiramente falsas no jornal americano The New York
Times). Ainda incrédulo no que me diziam, consegui ouvir algumas frases
ao telefone. Afirmei que a versão da matéria lida estava errada,
mas não conseguia recordar detalhes de um diálogo absurdo, inventado,
que diziam ter ocorrido havia onze anos. Não podia aceitar a versão
de que VEJA trouxera na capa a informação de que Ibsen tinha 1 milhão
de dólares nas contas. Aquilo não era possível. Eu sabia
que a checagem apanhara o erro estúpido de Jayson Blair Costa Pinto. Liguei
para o diretor de redação de IstoÉ, Hélio Campos
Mello, para perguntar: "Você tem certeza de que a capa de VEJA falava em
1 milhão?". Sempre com o telefone na mão, ele disse que iria verificar
na mesma hora: "Peraí... Estou vendo aqui a foto da capa. Está meio
escura... Não consigo ler tudo... Mas dá para ler a palavra dó-la-res...".
Assim se produziu e se publicou uma fraude
em forma de reportagem. Entre 1993 e a semana
passada tive vários contatos com Jayson Blair Costa Pinto. Dez dias antes
da publicação da fraude, conversamos no saguão de um hotel
no Rio. Provavelmente porque continuava "pensando no emprego", como diz ter feito
por onze longos e sofridos anos, Blair Costa Pinto agiu de modo covarde e dissimulado.
Nada me disse nem perguntou sobre o episódio. Deu um abraço largo,
sorriu, falou amenidades simpáticas. Em 2001, me procurou quando estava
de novo "pensando no emprego". Queria trabalhar sob minha direção
numa revista. Não se mostrava atormentado pelas alegadas lembranças
e culpas do caso Ibsen Pinheiro. Recusei seu pedido de emprego.
Estelionatários de factóides como Blair Costa Pinto trabalham com
facilidade quando a imprensa está de guarda baixa e o jornalismo amolece.
Os jornais não precisam ser tutelados por um Conselho Federal de burocratas,
na realidade um júri do Chacrinha pago com nosso salário. Os jornais
precisam de mais leitores e mais anúncios, e mais jornalistas. Viveram
dez anos de emagrecimento, cortes e ajustes. Não têm revisão.
A maioria não tem checadores. Nunca tiveram um número tão
reduzido de repórteres. Ficaram desprotegidos.
A farsa de Jayson Blair Costa Pinto embrulhou boa parte da imprensa por vários
dias, embora não passasse de um agregado de mentiras, confusões
e erros grotescos. Os estelionatários são vorazes, têm o bolso
cheio e adoram sinais de fraqueza. Mais do que nunca a imprensa terá de
reaprender a lição de Adam Sun: investigar é muito importante,
mas checar é essencial. | | |